Atira-se muito, atira-se mal !

Você sabe qual a taxa de precisão do tiro do policial de sua polícia, por modalidade defensiva de tiro e tipo de armamento? Certamente não

Artigo de Jacqueline Muniz, professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), fundadora da Rede de Policiais e Sociedade Civil da América Latina e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, antropóloga e cientista política. 

Você sabe qual a taxa de precisão do tiro do policial de sua polícia, por modalidade defensiva de tiro e tipo de armamento? Certamente que não.

Aqui atira-se muito, atira-se mal! Não há padrão de tiro e menos ainda programa continuado de uso suficiente de força para todos os policiais do estado. Para não usar a cidadania como manequim de tiro, o policial tem que tirar do bolso o treinamento. Atira-se primeiro e pergunta depois, porque frequentemente não se sabe onde pôs a bala. A insegurança decisória do tiro que deveria ser preciso, profissional, é elevada e, por isso, mascarada com os tiros de supressão, “sentar o dedo nervoso”, plataforma aérea de tiro, etc. Atira-se muito porque atira-se com medo. Medo da arma mascar, medo da própria imprecisão decisória, medo da desaprovação social, medo da solidão na cena tática, medo

do kit sucesso, medo do tiro amigo. Com o dinheiro desperdiçado pela Intervenção militar seria possível capacitar 750 mil policiais brasileiros em uso concreto de força, para reduzir os erros, as incapacidades e incompetências que custam as vidas dos próprios policiais e de civis. Observa-se que o policial é tão ou mais inseguro que o cidadão comum, porque armado atrai ocorrência e não dispõe de juízo tático qualificado para agir repressivamente reduzindo incerteza, risco e perigos reais para ele, seu companheiro de guarnição e os cidadãos envolvidos ou não na ação policial. Pior que uma polícia mal paga e joguete de oportunistas políticos e carreiristas corporativos, é uma polícia insegura no que deve ser o estado de sua arte: uso potencial e concreto de força em tempo real, no imediato do nosso medo, insegurança e temor.

Não existe bala perdida, existe “bala achada” nos corpos tombados! Não existe policial rambo, existem zumbis de patrulhamento, cujas vidas foram desprezadas tal como as das vítimas civis! Se o policial possui uma taxa de precisão de tiro estático e dinâmico abaixo de 95% é fundamental ser capacitado para a profissão ou virar professor de segurança pública como eu!

Jacqueline Muniz

Graduada em Ciências Sociais pela UFF, Jacqueline fez mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutorado em Ciência Política pela Sociedade Brasileira de Instrução (SBI/IUPERJ) e Pós-doutorado em Estudos Estratégicos. Ela ocupou cargos na administração pública desde 1999. Foi diretora da Secretaria de Segurança Pública do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Posteriormente foi Coordenadora Setorial de Segurança Pública, Justiça e Direitos Humanos e diretora do Departamento de Pesquisa, Análise da Informação e Desenvolvimento de Pessoal em Segurança Pública do Ministério da Justiça.

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