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De referência mundial ao paraíso dos retrocessos sociais

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Por Mírian Gonçalves, durante Conferência do Conpedi, na Costa Rica

 

O Brasil, ao longo dos últimos 15 anos, havia se transformado em exemplo de crescimento e distribuição de renda. A concretude de programas como o “Bolsa Família” e “Minha Casa Minha Vida” retirou da miséria 36 milhões de brasileiros (Governo Federal, 2014) e garantiu, somente na faixa 1, mais de um milhão de  casas à população de baixa renda (Brasil da Mudança, 2014), mudou a realidade. Programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) estimularam a produção da agricultura familiar e a merenda escolar de melhor qualidade. As salvaguardas às terras indígenas e quilombolas; a criação de áreas de proteção ambiental (APAs) marcaram uma década. O Brasil foi reconhecido mundialmente por sua liderança ampliando o comércio exterior, a balança comercial e o PIB e assim, tornou-se em 2011 a sexta maior economia do mundo à frente de países como Reino Unido e Itália (Portal G 1, 2015).

 

Entretanto, o que poderia ser considerado benéfico ao crescimento dos mercados interno e externo, ampliando o ganho dos empresários, não contempla a lógica do capital que não mira somente o lucro, mas a dominação mundial, a qualquer custo, numa verdadeira orquestração global que atinge todos os continentes, sem distinção de países pobres ou ricos, guardada a proporção dos efeitos em suas populações e na miséria humana.

 

Chamo a atenção para: o avanço do discurso da direita e da extrema-direita no mundo; Brexit no Reino Unido, Trump nos EUA; Crise dos Refugiados – mais de 65,3 milhões de refugiados no mundo (segundo a ONU/2015); Avanço dos governos de centralização e não mais de globalização; Aumento dos conflitos e de guerras (EUA e aliados x Coréia do Norte, Rússia, Oriente Médio); Avanço do egoísmo, da concentração de riquezas, da violência (nos dizeres de Cézar Britto).

 

Incautos, não previmos a repetição da história: “a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” (Karl Marx em citação a Hegel, na obra “18 Brumário de Luis Bonaparte”). Não nos preparamos para ela. Depois do holocausto dos judeus que chocou o mundo, e que não nos permitimos esquecer, hoje vemos legiões de – famintos e desprovidos – caminhando cercados por muros erguidos por quem os explorou, tirou-lhes as terras, matou suas crianças, sua esperança e sua dignidade.

 

É um imenso retrocesso nas relações sociais e institucionais.

 

O Brasil não conseguiu ser exceção.

 

Dentro desse contexto, proponho a reflexão sobre a remota possibilidade de concretização dos direitos da natureza, do meio ambiente, onde houver fome, desigualdade e opressão. Onde a liberdade seja apenas um conceito abstrato.

 

Não é possível a defesa das matas se não garantirmos aos indígenas suas terras como forma de subsistência e de preservação cultural.

 

Não é possível haver garantia alimentar e equilíbrio ambiental se os ruralistas continuarem a devastar terras para a plantação de soja, cana de açúcar e criação de gado.

 

Quando em outubro de 2015, o Instituto Ulisses Guimarães (uma ofensa ao nome de um verdadeiro democrata), lançou o manifesto “UMA PONTE PARA O FUTURO” – o golpe contra os trabalhadores e trabalhadoras já estava delineado.

 

Não tardou. Primeiro contra a democracia, depois a favor do capital.

 

Em 31 de agosto de 2016, tomou posse o presidente ilegítimo Michel Temer, com a destituição da Presidenta Dilma. Por falta de melhor argumento, utilizou-se um expediente burocrático que já havia sido praticado por todos os seus antecessores, aproveitando da sua baixa popularidade à época e a um inescrupuloso ataque midiático contra o Partido dos Trabalhadores e o ex-Presidente Lula. (Para dar a dimensão disso, em um ano, considerando apenas um veículo de comunicação, a Globo utilizou do seu horário mais nobre, por mais de dezoito horas para desqualificar LULA).

 

O discurso hegemônico da mídia atingiu rapidamente seus objetivos e parte expressiva da população (a multidão patriótica, como chamou Michel Lowy) saiu em protesto contra a corrupção, não percebendo que os corruptores os financiavam.

 

O ódio dividiu o país. A onda persecutória atingiu especialmente os integrantes do Partido dos Trabalhadores, do PCdoB e seus líderes e integrantes de movimentos populares.  (Na madrugada de 25 de maio, deu-se o quarto ataque à sede do PT-PR com coquetéis molotov em menos de um ano).

 

A população, distraída por desmandos noticiados à exaustão, acredita que ali está o cerne de todos os males e que, prendendo alguns, devidamente selecionados, o país votará ao pleno emprego, ao desenvolvimento econômico, social e financeiro que tinha há apenas dois anos.

 

Esses brasileiros, não conseguiram ver além das manchetes da grande imprensa, oligopolista e subserviente.

 

Por outro lado, a falta de legitimidade não impediu o governo Temer de cumprir com suas promessas (ao capital, claro!). Muito rapidamente, as forças governistas se articularam para cumprir com a agenda das Confederações das Indústrias, FIESP, todo o Sistema S, empresas transnacionais, demais patrocinadores do golpe.

 

Deu-se assim, início ao desmonte das conquistas de uma sociedade, asseguradas constitucionalmente por aquela a que chamamos carinhosamente de Constituição Cidadã.

 

Em 31 de março de 2017, o presidente Temer promulgou a lei (13.429/17) que trata da terceirização e do contrato temporário, iniciando o maior retrocesso do direito do trabalho de que se tem noticia no país. (A data coincidiu, em parte, com a do golpe militar em 31 de março de 1964).

 

Menos de um mês depois, a Câmara dos deputados aprovou texto e o enviou ao Senado da Republica que prevê:

  • o aumento da jornada diária de trabalho;

  • o trabalho intermitente;

  • a terceirização ou quarteirização de qualquer função exercida pelos trabalhadores, inclusive na atividade fim da empresa;

  • permissão de trabalho insalubre para mulheres gestantes e lactantes;

  • enfraquecimento dos sindicatos e suas negociações coletivas;

  • permissão para redução de direitos previstos em lei;

  • restrição do poder normativo e conciliatório da Justiça do Trabalho;

  • restrição ao acesso gratuito à Justiça do Trabalho;

  • redução de direitos elementares como a possibilidade de redução para apenas meia hora de intervalo durante a jornada de oito horas; criação do contrato de trabalho intermitente; o parcelamento das férias em três períodos, e outros tantos, constantes dos 100 artigos que compõem o projeto de lei.

 

Na reforma fiscal, dissimuladamente, foi introduzido artigo que possibilita – que uma empresa individual – preste serviços, com exclusividade, para outra empresa e, assim, negar a esse trabalhador todos os direitos, pois empresa não tem férias, 13° salário, horas extras.

 

Mais reformas estão em andamento como a da Previdência Social, com o aumento do tempo de contribuição de 15 para 25 anos; a introdução de idade mínima de 65 anos para homens e 62 para mulheres, o que resulta na necessidade de 49 anos de contribuição para alcançar o direito à aposentadoria integral (o brasileiro vive em média 72,8 anos). É dizer que os brasileiros e brasileiras não mais se aposentarão.

 

Reduziram também o beneficio chamado “bolsa família” que garante condições básicas de vida de parte da população. Dificultaram o ingresso dos mais pobres nas universidades com financiamento publico; interromperam programa de construção de casas populares.

 

A todo esse conjunto chamaram de – modernização – redução do custo Brasil, prometendo com isso a criação de novos empregos e o desenvolvimento econômico do país.

 

Mas o capital, sedento de muitos anos, não se contentou com o empobrecimento de toda uma sociedade. Avançou em outras searas.

 

Na madrugada de 17 de maio, foram aprovadas medidas provisórias que ampliam a possibilidade de exploração em áreas importantes na Amazônia, reduzindo a área de proteção do Parque Nacional do Jamanxim em 300 mil hectares; a Floresta Nacional Itaituba II perdeu 168 hectares. Ao total, as MPs desprotegeram 1.19 milhão de hectares de unidades de conservação.

 

No mesmo dia, a CPI (Comissão Parlamentar de Inquério), cujo relator é o deputado ruralista Nilson Leitão, aprovou o indiciamento de 88 pessoas, entre elas 35 indígenas, 15 antropólogos e 16 procuradores da República (a quem cabe a defesa dos seus direitos). O relatório fala em falsos indígenas e descendentes de quilombolas e traz, entre outras propostas, a de reanálise da demarcação de terras indígenas.

 

Chegamos a um momento no Brasil em que todas as instituições estão fragilizadas ou dominadas pelos interesses do capital. Não há salvaguardas. O povo não pode contar com Justiça quando ela não cumpre a lei, ou com o Congresso inescrupuloso, ilegítimo e subserviente.

 

E a continuação do golpe de Estado está em curso no país. Temer, alvo de denúncias irrefutáveis de corrupção, tenta manter-se no poder.

 

A eleição indireta, que estão tratando como a única alternativa para a crise, não passa de nova trama daqueles que se reinventam e sobrevivem em qualquer situação.

 

De nada servirá à proteção do povo brasileiro, pois aguarda-nos um novo representante que defenderá as grandes empresas, grandes indústrias e os donos das terras brasileiras – melhor dizendo – o capital nacional e internacional.

 

Nossa civilização está ameaçada.

 

Nada nos sobrará das conquistas feitas ao longo de mais de 60 décadas.

 

Ao povo só resta uma saída: a mesma de sempre! A única que pode relativizar a guerra de forças que travamos: as ruas e a eleição direta de um governo popular.

 

A nós, além das ruas, fica a obrigação da denúncia em todos os lugares em que pudermos estar, onde haja defensores da democracia e dos direitos humanos.

 

Mírian Gonçalves é advogada de trabalhadores, militante dos Direitos Humanos. É mestra em Direito do Trabalho, sócia-fundadora dos institutos Defesa da Classe Trabalhadora (DECLATRA) e Instituto Direito e Democracia (IDD). Foi vice-prefeita de Curitiba pelo Partido dos Trabalhadores.

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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