Black Friday, por Dirce Waltrick do Amarante

Bienal de Veneza, de Paulo Nazareth, fotografia de Fernando Lima

Por Dirce Waltrick do Amarante*

 

Depois de passar o dia catando latinhas com uma carreta improvisada, puxada por ele mesmo desde que seu cavalo morrera no ano passado, Ruzeveldi Souza sentou-se para descansar e ler as notícias do dia. Foi aí que se deu conta de que a Black Friday se aproximava. Fez uma lista do que iria comprar: pão, leite, feijão, um tablete de manteiga (na promoção devia estar mais barata que a margarina); e já pensava em outras futilidades quando leu, na página seguinte do jornal, uma frase que o fez repensar – “Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo” —. De fato, o economista tinha razão. Desistiu rapidamente da lista de compras, foi até a lata de bolacha onde guardava seu dinheiro e pensou: “Vai tudo para um fundo de investimento”. Mas eis que abriu a latinha e não encontrou nada. Naquela noite, mais uma vez, dormiu com fome.

 

*Professora na Universidade Federal de Santa Catarina

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