BARATO, GOSTOSO E ORDINÁRIO

Quem trouxe a fome foi a geladeira, disse certa vez Carlinhos Brown a Frei Betto. No comer entre os índios, nos últimos anos vi bem, o alimento impune vai se impondo lentamente entre tradições e o trabalho da roça e coleta. O alimento processado, industrializado, talvez seja uma sofisticada arma de combate, artifício de guerras mesmo. O refrigerante é a bomba geladinha que um dia explode silenciosa aniquilando a muitos. Enganam-se os mais pobres que o barato e gostoso, enfiado goela abaixo todos os dias pela publicidade, é alimento que constrói ou traz sucesso. Não sacia, tal água salgada entre impostos. Aos mais pobres também propiciam cigarro barato, remédios falsificados, tênis que dissolvem nas primeiras chuvas. Tanto imposto na qualidade e a quantidade que engorda  e engana segue livre a tantos sem informação, só adoece. Nos desnuda e engorda sempre. 

Há muito tempo o cotidiano era ver homens e mulheres saindo cedo, muito cedo, saindo da aldeia para os caminhos no mato, ou para a lavoura, bem como meus avós e bisavós sempre o fizeram. Para o sustento e a vida se produzia quase tudo. De tardezinha, voltavam os índios com cestos cheios de mandioca, fieiras de peixe, uma caça ou outra pendurada no braço, tudo sem código de barras. Sempre foi assim, um equilíbrio entre as demandas, a saúde e a lógica das necessidades.

Ah, quantos novos sabores o mercado agora oferece, seus corredores são veredas que aos sertões indigestam. E têm as bolsas, cestas básicas, grandes outdoores. Tudo confunde e fundi.  Muitos, indevidamente, pensam  que distribuir renda é dar o que comer, sem saber que para comer é preciso saber também.  Até os ricos e letrados se enganam nas letras miúdas que estampam brilhantes embalagens.

Escola e cozinha rimam com horta e armazém. O fato é que vemos etnias inteiras e periferias escusas na cidade condenadas ao diabetes e tudo que vem pela boca ao consumidor sem informação. O mais barato é o veneno em açúcar, sal, óleos conservantes, estabilizantes, agentes de sabores. O povo ficou mais doente e endividado entre planos de saúde ou na assistência permitida, pois aos que fome sente deram enlatados, biscoito recheado, salgadinhos encorpados. Tal cimento ruim e areia salgada na própria casa que rui como comida gostosa que engorda.

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Tudo sempre foi pior, mesmo melhorando a vida do povo, somos um paradoxo. Difícil isso, os partidos tratam a todos como burro e querem apoio. Eu fico é tonto sem encontrar esquerda para dormir em paz e uma direita que baba e quer comer a todos. Fica aquele lodo no couro da gente e uma fome do cão.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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