Diário do Bolso: 31 de março, que saudade, viu?

Por José Roberto Torero*

Diário, o dia 31 de março está chegando. Precisamos fazer uma grande festa para comemorar a Gloriosa! Eu já mandei que todos os quartéis comemorassem a data histórica. Mas os generais estão meio devagar. Dizem que a coisa tem que ser suave. Suave nada! Tem que ser festão!

Aqui no Brasil o pessoal fez um acordo de paz meio fajuto, que nem quando marido bate em mulher e os dois acabam se acertando. Mas agora chega dessa paz de covarde. A gente tem que mandar brasa! Aposto que o Toffoli vem pra festa. Até já planejei umas coisas.

Pra começar, vou encomendar uma estátua do Ustra. Já pensou, Diário, que lindo ia ser ele em frente a um torturado numa cadeira de dragão, tudo em bronze? Ou pode ser uma coisa mais moderna, que nem aquelas estátuas com água. Por exemplo, o Ustra podia estar afogando um barbudo num chafariz. Ou podia ser uma estátua com luzes. Tipo ele dando choques numa grávida. Uns fios luminosos em volta da mulher iam imitar a eletricidade. Maravilha!

Também pensei num baile de gala. Mas tem que ser diferente. Pensei em todo mundo entrar de cavalo. Só pra mostrar quem manda. Ia ser ruim de limpar o salão depois, mas tudo bem. É o preço.

Um torneio de tiro ao alvo é outra boa ideia. Podia se chamar Troféu Araguaia. E em vez de alvo a gente podia usar umas cabeças de guerrilheiros. De papel machê, é claro, que guerrilheiro está em falta.

31 de março de 1964…

Ah, Diário, se a gente pudesse voltar no tempo… Na verdade, esse é meu maior sonho: voltar para a década de 60. Naqueles dias homem era homem, mulher era mulher, tinha filme de bang-bang, todo mundo cantava o hino na escola, a imprensa não enchia o saco, existia comunista de verdade pra gente combater, e combater não era só no verbo, era na bala.

Que saudade, viu?

Vou te contar, Diário: no fundo eu sou um Simca Chambord. Só que com uma metralhadora no capô.

@DiariodoBolso

*José Roberto Torero é autor de livros, como “O Chalaça”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1995. Além disso, escreveu roteiros para cinema e tevê, como em Retrato Falado para Rede Globo do Brasil. Também foi colunista de Esportes da Folha de S. Paulo entre 1998 e 2012.

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