“Circus” foi à lona com carimbadas da ditadura

Por ostentar a marca da censura em suas páginas, revista acabou se tornando um caso raro, após ser apreendida e submetida à censura

Em meados da década de 70, pouco depois de o ditador de plantão, Ernesto Geisel, iniciar seu governo, a revista “Circus”, de Belo Horizonte, foi apreendida e acabou recebendo os carimbos de vetos da censura em 50 de suas 64 páginas. E assim, acabou se tornando, certamente, em um caso único de publicação a ostentar os carimbos da censura, já que foi submetida à Polícia Federal após sair da gráfica. Na época, algumas publicações como o Pasquim, Opinião e Movimento, eram submetidas à censura prévia, que não deixava rastros.
O alvo da Polícia Federal foi a edição de número 3 da revista, que, cheia de vida, começava a chamar a atenção dos órgãos de repressão e a incomodar, não só pelo atrevimento de seus textos, mas também pela vigorosa criatividade dos ilustradores e chargistas. Nas edições anteriores, Circus já virava notícia nacional ao publicar a entrevista de um ex-integrante da TFP, a organização reacionária e direitista Tradição, Família e Propriedade, escancarando pela primeira vez seus bastidores.
Assim como incomodou, certamente, a matéria sobre o banqueiro e empresário tarado Antônio Luciano Pereira e sua estranha mania sexual. Perto dele, então homem mais rico de Belo Horizonte, hoje o médium goiano João de Deus seria fichinha. Ficou famoso por comprar a virgindade de garotas pobres, muitas vezes ‘vendidas’ por mães em dificuldades financeiras. Temeroso de ficar “brocha”, Luciano chegava ao ponto de pagar uma fortuna por ovos de urubu, por acreditar que ali estava o santo remédio para garantir a sua vitalidade e potência sexual, segundo me revelou mais tarde um dos seus inúmeros filhos (e filhas) reconhecidos e não reconhecidos.
Apreensão
O resultado é que no dia 2 de abril de 1975 agentes da Polícia Federal invadiram a casa que constava como sede da revista Circus, a residência de meus pais. Alguns exemplares encontrados foram levados e, na saída, os policiais deixaram o recado de que a revista teria de ser registrada no Departamento de Polícia Federal. Na época, existia uma portaria estabelecendo que a publicação que tivesse grampo ficava caracterizada como revista e, por ser revista, teria de ser registrada no departamento de censura da PF. Para que isso fosse efetivado, teria de ser entregue um exemplar da publicação, a fim de ser submetido à censura.
Passados alguns dias após ser entregue, o exemplar foi devolvido apresentando o carimbo da PF em praticamente todas as suas páginas. Ou seja, a revista levou bomba ao solicitar o seu registro, inviabilizando a sua continuidade. Assim, o exemplar com as marcas da censura acabou transformando-se numa raridade, já que seria o único com a mostrar as marcas da censura.
Durante o governo Dilma, a raridade foi doada ao Museu da Anistia, em construção em Belo Horizonte, mas, diante do golpe de 2016, as obras do memorial foram paralisadas por determinação dos golpistas. Portanto, resta esperar e lutar para que mais cedo ou mais tarde o exemplar da Circus esteja em exposição, para ajudar a mostrar um pouco de um triste período em que só mesmo um imbecil como Jair Bolsonaro guarda boa lembrança.
Aloísio Morais, ex-editor de Circus
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