Banda sapatão se destaca em festival com Pussy Riot

Músicas giram em torno dos conflitos do cotidiano da mulher sapatão em uma sociedade lesbofóbica

Foto: Adriano Choque / Jornalistas Livres

Sapataria, uma banda que surgiu em setembro de 2016, foi o destaque do festival Garotas à Frente. Mesmo não sendo a atração principal, a banda formada por Marina Garcia, Isabelle Miranda, Dani Cox e Zu Medeiros chamou a atenção por abordar em suas músicas temas como a lesbianidade e o feminismo.

O quarteto, que nasceu e cresceu nos eventos feministas, contou que a ideia não é produzir algo comercial e sim transmitir mensagens através das músicas. Para a baixista Dani Cox, o Pussy Riot sempre foi uma inspiração. “Quando eu tinha 14 anos eu costumava ouvir muito a banda e hoje foi a realização de um sonho. Pudemos ver como a banda cresceu”.

A Sapataria é a única banda sapatão do cenário Punk de São Paulo. A cada música cantada pelo grupo, elas revelavam o porquê de terem escrito aquela letra.

“Eu tenho orgulho de ser sapatão, eu tenho orgulho de ser lésbica, eu tenho orgulho de ser como sou e tenho orgulho de como ela é”. O início do show foi marcado num só grito – Foto: Adriano Choque / Jornalistas Livres

“A música MSB, Movimento das Sem Banheiro, é algo muito recorrente pra mim, pra nós quatro e para todas as lésbicas não feminilizadas, que é ser expulsa do banheiro feminino. Algumas vezes confundem a gente com um menino e chamam o segurança, mas o que eu acho mais perigoso e mais maldoso é a mulher que sabe que a gente é lésbica e resolve causar porque para ela lésbicas são predadoras. Ela acha que nós, lésbicas, estamos ali para sexualizá-la enquanto ela faz xixi. O que não faz o menor sentido, a gente só quer fazer xixi” contou Marina Garcia, guitarrista da banda. “Durante minha vida, sempre que eu tinha uma dificuldade, eu recorria à música. Se eu brigava com meus pais ou na escola, eu sempre recorria a música para ouvir uma mensagem que me fortalecesse. E de repente não tinha nenhuma e se não tinha, eu pensei ‘vou criar'”, concluiu Marina.

Carta aos Pais também foi uma das músicas mais aplaudidas pelo público. A atriz Maria Elisa foi ao festival com a irmã e cantou a música com todas suas forças, como ela mesmo classificou. “Essa [música] é muito importante pra mim porque foi por causa dela que eu consegui colocar todas as minhas frustrações pra fora. Eu estive no armário por muitos anos e isso trouxe muito sofrimento. Tudo que eu queria era poder amar e minha família me condenava por isso. Hoje quando cantei com todas as minhas forças, parece que fiquei mais leve”.

“A música retrata como é sufocante você estar em um lar lesbofóbico. Quando eu tinha 18 anos eu tive que sair de casa. Eu não tinha formação, eu mal tinha um emprego, mas tive que sair porque a minha família era extremamente lesbofóbica. Foi algo que ficou por muito tempo guardado e é interessante você usar a arte para canalizar um sentimento que ficou meio mal-resolvido”, revelou Dani Cox. “É interessante pra um LGBT ver que tem arte sendo feita pra LGBT, é importante ele poder se encontrar no mundo e ver que ele não está sozinho”, continuou.

A baterista Isa contou que era muito fã da banda e hoje se sente realizada por tocar nela. “Sempre crie e sempre acredite nas coisas que você quer passar. Pode ser para duas pessoas, mas se for algo bom você vai ajudar duas pessoas. É isso que eu acredito”.

Foto: Adriano Choque / Jornalistas Livres

A música 175 foi o ponto alto da noite. Com uma crítica a Jair Bolsonaro, a música começa respondendo uma das frases mais asquerosas do que preside o país “Sem essa de porrada pra deixar de ser viado”. Em entrevista à revista Playboy em junho de 2011 Bolsonaro afirmou que prefere um filho morto a um herdeiro gay e diz que ser vizinho de um casal homossexual é motivo de desvalorização de imóvel. “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”, disse.

A música segue entoando frases como “Lesbianidade não é novidade, não nascemos ontem, não é só diversidade” e “Eles querem nosso sangue, mas não vão conseguir. Seguiremos em frente e sempre vamos existir”. Para Isa o conservadorismo é uma ameaça a toda diferença, uma ameaça a diversidade e uma ameaça evidente a cada lésbica. “A conjuntura atual, com Bolsonaro como presidente, legítima a violência contra minorias através do discurso de ódio e pratica a violência através de ações concretas, institucionalizadas. A extrema direita é capitalista e o capitalismo é um sistema que se alimenta da desigualdade. Viver nele como minoria é e sempre será ruim; quando ele vem com conservadorismo ou neo-fascismo, é muito pior para minorias como as LGBTs, pois além da precarização do trabalho, o sucateamento dos serviços e instituições públicas, há o ataque direto a políticas inclusivas que foram conquistadas depois de muita luta. É uma ameaça que afeta sim nós lésbicas, mas também à todos e só a organização política das minorias, dos trabalhadores poderá reverter essa situação atual do Brasil”.

Dani Cox completa “Você ser uma pessoa lésbica no mundo vai te fazer lidar uma hora ou outra com política, porque não dá pra você fechar os olhos e fingir que nada está acontecendo no mundo. Querendo ou não os fatos políticos atingem diretamente a nossa comunidade. A gente está vendo um aumento da violência em decorrência das eleições de 2018 e é importante ter esse tipo de arte pra fortalecer a comunidade e ver que tem uma saída”.

Foto: Adriano Choque / Jornalistas Livres

O Festival

O festival O Garotas à Frente é um espaço multimídia que celebra a participação ativa das mulheres em todos os âmbitos da sociedade. Mais do que feministas, as mulheres de hoje são seres políticos que reivindicam e ocupam os lugares que escolhem no mundo, questionando papéis de gênero tradicionais, posições de trabalho onde são minoria e se expressando sem pudores através de moda, cultura e artes.

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