“Atravessar o sertão por (des)caminhos” – A Caminhada dos Umbuzeiros

“Esta é uma jornada em que as veredas de tantas vidas confluem num mesmo caminho (...)”. Li essas palavras na Carta do Caminho, nos entregue logo no início de nossa jornada.

Foto por Guidyon Augusto, para os Jornalistas Livres

Por Guidyon Augusto, para os Jornalistas Livres

A Caminhada dos Umbuzeiros é uma imersão de caminhar, que em 2018 realizou sua 4ª edição entre os dias 02 e 04 de março, reconstruindo caminhos trilhados por conselheiristas e tropas militares entre Uauá, na Bahia, e Alto Alegre, ou “Canudos Velho”, no interior do sertão baiano, localizado a mais de 500 quilômetros de Salvador.

Ao todo, foram 55 km percorridos em três dias, entre Uauá e as ruínas de Canudos, submersas (mas hoje parcialmente descobertas, devido à seca) pelas águas do açude de Cocorobó, tendo sua construção iniciada pela administração direta do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contras as Secas) em 1951, sendo finalizado em 1969, drenando uma área de 3.600 km², barrando o rio Vaza barris (hoje, intermitente, de leito completamente seco).

Foto por Guidyon Augusto, para os Jornalistas Livres

A Cidade de Uauá, ponto de partida da Caminhada dos Umbuzeiros, foi palco de conflitos da primeira Expedição contra Canudos, em 1896, final do século XIX. Partimos em festa, cantoria (muita cantoria):

“Eu vi Antônio Conselheiro

Lá no alto do tambor

Com cento e oitenta praça

É amor, é amor, é amor”

(“Eu vi a fumaça da pólvora” – Domínio Popular)

Entre os caminhantes, se via um grupo que nem de longe era homogêneo: artistas, empresários, caminhantes profissionais, produtores culturais. 10 km de jornada após as 17h, atraso de 1 hora devido um temporal (sim, choveu de forma esplêndida no sertão). Caminhar pela noite teve o brinde do tempo ameno, diferente do dia que é extremamente quente, com um “sol de rachar”. Caminhar é um exercício de reflexão, sendo a caatinga a expressão maior desta frase. Refletir sobre o respeito, o clima, os limites e, para a história recente de nosso país, sobre as zonas de conforto que muitos de nós, citadinos, habitamos em bolhas que se esquecem de que os rincões deste país são belos, perigosos e cheios de memórias.

Foto por Guidyon Augusto, para os Jornalistas Livres

Ouvi em um momento da caminhada que só haviam “cactos”. Pois bem, há uma infinidade deles, com o xique-xique pode te causar mais problemas se você se descuidar  do que você imagina. Abro este parágrafo falando de flora caatinguense, para falar sobre cuidados: a produção da Caminhada dos Umbuzeiros é promovida na base de uma organização impressionante, pautada no amor e na acolhida para com a proposta. Não vemos nenhuma logo de patrocínio, nenhum grande apoiador, nada dentro do eixo comum do marketing. Temos companheirismo e doação, processos à muito esquecidos pela lógica do mercado dos grandes centros urbanos, do “Agro é Pop”, e demais, mas extremamente vívido nos locais aos quais a vida é permeada de saberes tradicionais e respeito pela terra, pela memória e pela figura do outro.

“Eu tenho espinho de mandacaru

Na ponta do meu pensamento

E uma zabumba que bate forte

E acorda todo sertão”

(“Estrovengas e Facões” – Gildemar Sena, Cláudio Barris e Nenezinho)

Chuva: Uma salvação.

Caminhar após uma chuva no sertão baiano é das experiências mais belas. A Caatinga se renova, bioma inteligente. Verde, viva. Sol entre nuvens, mas lá na casa dos 35°. Chão firme, espinhos, folhas para se prestar atenção e Favela. Planta curiosa a Favela, no qual seu nome expandiu-se por todo o planeta, levada de Canudos. Canudos hoje é o Mundo, favelas como bastiões de utopias. Mas os espinhos de Favela não são nada agradáveis, lembro de um caminhante logo à frente trombar em uma e dizer: “levei um beijo bonito, tá até ardido” (no tradicional sotaque baiano do sertão). Por experiência própria, confirmo: Beijo de Favela é algo inesquecível, dói e arde que é uma beleza!

Ataiar é algo importante em relatos como esse, o farei: O sol se fez presente, e não foi fácil. A Caminhada dos Umbuzeiros é um percurso de nível médio – difícil, não recomendado para afoitos sem preparação. Chegar ao leito do Vaza Barris, 22 km percorridos em um dia, com uma média de 3 km por hora foi um desafio para muitos. Sem luz, sem água, “oco do sertão”. Céu de incontáveis estrelas, lua cheia. Caraibeiras: guardiãs do leito seco do Vaza Barris.

Foto por Guidyon Augusto, para os Jornalistas Livres

Já viram sorrisos, já ouviram risos sob um luar do Sertão?

“Canudos outra vez vai florescer

A vida como um galho vai frondar

A luta pela terra gera o pão

Amores vão de novo começar”

(“Deixe-me Viver” – Enoque Oliveira)

Umbuzeiro.

Umbuzeiro é uma expressão de acolhida. Árvore que dá de beber, de descansar. Frondosa, acolhedora. Os umbuzeiros são as marcas da Jornada, que leva seu nome. No último dia, 23 km com temperaturas que beiravam os 40º, sol à pino. Dois ápices: A travessia da trilha entre as Serras do Coiqui e de Caipã; As ruínas de Canudos sob o açude do Cocorobó.

Ambas as localidades são palcos de momentos dentre as quatro expedições e o futuro soterramento histórico do sítio de Canudos, afogado pelas águas drenadas que antes percorriam os vales sertanejos.

Caminhar foi um exercício de revolução. Findada a Caminhada, fica a experiência de adentrar muito mais que um território que para muitos é imagético, é sentir dentro de si um pouco das vidas vividas neste sertão. É acreditar: Sonhar sempre é preciso.

Canudos Vive!

Para referências:

  • DNOCS/CONSÓRCIO  OTI/IPT/GEOTÉCNICA.  Estudo de viabilidade   para irrigação dos vales  dos rios ltapicuru e Vaza     Barra; resumo geral. S.n.t. v. 2.
  • DNOCS/IPT. Análise do comportamento do Açude Público Cocorobo, município de Euclides da Cunha (BA). São Paulo, 1976. 4 p.
  • Adriano Lambucci: Caminhar, uma revolução.
  • Canudos: Novas Trilhas – Reconstituição dos Cenários e Caminhos Históricos da Guerra de Canudos.
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