ÁGUA QUE SACIA E NÃO CALA

Foto: Maxwell Vilela / Jornalistas Livres

Manda mensagem o fotógrafo: a chuva chegou na Chapada dos Veadeiros e foi recebida com alegria, até percebermos que ela quase nem molhou, infelizmente um raio acendeu vários focos de fogo pelo cerrado, no Vale Verde e Vale Dourado. Foram 11 horas para apagar quilômetros de mata em chamas, uma união dos voluntários e bombeiros, um total de 50 pessoas conseguiu conter o fogo, mas as chamas continuam em outros lugares na região.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O homem sente sede. No sertão, na floresta, em toda parte o homem sente sede; deserto é uma fome de chuvas. Trovões sempre assustam o fogo no mato, anúncio de briga. Água e fogo é combate de gigantes. Se a garrafa d’agua aos homens mata a sede, de gota em gota o fogo sacia sua fúria também, perdendo sua sina para a chuva que molha. Fantástica ópera se faz quando a chuva encontra as labaredas, em fúria o fogo solta seu urro no vento, chiando lamento quando a encontra.   Os céus prenunciam que rios voadores rondam o espaço. Há muita fumaça no horizonte ainda, pirateando entre nuvens que zombam.

A água aqui é um projeto para os olhos, em tempo de seca voluntários de lugares distantes trazem a chuva nas mãos, bravamente. Dizem que atearam fogo no mato, a bicharada que não fugiu, morreu. Bilhões de formigas, cupins, besouros, lagartixas, aranhas, borboletas, passarinhos; o armagedon nos micromundos de fungos e seres pequenos que compõem o todo. Ah, as bactérias no solo do cerrado, tão saborosas na língua larga do fogo. Os mortos superam todos atentados terroristas em todos os séculos, é fato. E há os mamíferos, os que rastejam e tudo que voa.

Ó raios, tanta morte misturada ao pó, nem folha seca resta. Se a chuva chega não nega de repente, assim, toda terra preta, queimada. Água que sacia não cala a mão severa da chama que escreve na terra e a chuva vai aos poucos colocando seu mata-borrão.

 De tudo fica um pouco, corre anta, corre ema, corre cotia.

 

Imagens de Maxwell Vilela©, enviado especial Jornalistas Livres / Texto e edição Helio Carlos Mello, Jornalista Livre.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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