Diário do Bolso: a musa e o muso do desgoverno atual

Primeiro veio a história da balbúrdia. Logo de cara ele conseguiu um bordão. O meu foi soterrado.

José Roberto Torero*

Poxa, Diário, ser presidente não é fácil. Todo mundo no meu governo quer aparecer. E aí um fica brigando com o outro. Que nem o Bebbiano e o Carluxo. Que nem o Olavo e o Mourão. Agora a coisa vai ficar preta entre a Damares e o Weintraub. Hoje de madrugada ela me ligou e a gente teve uma conversa que foi mais ou menos assim:

“Bom dia, meu Messias, tudo bem?

“Fala, Damarinha. Tudo azul?”

“Não, presidente. Tudo preto.”

“Que foi? Fala que eu te escuto.”

“Presidente, eu não estou fazendo bem a minha parte?”

“Claro que está, Damarinha. Você só tira nota dez. Vem fazendo tudo certinho. Viu Jesus na goiabeira, disse que mulher é inferior ao homem no casamento, falou mal da princesa do Frozen e do Bob Esponja… Você é a nossa estrela!”

“Pois então, presidente. Por que estão colocando outro no meu posto?”

“Outro?”

“O Weintraub.”

“Imagina, Damarinha. Ninguém tira o seu lugar.”

“Mas é o que ele quer, presidente. Repare bem. Logo de cara ele inventou um bordão.”

“Qual?”

“Balbúrdia.”

“Esse pegou mesmo.”

“O meu lema foi soterrado. Ninguém fala mais em ‘menina veste rosa, menino veste azul’.”

“Foi só um acaso…”

“Podia ser. Mas depois ele veio com a história dos chocolates. Fez até mercham, e tinham me dito que isso não podia.”

“Hehe. Aquilo foi engraçado. E eu ainda comi uns.”

“Presidente, isso não é brincadeira. Ele quer roubar o meu papel. Aquela história de Kafta, por exemplo. Tem que ter sido armado. Ninguém fala uma bobagem dessas.”

“Damarinha…”

“E ele fez até vídeo erótico!”

“Tem golden shower? Onde? Manda o link!”

“Não, presidente. Estou falando daquele ombrinho na internet. Pensei que só o senhor podia mostrar cicatriz.”

“É, aí ele abusou.”

“E agora fez uma dancinha com guarda-chuva. Foi a gota d’água! Ele quer pegar a minha vaga. Se bobear, até a sua.”

“Você acha, Damarinha?”

“Quem é que apareceu mais nos últimos meses? Fui eu? Foi o senhor? Foi o Ernesto? Foi o Olavo? Não, foi ele.”

Depois ela desligou. E eu fiquei pensando cá com o meu zíper: Por que será que o Weintraub quer aparecer tanto?

É, Diário, não sei, não. Preciso ficar de olho nestas conspirações palacianas. Estou com o carrapato atrás da orelha.

@diariodobolso

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*José Roberto Torero é autor de livros, como “O Chalaça”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1995. Além disso, escreveu roteiros para cinema e tevê, como em Retrato Falado para Rede Globo do Brasil. Também foi colunista de Esportes da Folha de S. Paulo entre 1998 e 2012.

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