Carnaval de rua em São Roque é marcado por violência policial e falta de planejamento dos agentes públicos

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O carnaval é a maior festa popular do Brasil. Há tempos atrai milhões de foliões para as ruas de diversas cidades país afora. Os desfiles das Escolas de Samba foram, durante anos, os principais atrativos e responsáveis pela aglutinação e alegria dos participantes.

Nos últimos anos, os blocos de rua caíram no gosto popular e motivam milhões de pessoas a ocuparem as ruas para pular o carnaval. Num mundo caracterizado pela privatização dos espaços públicos com os muros dos inúmeros condomínios, é uma maneira da população, especialmente as camadas populares, dizer “a rua é nosso”, ou melhor, “a rua é noiz”. Este fenômeno não para de crescer e ano após ano, os bloquinhos, como são chamados, registram aumento. Em São Paulo, quase 400 blocos ocuparam as ruas da capital paulista neste mês de fevereiro.

Apesar dessa realidade do carnaval brasileiro não ser nova, os agentes públicos demonstraram, este ano, falta de informação ou preconceito pela festividade. A série de trapalhadas dos diferentes prefeitos relevam esse desleixo.

Em São Paulo, alguns blocos encerraram as atividades antes do previsto devido à falta de planejamento. Alegaram que o número de participantes ultrapassou a previsão dos organizadores e da prefeitura. Aproveitando-se do vácuo, a gestão pró-mercado de João Doria Jr. anunciou uma possível privatização dos blocos de carnaval de rua para o próximo ano, barrando a entrada de pessoas nos bloquinhos que ultrapassarem a cota estabelecida.

Em um período de crise econômico e com taxas recordes de desemprego, muitos brasileiros não tiveram como viajar para os desejados paraísos tropicais neste feriado e decidiram pular carnaval nas suas cidades. Já era previsível o aumento de foliões nos blocos de ruas.

Em outras cidades (Jundiaí, Brasília, etc.) ocorreram algumas confusões, especialmente envolvendo os agentes de segurança. Em São Roque, interior paulista, o carnaval de rua foi marcado por truculência policial e falta de planejamento dos gestores públicos.

Acompanhando o roteiro de diversas cidades brasileiras, São Roque, alegando dificuldades financeiras, não patrocinou os desfiles das Escolas de Samba. Dessa forma, a festa, que tradicionalmente era realizada em um determinado local com o apoio do poder público, foi pulverizada para diferentes ruas do município. Entretanto, essas localidades não receberam a presença efetiva da prefeitura. Os trajetos dos blocos não foram divulgados. No bloco de sábado, não disponibilizaram para os foliões banheiros químicos. Ambulância e bombeiros não encontravam-se nas proximidades. A única presença efetiva do poder público eram os combalidos e às vezes injustiçados agentes de segurança (Polícia Militar e Guarda Municipal). Consequência: muita confusão.

Assim, transmitiu-se a impressão que alguns prefeitos confundiram a não necessidade de financiar os desfiles das Escolas de Samba com a desobrigação de participar da coordenação da maior festa de rua do país. Por conseguinte, assistimos em diferentes cidades violência policial, quebra-quebra, pessoas passando mal, etc. e diferentes gestões públicos fingindo que não têm nada a ver com isso.

Abaixo, relato de folião agredido, humilhado e ultrajado neste carnaval pela PM de São Roque.

 

NÃO SÃO TODOS BADERNEIROS

Após a ação de ontem da PM de São Roque, a qual reprimiu de forma truculenta o Carnaval de Rua da cidade, pela segunda vez em três dias, vi muitos concordando com a forma de agir da polícia “pois no local só havia baderneiros”.

Não! Não havia somente baderneiros, havia jovens e famílias se divertindo.

Quem me conhece sabe que sou um cara tranquilo, não gosto de confusão e só me envolvo em algo quando vejo uma injustiça.

Não sou baderneiro.

Estava com alguns amigos no fim do bloco Haja Fígado. Quando acabou o bloco subimos pela rua da FAC [Faculdade de Administração e Contabilidade de São Roque] até as lojas Pernambucanas, na Praça da Matriz [região central da cidade].

Assim que estourou a primeira bomba, o grupo de amigos no qual estava se separou. Na correria, parei para ajudar uma senhora de mais ou menos 60 anos que havia caído tentando correr das bombas e balas. Aí que me perdi do meu grupo de vez.

Nessa hora é que fui agredido pela primeira vez, pois o tempo que levei para erguer a senhora, dois policiais se aproximaram e começaram a me bater com cassetete, mesmo eu me afastando com as mãos para o alto.

Consegui me afastar e fui até a frente do Banco Itaú, para tentar identificar para qual rua os policiais tinham ido. Nesse momento, por curiosidade e por querer registrar a ação truculenta da PM, retirei meu celular do bolso e comecei a gravar um vídeo de longe.

Em menos de 10 segundos que fiquei olhando para o celular já vi 4 PMs se deslocaram do grupo principal em minha direção e rapidamente já estavam bem próximos.

Como não tenho intenção nem motivo para fugir da PM, minha reação foi guardar o celular e colocar a mão para cima em modo de rendição, o que não serviu de nada, pois assim que chegaram, um já me agarrou pelo pescoço e começou a me enforcar. Fui arrastado pelo pescoço até próximo ao Banco do Brasil [região central da cidade], onde eles estavam concentrados. Durante todo o caminho, um policial fazia questão de pisar no meu pé a cada passo, ele de bota e eu descalço, pois meu chinelo já tinha sido deixado para trás por eles, o que resultou em vários cortes no meu pé.

Chegando lá me colocaram sentado algemado com as mãos para trás, algema essa que por várias vezes solicitei para que fosse afrouxada, já que estava começando a cortar a circulação.

Após um longo período fui colocado no porta-malas de uma Hilux da Força Tática e levado à Santa Casa para fazer exame de corpo de delito.

Mas infelizmente tive a triste surpresa do exame ser realizado dentro da própria viatura, por um profissional sem identificação, o qual não sei se é médico ou não. Ele nem chegou a me examinar, só perguntou se estava sentindo algo. Disse para ele todas as dores que sentia no corpo, e pedi para entrar e fazer o exame em local adequado, com boa iluminação e privacidade, pedido o qual foi negado. O mesmo funcionário pareceu anotar poucas linhas na ficha do exame e rapidamente deslocou-se para outra viatura par fazer as anotações de outra pessoa detida.

Solicitei uma via do exame ao sargento responsável pela guarnição, o mesmo me negou falando que isso não era para mim, e sim para eles.

Após um longo período trancado dentro da viatura (cerca de uns 40 minutos), fomos para o D.P. de São Roque. Chegando lá, aguardei por cerca de 60 minutos até entrar e ser ouvido pelo escrivão. Contei a minha versão da história, a qual foi muito reduzida, descaracterizando a minha versão dos fatos.

Solicitei que o B.O fosse feito separadamente dos outros que foram detidos, uma vez que eram situações diferentes, mais uma vez foi negado. Também solicitei a presença do meu advogado, pois só assinaria qualquer documento com um advogado presente. Foi negado com a desculpa de que já estava quase tudo certo ali, que não seria necessário.

No fim, me foi solicitado que assinasse um Termo Circunstancial, peguei o papel para ler e, ao virar a folha para ler o outro lado, um soldado da PM disse que não era para eu ler nada, era somente para assinar. Me recusei a assinar sem ler todo o documento. O soldado insistiu e começou a aumentar o tom de voz. Só pude ler todo o documento quando o sargento apareceu e me permitiu ler tudo.

Solicitei uma cópia do B.O ao escrivão, o mesmo disse que como era uma das partes, não era permitido, sendo negado mais uma solicitação. Me recusei a assinar um documento sem ter uma cópia para mim, eles falaram que então eu estava preso e seria levado para Sorocaba.

Na pressão da situação, preocupado com os amigos e familiares, sendo que ninguém sabia que eu estava ali, resolvi assinar, pensando em comparecer com meu advogado no dia seguinte.

Após isso fui liberado às 03:40 da manhã.

Meu advogado foi à delegacia hoje de manhã, não pude estar presente por questão dos ferimentos.

Fui autuado e irei aguardar a intimação do juiz para maiores averiguações.

Não se pode realizar uma ação generalizando as pessoas do local. Vi cenas horríveis, vivi cenas horríveis, por isso digo: não queira ao outro o que não gostaria que fosse feito a você.

MATHEUS TARABORELLI

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