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Missão com ministro da Defesa leva 66 mil comprimidos de cloroquina para indígenas de Roraima

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 Por:  Fábio Zuker 

 

O general Fernando Azevedo e Silva (de boné, na foto) participou da ação de combate a Covid-19. Medicamento é considerado por especialistas como prejudicial no tratamento do coronavírus e foi desaconselhado pela OMS (Foto: Ministério da Defesa)

 

Uma missão interministerial de emergência em saúde pública de combate à pandemia da Covid-19 em populações indígenas de Roraima, que contou com a presença do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, e de representantes do Ministério da Saúde, levou 66 mil comprimidos de cloroquina 150 MG para o tratamento de indígenas de nove etnias das Terras Indígenas Yanomami e Raposa Serra do Sol. A ação entregou aos distritos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) como máscaras, luvas e aventais. Participaram da missão 24 profissionais de saúde das Forças Armadas e jornalistas de agências internacionais. Quatro aeronaves foram utilizadas pela ação.

A cloroquina vem sendo reivindicada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no tratamento da doença causada pelo novo coronavírus, embora o uso da droga seja desaconselhado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade internacional suspendeu definitivamente os testes com hidroxicloroquina e nem sequer chegou a incluir a cloroquina em seu projeto de pesquisa internacional. Para a decisão, foram suficientes as conclusões negativas sobre efeitos adversos da cloroquina para um possível tratamento de Covid-19, conforme estudos de diversos países analisados pela OMS.

Em entrevista à agência Amazônia Real, o médico sanitarista Douglas Rodrigues, do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), alertou para os perigos no uso da cloroquina entre indígenas: “a prudência, a ética, o bom-senso, falam pelo não uso. Mas, contra todas as evidências científicas, insistem em usar”, disse o especialista, que trabalha com populações indígenas e em isolamento voluntário na Amazônia há mais de 50 anos.

A missão interministerial de emergência em saúde pública de combate à pandemia da Covid-19 em populações indígenas de Roraima aconteceu entre segunda-feira (29 de junho) e quarta-feira (1º de julho). “Trouxemos cerca de 4 toneladas de materiais de saúde para atender à comunidade local. O governo está preocupado com a saúde do brasileiro”, declarou o general Fernando de Azevedo e Silva, em coletiva de imprensa em Surucucu, na Terra Indígena Yanomami. De acordo com a nota divulgada pelo ministério, o general ressaltou que “nessa localidade não foi constatado nenhum caso de coronavírus entre indígenas”.

Em Boa Vista, o Ministério Público Federal (MPF) foi acionado por Júnior Hekurari Yanomami, Presidente do Conselho Distrital de Saúde indígena do Dsei Yanomami, que requisitou nesta quinta-feira (2) a instauração de um inquérito Policial Federal sobre a missão militar.

“O objetivo é apurar a distribuição de cloroquina às comunidades indígenas, o ingresso nos territórios sem prévia consulta de seus povos – em desrespeito à decisão de isolamento de muitas de suas comunidades -, a violação das regras de distanciamento social, a presença expressiva de meios de comunicação em contato com os indígenas e a eficiência de operação com vultoso gasto de recursos públicos”, disse o MPF em nota oficial.

A missão interministerial de emergência em saúde pública de combate à pandemia da Covid-19, acompanhada pelo general Fernando Azevedo e Silva, enviou aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas insumos para abastecer o Dsei Leste Roraima, para atender 49.706 indígenas de sete etnias dos 34 polos base de saúde, entre eles, Flexal e Ticoça; e de 37 polos do Dsei Yanomami para atender 25.486 indígenas em Surucucu, Auaris, Waikas e Maturacá.

Além dos 66 mil comprimidos de Cloroquina que foram distribuídos pelo governo federal entre os dois Dseis, a missão levou para o tratamento de Covid-19 em indígenas, mais 24.500 comprimidos de 150 MG de cloroquina, 15.708 comprimidos de Azitromicina 600 MG Frasco 15 ml; 10 mil comprimidos de Prednisona de 20 MG; 59.480 comprimidos de Prednisona de 05 MG, além de 78 mil comprimidos de Paracetamol 500 MG, entre outros remédios. Foram também distribuídos de 5.360 testes rápidos (268 kits) para coronavírus.

Os Dseis são estruturas federais vinculadas à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde. No Brasil, a Sesai atende a população aldeia, um total de 760.350 pessoas através de 34 Dseis no país. Na Amazônia Legal, são 25 Dseis que dão assistência para uma população de 433.363 pessoas. O coordenador da Sesai, coronel da reserva Robson Santos Silva estava na comitiva, acompanhando o general Fernando Azevedo e Silva. Em seu site, a Sesai disse que, durante a ação, foram realizados testagem para Covid-19. “Todos os indígenas testados durante a missão deram resultado negativo”. Indígenas do Vale do Javari questionaram a viagem de Robson Silva ao território, no Amazonas.

Os efeitos da cloroquina

 

Militares atendem indígenas na Terra indígena Yanomami (Foto: Agência Saúde)

 

médico Douglas Rodrigues explica que os efeitos colaterais da cloroquina podem inclusive ser prejudiciais ao paciente acometido por Covid-19, pois enfraquecem ainda mais o corpo já sob ataque do novo coronavírus: “a cloroquina tem efeitos colaterais importantes. É um remédio horrível de se tomar. A pessoa passa muito mal, náuseas, dor de cabeça… São transitórios, embora como não tem um remédio que mate o vírus, quem tem que matar é você, o seu sistema imunológico. Você tem que estar bem, pois está sob ataque. Por isso, esses efeitos colaterais, mesmo que leves, tendem a piorar”.

Além dos riscos gerados ao corpo da pessoa contaminada por debilitar sistema imunológico, o médico ressalta os possíveis danos causados pelo uso de cloroquina ao coração. Rodrigues afirma que “o mais sério dos efeitos colaterais é do lado das arritmias cardíacas. Aqui em São Paulo, todos os hospitais retiraram a cloroquina, inclusive para pacientes internados. O Hospital Albert Einstein soltou uma nota, de que estão convictos desta decisão”.

O médico Douglas Rodrigues na Base do Xinane da Funai, em 2014 (Foto: Arquivo pessoal)

 

A cloroquina é um medicamento utilizado normalmente para o tratamento da malária, e que em um primeiro momento da pandemia de Covid-19 mostrou-se promissora no tratamento da nova doença. Mas devido aos efeitos colaterais de testes realizados em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil, o medicamento têm tido seu uso desaconselhado. Além do Hospital Israelita Albert Einstein que recomendou a não utilização de cloroquina para o tratamento da Covid-19, outras entidades médicas pediram a suspensão do uso do medicamento para casos leves de Covid-19, como fez o Conselho Nacional de Saúde (CNS).

Pelas consequências possivelmente letais do uso de cloroquina, Douglas Rodrigues não mede palavras: “eu acho uma doideira fazer isso em área indígena. Você não tem como monitorar. É um efeito colateral relativamente raro, mas eu não consigo fazer nem um eletrocardiograma básico para afirmar que a pessoa pode ter uma predisposição à arritmia”.

Para o médico Paulo Basta, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, o uso da cloroquina em populações indígenas “vai amplificar a vulnerabilidade por conta da restrição de acesso, do isolamento geográfico, a falta de um médico especialista, a falta de  um leito de um hospital disponível e a falta de monitoramento das funções cardíacas”.

Paulo Basta ressalta que “existem estudos que afirmam que o uso da cloroquina, ou associado a outros antibióticos, como a azitromicina, esteve relacionado ao aumento no número de mortes por Covid-19”. Segundo o médico, existem ainda outras consequências graves quanto ao uso inadvertido da cloroquina para o tratamento da Covid-19. Como a cloroquina é utilizada usualmente para tratar da malária, com o seu uso generalizado para tratar a Covid-19 “corre-se  o risco de ocasionar uma seleção dos microrganismos”.

“Eles [os microrganismos que causam a malária] podem sofrer mutações, e se criar uma situação em que a malária vivax, a forma mais comum da doença no país, se torne mais resistente à cloroquina. Um medicamento relativamente barato, produzido no país, pode se tornar ineficaz ao tratamento da malária”, alerta Basta.

Outro efeito negativo ao qual o médico Paulo Basta chama atenção é a possibilidade de que o uso ampliado da cloroquina para a Covid-19 possa dificultar o diagnóstico da própria malária: “se o medicamento não for utilizado adequadamente, ele pode ocultar a malária. Porque os sintomas foram ocultados pelo uso da cloroquina”, reflete o médico.

Paulo Basta também é taxativo: “a cloroquina como indicação terapêutica para a Covid-19 já se mostrou claramente ineficaz. E além de ineficaz, coloca o paciente em risco”.

Outro medicamento enviado pela missão que recebe crítica de Paulo Basta é a prednisona. Trata-se de um corticoide da mesma classe da dexametasona, que, conforme estudos da Universidade de Oxford (Inglaterra), reduziram o percentual de mortes em casos graves de pacientes contaminados pela Covid-19. A missão interministerial enviada às terras indígenas de Roraima pretende distribuir 10 mil comprimidos de prednisona 20 mg e 59.48 comprimidos de prednisona 5mg.

Basta chama atenção para os perigos do uso do medicamento: “o uso de corticosteróide é indicado só quando o paciente está [em estado] grave, e está iniciando um quadro de falência respiratória. Aí sim tem a indicação de fazer uso do corticosteróide e nesse sentido foi confirmado que ele salvou vidas. Mas usar prednisona de maneira profilática, como no caso da cloroquina, isso é o absurdo do absurdo: esse medicamento, se ele for utilizado de maneira crônica, sem acompanhamento, ele compromete o sistema imunológico”.

Assim como alertou Douglas Rodrigues, para Paulo Basta, “o que a pessoa precisa é ter o sistema imune forte, para combater o vírus”.

 

MPF questiona fala de general

 

Militares levam medicamentos e insumos de combate à Covid-19 para indígenas
(Foto: Agência Saúde)

 

Nesta quinta-feira (2), Júnior Hekurari Yanomami, Presidente do Conselho Distrital de Saúde indígena do Dsei Yanomami, requisitou junto ao Ministério Público Federal a instauração de um inquérito Policial Federal sobre a missão militar. No ofício, ele solicita a averiguação “sobre a distribuição de cloroquina para tratamento de supostos contaminados por Covid-19”.

Júnior Yanomami expôs preocupação com a entrada dos membros da missão interministerial na terra indígena. “Ao tempo em que solicito informar também a este órgão do Ministério Público Federal que, o Secretário Especial de Saúde Indígena e Coordenador da Funai de Brasília, estiveram presentes no Hospital de Campanha – APC, e no dia seguinte deram entrada na Terra Yanomami, o que nos causa preocupação, devido ser um local de tratamento para contaminados do Covid-19”.

O ofício enviado ao Ministério Público Federal questiona também a realização dos testes dos membros da missão: “alegaram a realização do teste rápido para Covid-19 em todas as pessoas que participaram da ação, incluindo jornalistas que vieram de outros países, porém o teste rápido é indicado apenas entre o sétimo e décimo dia do início dos sintomas, como febre e tosse. Não é recomendado para uso em toda a população, uma vez que não consegue diagnosticar o início da doença, como explica o ex-Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta”.

Em nota, também publicada hoje, o MPF expressou preocupação com a fala do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, de que a pandemia está controlada na Terra Indígena Yanomami e com a ausência de qualquer medida de proteção territorial em operação que supostamente busca enfrentar a disseminação da Covid-19, cujo principal fator de risco é o garimpo ilegal.

“Diante da aparente tentativa de minimizar a gravidade da pandemia que se alastra diariamente na Terra Indígena Yanomami, o MPF ressalta que aguarda decisão do Tribunal Regional Federal da 1a. Região em recurso interposto na ação civil pública que busca obrigar o Poder Executivo Federal à única medida eficiente de proteção: a elaboração de um plano emergencial de ações para monitoramento territorial efetivo da Terra Indígena Yanomami, combate a ilícitos ambientais e extrusão de infratores ambientais que possam transmitir a Covid-19, inclusive à comunidade isolada Moxihatëtea, está exposta a um risco concreto de genocídio”, disse o MPF.

A Polícia Federal já investiga um conflito, que aconteceu no dia 14 de junho, quando dois indígenas Yanomami foram mortos por garimpeiros na comunidade Xaruna, que fica região da Serra do Parima, município de Alto Alegre, em Roraima.  Segundo a Associação Hurukara, 20 mil garimpeiros estão dentro do território ilegalmente.

 

O que diz o governo federal

 

Jornalistas internacionais acompanharam a missão interministerial de combate à Covid-19 (Foto: Agência Saúde)

 

A reportagem da Amazônia Real procurou os ministérios da Saúde e da Defesa para esclarecer o envio da medicação cloroquina aos povos indígena de Roraima e o questionamento do MPF sobre o ingresso dos militares sem a anuência dos povos indígenas de Roraima. Em resposta, o Ministério da Defesa disse “que não tem qualquer conhecimento sobre  o procedimento aberto pelo Ministério Público Federal em Roraima”.

Sobre o envio da medicação Cloroquina pela missão interministerial de reforço no combate à Covid-19 em populações indígenas de Roraima, o Ministério da Defesa disse que, em parceria com o Ministério da Saúde e a Funai, vem realizando importantes ações de apoio à saúde dos indígenas, com atendimento médico e entrega de mais de quatro toneladas de material de saúde, e confirmou a entrega da medicação. “Os comprimidos de cloroquina, medicamento usado há mais de 70 anos para o tratamento da malária, doença infecciosa, que nos seis primeiros meses de 2020, já registra 48.681 casos só na região Amazônica”.

“Assim, causaria profunda estranheza que o Ministério [MPF], que muito devia se preocupar com o bem-estar dos indígenas, busque criar obstáculos a tal apoio”.

Em relação ao questionamento do MPF do ingresso em território indígena, o Ministério da Defesa disse que a comitiva esteve “em visita oficial ao Pelotão Especial de Fronteira Surucucu, Organização Militar do Exército Brasileiro, na qual acompanharam o atendimento aos indígenas, antes da visita ao Hospital de Campanha de Boa Vista. Além disso,  todos os integrantes da comitiva foram previamente testados por PCR e sorologia, com resultados comprovadamente negativos,  antes da realização da visita ao Pelotão”, finalizou a nota. (Colaborou Emily Costa e Kátia Brasil)

 

https://www.facebook.com/RedeProYanomamiYekwana/videos/860117771178021/

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  1. Dalton Catunda Rocha

    04/07/20 at 13:17

    Veja a principal origem da fé cega de Bolsonaro, nos (falsos) poderes da cloroquina, contra o coronavírus. É o bruxo Olavo de Carvalho: https://www.youtube.com/watch?v=YwRf9ms_Cwo

    ****************

    Se você quer boas fontes dignas, sobre a cloroquina, abaixo estão doze boas fontes, sobre o que a cloroquina faz mesmo, no tratamento do coronavírus:

    1- “Estudo aponta que hidroxicloroquina é ineficaz contra coronavírus” > https://istoe.com.br/estudo-aponta-que-hidroxicloroquina-e-ineficaz-contra-coronavirus/

    2- “Pesquisadores franceses não veem eficácia da cloroquina no tratamento de coronavírus” > https://br.noticias.yahoo.com/pesquisadores-franceses-nao-veem-eficacia-cloroquina-tratamento-coronavirus-140510020.html

    3- Estudo de Manaus, sobre a cloroquina: https://veja.abril.com.br/saude/coronavirus-cloroquina-desaconselhada/

    4- “Hospitais da Suécia suspendem uso de cloroquina em pacientes com coronavírus devido a efeitos colaterais” > http://www.rfi.fr/br/europa/20200410-hospitais-da-su%C3%A9cia-suspendem-uso-de-cloroquina-em-pacientes-com-coronav%C3%ADrus-devido-a-efeitos-colaterais

    5- “Debate sobre cloroquina acabou no mundo e só segue no Brasil, diz cientista” > https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/20/debate-sobre-cloroquina-acabou-no-mundo-e-so-segue-no-brasil-diz-cientista.htm

    6- “Nos EUA, 60% tiveram piora na saúde após uso da cloroquina” > https://www.poder360.com.br/coronavirus/nos-eua-60-tiveram-piora-na-saude-apos-uso-da-cloroquina/

    7- “Dois estudos atestam ineficácia de hidroxicloroquina contra o coronavírus” > https://istoe.com.br/dois-estudos-atestam-ineficacia-de-hidroxicloroquina-contra-o-coronavirus/

    8- “Hospital do Piauí não esvaziou UTI após tratamento só com cloroquina” > https://exame.abril.com.br/brasil/hospital-do-piaui-nao-esvaziou-uti-apos-tratamento-so-com-cloroquina/

    9- “Conselho de Medicina não recomenda cloroquina, como diz Bolsonaro” > https://epoca.globo.com/guilherme-amado/conselho-de-medicina-nao-recomenda-cloroquina-como-diz-bolsonaro-24427567

    10- Portugal proibiu uso da hidroxicloroquina, contra o coronavírus: https://www.dn.pt/pais/infarmed-suspende-tratamento-com-hidroxicloroquina-a-doentes-covid-12250257.html

    11- E por sinal, França e ItáIia também proibiram uso da hidroxicloroquina, para tratar o coronavírus > https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/05/27/franca-proibe-uso-da-hidroxicloroquina-para-tratar-a-covid-19.ghtml

    12- “Hospitais dos EUA têm forte queda no uso da hidroxicloroquina para covid-19” > https://www.uol.com.br/vivabem/reuters/2020/05/29/hospitais-dos-eua-tem-forte-queda-no-uso-da-hidroxicloroquina-para-covid-19.htm

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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