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Coronavírus: Boa Vista tem fiscalização de rua e convocação de profissionais de saúde

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Os casos confirmados do novo coronavírus em Boa Vista, capital de Roraima, subiram de 2 para 7. Até o momento foram computados 50 casos suspeitos, sendo 30 deles descartados e 13 ainda aguardam o resultado dos exames. As informações são do boletim epidemiológico do Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVS) de Roraima, divulgado nesta quarta-feira (25).

Após os primeiros casos, um decreto municipal suspendeu o funcionamento de bares, restaurantes, lanchonetes, balneários, parques aquáticos, clubes com piscinas e lagos e todas as atividades nas quadras esportivas das praças públicas da cidade. Segundo o decreto, nem as luzes das praças serão acesas durante a noite para que as pessoas permaneçam em casa.

Desde a última segunda-feira (23), equipes realizam vistorias pela cidade para fechar todos os estabelecimentos que não sejam de serviços emergenciais. Participam das ações Procon Municipal, Secretaria Municipal de Planejamento e Finanças, Vigilância Sanitária e Guarda Municipal.

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Na primeira fiscalização mais de dez estabelecimentos, entre eles, oficinas de moto, salão de beleza e lojas de confecções foram fechados. A população também está proibida de se reunir em espaços públicos.

A Prefeitura de Boa Vista também convocou 237 profissionais da saúde para reforçar o combate ao coronavírus. Pelas redes sociais, a prefeita Teresa Surita informou que todo o estado de Roraima tem apenas 10 leitos de UTI que são para trauma, 20 leitos para outros problemas de saúde e 30 ventiladores para todos os 600 mil habitantes.

Foram convocados 55 médicos, 43 enfermeiros, 80 técnicos em enfermagem, 30 farmacêuticos, 28 condutores de unidade móvel de saúde e 1 analista especialista em epidemiologia e vigilância em saúde que devem assumir imediatamente seus postos de trabalho.

Para dar suporte às vítimas do coronavírus, a Operação Acolhida, do Exército, entregou na última quarta-feira (25) um Hospital de Campanha com capacidade para 1200 leitos em Boa Vista. A expectativa é que ele seja inaugurado nesta quinta (26). O funcionamento será custeado pelos governos municipal e estadual.

Pelas redes sociais, Teresa Surita também respondeu ao pronunciamento de Jair Bolsonaro e garantiu que irá manter a cidade em quarenta respeitando a orientação da OMS, a Organização Mundial de Saúde.

Tentativa de aquecer a economia

O salário de março dos servidores públicos municipais foi antecipado e depositado na manhã desta quinta-feira (26) na conta dos funcionários.

“Muitas famílias de Boa Vista têm ao menos um servidor público que ajuda no orçamento da casa e a antecipação vem como forma de tranquilizar, trazer segurança e reduzir a preocupação dos servidores com a questão financeira neste momento delicado por conta da pandemia causada pelo coronavírus”, informa a gestão municipal por meio de nota enviada à imprensa.

O governo estadual segue pelo mesmo caminho. Antonio Denarium anunciou um pacote econômico que irá injetar R$ 80 milhões na economia de Roraima. Uma das medidas será antecipar a primeira parcela do 13º salário dos servidores, que seria paga apenas em junho, para o próximo dia 20 de abril. Com a medida, serão injetados mais de R$ 50 milhões na economia local.

O clima na cidade de Boa Vista

O aumento dos casos confirmados de coronavírus fez com que a população de isolasse e permanecesse dentro de casa. Antes do anúncio, um grande fluxo de pessoas ainda circulava pela cidade. Hoje ruas do centro e as principais avenidas da cidade amanheceram vazias e assim seguiram durante todo o dia.

Atacadões e supermercados ainda concentram muitas pessoas, já que estes estabelecimentos limitaram o número de clientes dentro das lojas – fazendo com que grandes filas se formem do lado de fora.

Com medo de quanto tempo pode durar o isolamento, muitas famílias decidiram estocar comida e produtos de higiene. Cafés, restaurantes e lanchonetes passaram a funcionar de portas fechadas, trabalhando apenas com o sistema de entregas. Nas farmácias não há mais máscaras, luvas e nem álcool em gel para vender.

Em alguns bairros, para quebrar o tédio da quarentena, vizinhos conversam a distância, cada um de sua casa.

Quarentena obrigatória em Boa Vista proíbe até permanência na calçada

A quarentena social decretada pela prefeita Teresa Surita atinge toda a população da cidade. Os agentes da Administração Pública Direta, Indireta e Fundacional do Município de Boa Vista, exercerão suas atividades em regime de teletrabalho pelo período que perdurar a situação de emergência definida no Decreto.

Apenas servidores que atuem nos setores de saúde, segurança, defesa civil, trânsito e demais serviços essenciais ou que participem dos órgãos que compõem o combate à disseminação do coronavírus continuam exercendo suas funções presencialmente. As férias de todos os servidores da Secretaria de Saúde, Guarda e Defesa Civil Municipal foram suspensas até dia 31 de maio.

O decreto ainda define que supermercados, atacados e farmácias devem limitar o número de produtos por cliente para que não haja escassez dos mesmos. Por iniciativa própria atacados e supermercados têm limitado também o número de clientes dentro dos estabelecimentos, formando assim imensas filas nas portas das lojas. Restaurantes, cafés e lanchonetes estão proibidos de permanecer abertos ao público e adotaram o regime de entregas para manter o funcionamento.

As aulas das escolas municipais seguem suspensas até o próximo dia 31 de março – podendo ser adiado – e a reposição deve ocorrer ainda dentro do calendário letivo deste ano. Com a suspensão das aulas, o decreto também proíbe o uso do passe livre de estudantes e idosos durante a quarentena. A circulação dos ônibus está permitida apenas com 50% da lotação e taxis e táxis-lotação podem continuar operando com apenas um passageiro e janelas abertas.

Eventos culturais, esportivos e de lazer promovidos pela prefeitura estão suspensos até o final do estado de emergência. O funcionamento de mercados municipais, shoppings e seus estacionamentos, cinemas, clubes de recreação, buffets, academias de ginástica, sorveterias, boates, teatros, casas de espetáculos, casas de shows, centros culturais, circos, salões de beleza, barbearias, clínicas de estética também estão suspensos.

A proibição de funcionamento atinge, também, eventos religiosos em templos ou locais públicos, de qualquer credo ou religião, abrangendo reuniões presenciais de sociedades ou associações sem fins lucrativos.

Estádios de futebol, ginásios e quadras poliesportivas estão proibidas de receber qualquer pessoa. Também não é permitida a permanência de pessoas em locais públicos, tais como parques, praças, ruas, calçadas e afins. As luzes noturnas de toda a cidade permanecerão apagadas durante o estado de emergência.

Já nos postos de combustíveis podem funcionar apenas atividades relacionadas ao abastecimento dos veículos com pagamento in loco – fica proibido a cobrança dentro de qualquer estrutura de loja de conveniência.

Para manter a ordem na cidade e garantir que a quarentena seja cumprida, desde a última segunda-feira (23), equipes realizam vistorias pela cidade. Participam das ações Procon Municipal, Secretaria Municipal de Planejamento e Finanças, Vigilância Sanitária e Guarda Municipal.

Serviço

O consumidor que deparar com algum caso de descumprimento do decreto ou ainda valor de produtos ou serviços relacionados ao novo coronavírus, que considere abusivo, poderá registrar denúncia, de forma anônima, pelo e-mail do Procon pelo e-mail procon@boavista.rr.gov.br ou pelos telefones: (95) 3625-2219, (95) 3625-2214, (95) 3625-3477 e (95) 3625-6201.

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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