Diário do Bolso: Desenterrando o meu passado

O jornalistinha descobriu que naquele tempo eu plantei arroz, melancia, e até desencavou uma carta anônima que dizia que eu trazia muamba do Paraguai para o Brasil.

José Roberto Torero*

Pô, Diário, essa semana eu já falei de um filme e hoje vou falar de um livro. Será que eu tô virando intelectual? Vou fazer um churrasco e dar uns tiros para espantar o encosto.

Bom, mas eu só li o livro porque é sobre mim. O nome dele é “O cadete e o capitão: a vida de Jair Bolsonaro no quartel”, de um tal de Luiz Maklouf Carvalho.

O livro conta a minha vida toda no exército. E começa bem do começo. Por exemplo, ele conta que eu passei na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, mas no último dia para me apresentar, eu não queria ir, porque ia ser goleiro do Madureira, lá de Eldorado, num Desafio ao Galo. Mas aí o meu pai mandou e eu fui.

Também conta que eu prestei para o curso errado. É que eu já tinha o científico em 1973. Então eu não devia ter prestado para a Escola Preparatória. Foi como se eu tivesse voltado pro primeiro colegial em vez de ter entrado para a faculdade. Só no fim do ano que eu prestei pras Agulhas Negras.

Uma coisa que eu gostei foi que o livro mostra que eu salvei o soldado Celso Negão de morrer afogado. Por conta disso, ganhei a medalha do Pacificador. Quer dizer, na verdade o salvamento aconteceu em 1978 e eu pedi a condecoração em 2012. Mas só ganhei a medalha em 2018, depois que fui eleito presidente.

O tal do Maklouf fala até dos dois anos que eu passei em Nioaque, perto da fronteira com o Paraguai. No livro que o Flavinho fez sobre mim (“Mito ou verdade”) só tem duas linhas sobre esse tempo, mas o jornalistinha descobriu que naquele tempo eu plantei arroz, melancia, e até desencavou uma carta anônima que dizia que eu trazia muamba do Paraguai para o Brasil.

O assunto mais quente de “O Cadete e o Capitão” é o meu julgamento, quando fui acusado de ser um dos cabeças da operação “Beco sem Saída”, que ia explodir umas bombas para mostrar que a gente estava revoltado com os salários baixos.

Uma repórter da Veja disse que eu tinha contado o plano para ela e até desenhei um croqui de como ia ser o ataque. Aliás, a jornalista me acusou de, na época do julgamento, fazer arminha com a mão para ela, como se a tivesse ameaçando. Será que foi aí que eu tive a ideia do meu símbolo da campanha?

Bom, o principal argumento da minha defesa foi que não se tinha certeza se os croquis tinham sido realmente desenhados por mim. Os dois primeiros exames grafológicos deram “inconclusivos” e os dois seguintes diziam que eu era o autor dos croquis. Então, com o empate em 2 a 2, a dúvida era a favor do réu. Só que o tal do Maklouf percebeu que não eram quatro exames, mas três, porque o segundo foi retificado e virou o quarto. Então teve um inconclusivo, o primeiro, porque não foi feito em cima dos papéis originais, e dois que diziam que eu era o autor dos croquis.

Mas esse negócio de prova é bobagem. Cada juiz vê o que quer. Tem quem é preso sem prova e quem tá provado que é culpado e não é preso. Prova só comprova se o juiz aprova.

O que eu acho estranho é que nenhum jornal ou revista de hoje em dia tentou refazer os exames grafológicos. Melhor assim, Diário. Esse assunto é uma bomba, kkk!

*José Roberto Torero é autor de livros, como “O Chalaça”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1995. Além disso, escreveu roteiros para cinema e tevê, como em Retrato Falado para Rede Globo do Brasil. Também foi colunista de Esportes da Folha de S. Paulo entre 1998 e 2012.

@diariodobolso

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