A chuva e os índios, por Dirce Waltrick do Amarante

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Por Dirce Waltrick do Amarante*

Depois que as chuvas torrenciais deixaram submersos alguns porsches e lamborghinis, o governo acendeu o sinal de alerta e, finalmente, instaurou um gabinete de crise que, após longas discussões e estudos minuciosos da área alagada, chegou à conclusão de que a culpa era mesmo do fenômeno climático provocado pelos indígenas do Alto Xingu, os quais, há mais de dez dias, ininterruptamente, participavam com muito ímpeto do ritual da dança da chuva: os chocalhos já podiam ser ouvidos no sul do país, e a fumaça (eles dançavam ao redor de uma fogueira) já atingia a Patagônia e causava incêndios na longínqua região argentina, pois, como se sabe, onde há fumaça, há fogo.

Para conter a crise, o governo autorizou a invasão das aldeias indígenas envolvidas no ritual, o confisco de chocalhos e a prisão ou morte dos índios que se opusessem ao cumprimento das disposições legais.

Muitos índios morreram, mas a chuva não parou. Era preciso erradicá-los de vez. A população resolveu agir por conta própria e, quando via um índio, não hesitava em matá-lo. Às vezes, contudo, confundia os orientais com os indígenas e, depois de, por engano, matar cinco chineses, a China suspendeu as relações diplomáticas e comerciais com o país. Agora, além de a chuva não parar, o país enfrenta forte crise econômica.

*Autora, entre outros, de Cem encontros ilustrados (Iluminuras)

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