Abaixo as oligarquias regionais

Foi num encontro recente com a turma do ginásio, naquela época chamávamos assim o Fundamental II de hoje. Pessoas que não via há uns 25 anos. Aquele papo sobre os rumos de cada um, os filhos, os casamentos, a carreira, foi quando Paulo me disse que é advogado do meio político e transitava no eixo Brasília-SP.

– E você Ana? O que faz?
– Sou jornalista com atuação regional. Trabalho numa ONG de Inovação em Desenvolvimento Social e Educação. Continuo morando em Cotia.
– Coitada!
– Hei! Coitada por quê? Trabalho perto de casa, moro pertíssimo de SP, numa cidade arborizada que abriga a segunda maior floresta tropical urbana do mundo (Reserva Florestal do Morro Grande), que distribui a melhor água da Grande SP e ainda vejo o horizonte sem prédios…coitada por quê?
– Desculpe Ana, é que em Brasília quando há uma corrupção deslavada, uma extorsão evidente, logo dizemos: “Pera aí! Onde pensa que está? Em Cotia?”

Esta cidade, com cerca de 250.000 habitantes, localizada numa região montanhosa, satélite de SP, que foi rota dos Bandeirantes e que cresceu desordenadamente é um exemplo claro das oligarquias regionais que tomam os interiores deste Brasil. Em Cotia, desde 1700, duas famílias são soberanas e perpetuam a desigualdade e o espírito “coronelista” na região. Os senhores andam soberanos em suas regalias, usando dinheiro da máquina pública para reeleger seus comparsas e brecar toda e qualquer iniciativa que não favoreça seus recheados bolsos e suas casas em Miami.

Por outro lado, os eleitores vendem seus votos por R$50 ou por promessas de cargos fantasmas, não há teatros ou equipamentos públicos de cultura, a educação apresenta taxas abaixo da meta do IDEB e outros descalabros: há 20 anos não elegermos uma vereadora na cidade, a prefeitura fechou arbitrariamente a única rádio comunitária que questionava o poder local com o agravante de sermos a 28ª cidade mais rica do estado.

Por estas, por outras e por Marielle fui participar da coletiva de imprensa, seguida de dinâmica participativa e finalizando com visitação à ocupação Mandelinha. O encontro foi organizado pelo PSOL com a presença do candidato deste partido à presidência, Guilherme Boulos.

Num momento de violência aos direitos sociais e históricos, onde a política em todos os níveis se transformou num “balcão de negócios” e quem ousar ir contra este sistema estabelecido é calado, comprado ou morto, um projeto de país urge. A velha esquerda está plena em lama e o sistema “político atual está esgotado”. Pseudo candidatos de esquerda se apresentam em sentinela. Há uma desesperança profunda, uma descrença generalizada e neste cenário intragável o que ganha é a intolerância, a militarização e adesão aos programas de maior retrocesso já vistos no país.

Surge então o professor Guilherme Boulos, o mais jovem candidato à presidência da nossa história. Jovem, sem ser ingênuo. Dotado de coragem, coerência, tranquilidade, excelente oratória e argumentos irrefutáveis sobre reformas políticas e tributárias profundas, taxação de grandes fortunas e necessidade de participação popular permanente nas decisões políticas, para desmontar este Brasil que hoje é um dos países mais desiguais do mundo.

Alguns números impactantes foram apresentados por Boulos:
• 6 milhões e 200 mil pessoas sem moradia no Brasil
• 7 milhões de imóveis vazios
• 6 bilionários do Brasil ganham mais que 100 milhões de pessoas
• Quanto mais imóveis uma pessoa tem, menos tributos paga
• 30% dos jovens estão desempregados
• 3.000 milhões de desempregados atualmente no Brasil
• 6 famílias detêm os veículos de informação de massa do país.

Numa cidade como Cotia, em que os movimentos que lutam pela justiça social têm adesão baixíssima, unir num evento cerca de 100 pessoas é sinal de mudança e de despertar. Assim como dar espaço para manifestações artísticas em ambiente político também é sinal de renovação, como fizeram as lideranças do PSOL no sábado, 24 de março, no Sindicato dos Metalúrgicos da cidade. O público feminino ocupava cerca de 50% do auditório.

Assim seguimos “mulherando”, melhorando e juntos, homens, mulheres, jovens e crianças se apropriando desta “responsabilidade histórica” de sermos protagonistas na transformação social necessária no nosso país, estado, município, bairro, escola, igreja e até no próprio núcleo familiar.
Iniciar uma mudança interna que mira admirar as diferenças, escutar respeitosamente e retomar valores de solidariedade, coletividade, equidade e honestidade que se apresentam nebulosos nestes tempos de transição.  O candidato Guilherme Boulos parece preparado para tal desafio – engajar a sociedade nas decisões políticas a serviço do desenvolvimento social.

A possibilidade de Boulos ser presidente é remota, ele sabe disto, mas no momento é importante fortalecer o que faz refletir, o que gera temor, o que é demonizado pela grande mídia e usar as redes sociais para militar a favor de uma vida digna para todos.

Ao meu amigo de ginásio desejo bastante trabalho para defender os indefensáveis dinossauros do velho mundo. Sejam eles políticos, empresários ou cidadãos que colaboram para o sistema de concentração de renda se perpetuar vaidosamente.

“Pela primeira vez, num governo da Nova República, o PMDB vai ter que ser oposição”. Guilherme Boulos

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