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Carta comentada: Samuel Moncada envia carta à ONU denunciando o Brasil por negligência criminosa

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O Embaixador Samuel Moncada – representante da Venezuela na ONU – enviou uma carta ao Secretário Geral da Organização das Nações Unidas, Antônio Guterres, nesta segunda-feira (15), denunciando o que ele considera uma total negligência do Brasil em relação ao combate à pandemia. Além do risco em relação ao seu próprio país – já que a Venezuela tem mais de 2.000km de fronteiras com o Brasil – ele aponta o risco para toda a região da América Latina e do Caribe. Sobre isso eu converso com Roberto Goulart Menezes, que é professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB e Coordenador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos.

Bom, são vários pontos que ele coloca nesse documento, eu gostaria de tratar alguns com o senhor, mas primeiramente eu gostaria de saber no âmbito das relações internacionais, ou à luz do próprio direito internacional, qual é o efeito prático do envio desse tipo de carta denúncia considerando o cenário em que estamos, não só de pandemia como também das recentes hostilidades do Brasil em relação a Venezuela?

PROFESSOR ROBERTO GOULART MENEZES: Em primeiro lugar eu acho importante destacar essas hostilidades, como você bem mencionou, com o governo da Venezuela de Nicolás Maduro, primeiro com o Governo Temer no Brasil onde a temperatura já havia subido e que depois ganhou uma nova configuração, com o Governo Bolsonaro, a partir de janeiro de 2019. E nos últimos acontecimentos nessa relação que se tornou tensa entre o Brasil e a Venezuela, o Governo Bolsonaro tentou expulsar a representação venezuelana do Brasil em plena pandemia o que foi suspenso – ato de expulsão que é gravíssimo nas relações diplomáticas – pelo Ministro [Luís Roberto] Barroso do Supremo Tribunal Federal. O outro ponto é que o efeito prático dessa carta endereçada ao Antônio Guterres, Secretário Geral da ONU, é mais de um alerta e de manifestar uma preocupação no seio das Nações Unidas em relação ao combate à pandemia no mundo como um todo. O teor da carta, embora seja um documento curto, mas muito objetivo, traz preocupações que também no Brasil a imprensa tem discutido e nós estamos lidando diariamente com elas. E a principal delas é o negacionismo por parte do Governo Jair Bolsonaro e seus assessores, como inclusive parte também do seu Ministério. Dois Ministros da Saúde foram substituídos este ano, com um intervalo muito curto de tempo entre um e outro, por conta exatamente de se recusarem a negar a ciência. Ou seja, eles [Mandetta e Reich] não queriam manchar suas biografias, ainda mais numa situação tão incerta como essa que a pandemia nos impõe. Então, enquanto o mundo todo está recorrendo à ciência – com exceção de pouquíssimos países – o Governo Bolsonaro atua exatamente para tentar descontruir as ações que podem preservar vidas no Brasil e que está próximo já de 1 milhão de casos.

Em 31 de maio o Brasil tinha 500 mil casos, apenas 16 dias depois o Brasil quase dobrou isso, já temos mais de 900 mil casos e nos próximos dias passaremos de 1 milhão. Considerando a subnotificação, nós estaríamos já (de acordo com os especialistas na área de saúde) em torno de 4 milhões de casos no Brasil.

Então o efeito prático é mais de um alerta nas Nações Unidas para jogar luz sobre o que o Governo Bolsonaro tem emitido em termos de opiniões – e são opiniões porque não há fundamentos nesses argumentos que tem sido apresentados, infelizmente, pelo Governo. Como menciona o documento, em rede nacional de rádio e televisão o presidente se referiu à grave crise sanitária que o mundo todo enfrenta como uma “gripezinha”.

JULIANA MEDEIROS: Um dos pontos que ele menciona no documento é a discrepância de números entre o Brasil e a Venezuela, que mesmo considerando a diferença imensa de território entre os dois países, proporcionalmente é também gigantesca a diferença em relação ao contágio e ao número de mortes, não só do Brasil em comparação com a Venezuela, como em comparação com toda a região. O próprio documento [de Samuel Moncada] cita que o Brasil representa mais de 22% em relação à toda região da América Latina e do Caribe. O Brasil poderia, independentemente deste documento,  vir a ser responsabilizado pela forma como ele está tratando da pandemia, em nível internacional por alguma medida?

PRGM: Neste momento nós não temos em andamento nenhuma queixa contra o Brasil, poderia ser na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, poderia ser levado ao próprio Conselho de Direitos Humanos da ONU. Inclusive a Michelle Bachelet, Alta Comissária de Direitos Humanos das Nações Unidas, em documento recente demonstra no caso do Brasil, dos EUA e da França, a forte relação entre a pandemia e a desigualdade, a pandemia e o racismo. E isso tem de fato, como estamos acompanhando, saltado aos olhos.

No caso do Brasil, por exemplo, quando foi lançado o Auxílio Emergencial – que o Congresso aprovou de 600 reais (em três parcelas) – descobriu-se que o Brasil tem um quinto da população, cerca de 40 milhões de pessoas, “invisíveis” do ponto de vista do cadastro, elas não estavam nem no Cadastro Único nem no Bolsa Família.

Mas o que pode ter ajudado a Venezuela a ter menos casos é sem dúvida nenhuma, a crise econômica. Empresas [de aviação] como a Latam e a Gol – e como se necessitam dólares para que a aviação civil atue em outros países – essas empresas já há mais de 2 anos pararam de voar para a Venezuela, sobretudo para a capital. Então a Venezuela tem muita dificuldade com voos porque tem dificuldade de acessar moeda estrangeira, sobretudo o dólar. A crise econômica na Venezuela também deixa a população mais exposta porque é uma crise também de desabastecimento, infelizmente. A Venezuela sem ter acesso aos dólares, enfrentando bloqueios da Inglaterra e [o confisco] de reservas em ouro do país, bloqueio nos EUA de ativos financeiros e físicos, inclusive de suas empresas e distribuidoras de petróleo como a CITGO (nos EUA) e que já dura alguns anos. Mas a crise econômica [fez com que] a redução do contato com estrangeiros, no que diz respeito a turistas, no que diz respeito à chegada do vírus e a velocidade com que ele chegou na Venezuela, tudo isso pode ter contribuído. É parecido, não igual, mas parecido com a situação da Argentina. Só que eles tomaram a medida de fechar rapidamente as fronteiras, inclusive suspenderam voos internacionais, o que num primeiro momento foi tomado por alguns países como uma medida radical. Então, a Venezuela nesse momento tem menos casos que o Brasil, certamente, mas há pessoas na Venezuela que estão próximas à fronteira com Roraima e há registros de que essas pessoas procuraram atendimento também em Boa Vista, na capital do Estado de Roraima.

JM: E ele até cita que tem um fluxo muito grande de pessoas, de Venezuelanos tentando regressar à Venezuela e eles se preocupam com esse fluxo porque eles estão saindo de Estados como o Amazonas e Roraima que estão extremamente afetados pela Covid-19.

PRGM: E o outro ponto importante, Juliana, é que as políticas que foram desenvolvidas sobretudo no Governo Chávez na área da saúde, elas contaram com a presença de médicos cubanos. E depois o Brasil também veio a ter um programa exitoso, chamado Mais Médicos pelo Brasil e que logo no início, houve um lobby de parte do Conselho Federal de Medicina e demais organizações que trabalharam junto ao Governo Bolsonaro para inviabilizar a continuidade desse programa. E isso é gravíssimo porque são regiões hoje no Brasil que estão exatamente necessitando agora desses médicos, desse atendimento. E nada foi posto no lugar desde a saída dos médicos cubanos e com o fim do Programa Mais Médicos e isso é um crime contra a humanidade, eu colocaria assim. Os Estados tem trabalhado muito, em que pese a oposição do Governo Jair Bolsonaro, os Estados em sua maioria tem trabalhado muito junto às Prefeituras para enfrentar a pandemia com os recursos que eles tem e que não são tantos vindos do Governo Federal porque este tem uma estratégia de retardar a chegada dos recursos. Quando era ainda o Ministro [Luiz Henrique] Mandetta, e estava começando a pandemia, o Brasil estava com uma boa equipe na área de saúde sobretudo técnicos concursados do Ministério da Saúde ou cedidos da Fiocruz ou de outros órgãos importantes da área de saúde do Brasil, e eles estavam preparando um plano de contingencia que se tivesse sido colocado em andamento certamente o Brasil teria muito menos mortes, teria muito menos casos registrados. Essas milhares de vidas estão se perdendo de maneira irresponsável e como você colocou, isso poderá vir sim, passada a pandemia, no pós-pandemia, ser motivo de algum tipo de ação ou no Brasil ou em alguma instância internacional contra o atual Governo. E nesse ponto, na questão do [Programa] Mais Médicos, a saída deles [cubanos] deixou diversas populações vulneráveis, inclusive populações indígenas.

Atualmente, 60% dos brasileiros estão distantes de uma UTI em média 700km então essa presença dos médicos de forma capilar através de programas como o Saúde da Família e reforçados com o Mais Médicos, teria ajudado muito o Brasil nesse momento e poupado muitas vidas, sem dúvida alguma.

E porque eu menciono o Mais Médicos, porque a Venezuela é um dos países que mais trabalhou junto à Cuba em relação a esse programa (que tem outro nome lá) exatamente para atender a população mais vulnerável, populações mais expostas a um conjunto de doenças e com necessidade de atenção básica à saúde. Então eu acredito que isso também pode ter contribuído, a disseminação por mais de uma década de um programa – que hoje deve estar mais debilitado pela falta de recursos da Venezuela – mas que contribuiu para a disseminação de práticas de higiene, cuidados básicos com a saúde e que a população rapidamente absorveu e que agora, mesmo com a falta de recursos materiais, faz com que estejam conseguindo contornar parte dessa grave crise sanitária.

JM: Sim, na verdade o Governo venezuelano conta desde sempre com um número expressivo de médicos cubanos que atuam dentro da Venezuela, esse programa nunca cessou na Venezuela e acho que é importante também mencionar que Cuba vem sendo um dos países que mais tem contribuído com essa força médica em relação também a outros países no mundo. Eles mandaram delegações [de profissionais de saúde] para países africanos, para a Itália, para o Vietnã, para vários países e acaba fazendo diferença esse apoio médico de uma maneira geral (para qualquer país). Mas a Venezuela tem reportado a atuação e o trabalho ou mesmo as estratégias de prevenção que eles vem usando, de testagem, tudo tem sido sempre em parceria com médicos e especialistas cubanos e agora, mais recentemente, com a delegação de médicos chineses que foi à Venezuela para ajudar nesse manejo técnico, de como tratar dessa situação de emergência sanitária.

O Embaixador Samuel Moncada destaca ainda as ameaças que o governo brasileiro vem fazendo em relação ao multilateralismo, seguindo principalmente as orientações do presidente Donald Trump. Os EUA anunciaram recentemente que iriam se retirar por exemplo, da OMS e o Brasil, como tem feito desde o início, ameaçou fazer o mesmo. Ou seja, tem tentado mimetizar decisões em nível diplomático e internacional que os EUA aplicam e também outras decisões em nível interno. Mas o que poderia ocorrer, professor, na prática conosco, porque os EUA são uma potência. Temos que lembrar que somos um país gigantesco em termos continentais mas não somos uma potência nem militar nem econômica como os EUA, que talvez pudesse sair de uma situação como essa sem maiores prejuízos (ainda que seja o primeiro hoje no mundo em número de casos e mortes) mas talvez pudesse “sobreviver”, digamos assim, à essa emergência sanitária sem o auxílio de uma organização como a OMS. Para o Brasil, o senhor entende que isso nos afeta, mais à frente poderíamos ser responsabilizados também por negligência no trato dessa situação?

PRGM: Desde 12 de março, quando a Organização Mundial da Saúde decretou o estado de pandemia por conta da Covid-19 rapidamente os países procuraram absorver essa recomendação e o caso é que os EUA, a saída que o Donald Trump anunciou (a retirada da OMS) é sim um baque muito grande porque os EUA é o país que mais contribui financeiramente, não só com a OMS mas também outras instituições do sistema ONU, então isso debilita economicamente a OMS. Mas qual é a base para a decisão do Trump? A base não é científica e não é de um estranhamento, ou seja, de tomadas de decisões da OMS que poderiam ser contrárias ao interesse dos EUA e, como você colocou, dado que são uma grande potência, uma potência hegemônica na ordem internacional contemporânea. O fato é que Donald Trump tem como uma das suas narrativas em relação à Covid-19, primeiro (através de fake news e informações que não são verdadeiras) de querer associar o vírus a uma estratégia chinesa, a algo pensado pelo Partido Comunista Chinês para dominar o mundo e debilitar as economias e assim por diante. E o segundo ponto é que a China, através da Sinopec – que é uma das empresas do estado chinês, um laboratório – está entre as dez vacinas mais promissoras no curto prazo para se combater a Covid. Então a China tem trabalhado em cooperação com outros países, inclusive o Brasil nesse momento. A China vem trabalhando ainda, com a Sinopec, junto ao Instituto Butantã de São Paulo, que provavelmente terá financiamento também da FAPESP (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de SP) de tal modo que se o Governo de SP junto com o Estado Chinês, reforçando esse instrumento de cooperação na saúde (e que o Brasil também tem muito a contribuir com a expertise do Butantã, da Fiocruz etc.) se chegar a essa vacina, será um ganho para o mundo todo.

Inclusive depois essa vacina poderá ser produzida, tudo leva a crer, sem a proteção de patentes o que é outro dado geopolítico e econômico fundamental. Porque não basta ter a vacina, o problema é que sobretudo seja uma vacina de dose única para o custo ser menor e que consiga ter uma produção em massa que possa chegar a 7 bilhões de doses no mundo. Isso é um desafio muito grande e que sem a cooperação científica, tecnológica, é quase impossível pensar num cenário assim (embora não de todo impossível).

Um outro ponto que se apresenta aí Juliana, é a posição do Brasil [em relação à OMS], o Governo Bolsonaro com sua retórica negacionista, e nesse ponto ele também copia o Governo Trump (e claro que aquilo que o Brasil teria que aportar em termos de recursos não chega nem perto do que contribui os EUA para a entidade) mas o que o Governo Bolsonaro tenta fazer é somar forças ao argumento dos EUA de exatamente culpar a China. De que a OMS estaria “passando a mão” na cabeça da China. E [por conta disso] a União Europeia apresentou uma demanda na OMS de uma comissão independente para estudar o vírus, a origem, se o Governo chinês tinha conhecimento desde os primeiros casos até o momento da sua comunicação para a OMS. Mas o que os EUA querem é que a China assuma não só a culpa e a responsabilidade pela disseminação do vírus pelo mundo, mas que num futuro próximo ela tenha que reparar economicamente o mundo todo por esse dano. Então o que tem ocorrido internamente [em nosso continente] é que a China já passou a comprar mais carne da Argentina, a China – cumprindo acordo comercial assinado com Donald Trump – vem comprando mais soja dos EUA, então a resposta da China é na prática. Ela não quer estremecer as relações com o Brasil, mas também não vai ficar sofrendo ataques de Ministros do Governo Bolsonaro de forma permanente sem reagir. Até o próprio Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, chegou a batizar de “comunavírus” e assim por diante, uma série de insultos ao povo chinês e à República Popular da China que ele não vê nenhum problema de que isso tudo possa estremecer as relações com aquele que é o principal parceiro comercial do Brasil.

JM: Como disse, eu estou conversando com Roberto Goulart Menezes, que é professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB e Coordenador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos e eu queria finalmente professor que o senhor dissesse se acredita que essa situação de pandemia que a gente está vivendo acabou acrescentando claro, de uma forma inesperada mas real, um dado a mais na forma como o Brasil vem conduzindo isso também em nível internacional, um dado a mais na imagem do Brasil que já está tão arranhada nesse aspecto das relações internacionais, da forma como o Itamaraty vem sendo conduzido. O senhor acredita que isso veio se adicionar a esse dado histórico, que vai ficar essa marca para o Governo brasileiro?

PRGM: O Ministério das Relações Exteriores do Brasil a maneira como ele vem sendo conduzido pelo atual Ministro, não há dúvida nenhuma que mostra o desprestígio que o Ministério tem junto ao Governo Bolsonaro, primeiro por ter escolhido um diplomata tão insignificante como aquele que ocupa o cargo hoje, sem visão estratégica, sem elaboração conceitual, nunca divulgou um documento. Nesses quase dois anos de governo nós não temos um único documento com as diretrizes da política externa do Brasil. O assessor para assuntos internacionais do Governo Bolsonaro, Filipe Martins, a mesma coisa. O que nós temos é um Ministério das Relações Exteriores que está subordinado a um dos filhos do presidente, Eduardo Bolsonaro, um deputado que já presidiu a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, uma importante comissão. Então, [o Ministro] está sujeito aos caprichos desse deputado, tanto é assim que nós tivemos o Bolsonaro, logo após a eleição, antes da sua posse e ao receber o John Bolton em sua casa no Rio de Janeiro, num condomínio, ele ofereceu ao John Bolton uma base militar dos EUA no Brasil. Isso pegou de surpresa todos os brasileiros, mas sobretudo os militares que estão, boa parte deles, na base de apoio ao Governo Bolsonaro. Depois nós tivemos no caso do chamado Grupo de Lima em que o Ministro das Relações Exteriores chegou a endossar uma proposta de invasão da Venezuela, e que depois na segunda reunião ele já não foi mais e quem foi representando o Brasil foi o vice-presidente, General Hamilton Mourão, que disse que não ia ter nenhuma aventura bélica desse tipo por parte do Brasil contra qualquer um dos seus vizinhos, ou país da América do Sul. Depois, o presidente dos EUA, ao se retirar do Acordo de Paris, o governo brasileiro também veio desmontando a política ambiental no Brasil e isso sem dúvida nenhuma, ainda mais no caso da Amazônia com as queimadas, o aumento do desmatamento, a tentativa de inviabilizar o Fundo da Amazônia com a Noruega e a Alemanha.

Então, o Brasil internacionalmente, como tem sido dito por muitos, está numa condição de pária internacional e o que vem sendo feito, não é que houve uma mudança ou continuidade do Itamaraty, houve sim uma destruição do que vem sendo feito desde 1985, pelo menos, no que diz respeito à presença do Brasil na cena internacional.

O [ex-Ministro] Celso Amorim chegou a usar uma expressão no início do Governo Temer, de que o Brasil iria para o “cantinho do mundo”, mas hoje nem no cantinho do mundo o Brasil está, não tem esse cantinho para ele. É deplorável o que ocorre com a política externa brasileira. Mesmo analistas mais conservadores da política externa brasileira, analistas mais próximos até desse governo, já tem dificuldade em identificar alguma linha racional ou lógica da atuação internacional do Brasil. O que esse governo faz com a política externa brasileira é condicionar e subordinar o Brasil, um país dessa importância, com essa magnitude, sem querer superestimar o Brasil mas há um alinhamento “nu e cru” quase similar ao que a Argentina chegou a expressar durante o Governo [Carlos] Menen de “relaciones carnales” com os EUA, ou seja, uma relação que coloca o Brasil em uma posição ainda mais vulnerável internacionalmente e não representa objetivamente a defesa de nenhum interesse nacional.

Há essa falta de uma linha, de uma diretriz da política externa brasileira, uma falta de racionalidade e de senso lógico, porque o Itamaraty vem sendo não só desprestigiado pelo Governo Bolsonaro, mais do que isso, vem sendo corroído por dentro por um Ministro que até esse momento não dá mostras de nenhuma linha de defesa dos reais interesses da política externa do Brasil.

A não ser essa [mais recente] em que assessores do Steve Bannon, que é um ideólogo da extrema direita nos EUA e que agora uma das pessoas do seu movimento está em processo, tentando se mudar [juridicamente] a assessoria do Itamaraty para que esse sujeito ligado ao Bannon venha ser assessor especial do Ministro das Relações Exteriores do Brasil! E ainda não há nenhuma reação infelizmente da sociedade brasileira, nem matérias na imprensa, mas também o próprio corpo diplomático que vem assistindo isso de maneira imóvel, e nós sabemos da dificuldade que eles têm de reagir. O fato é que está sendo confundido o Itamaraty, um Ministério que é de Estado com o Governo. E disso temos mostras diárias que vêm sendo dadas por aqueles que são responsáveis pela política exterior do Brasil.

JM: Muito obrigada professor, espero poder contar contigo em outra oportunidade também.

 

* Juliana Medeiros é jornalista, repórter de política da Rádio Cultura FM de Brasília.

 

Confira a íntegra da Carta enviada por Samuel Moncada em português:

 

No. 00136

 

Nova York, 15 de junho de 2020

 

Sua Exc.ª. Sr. António Guterres

Secretário Geral

Nações Unidas

 

Ilustre Secretário Geral,

 

Tenho a honra de dirigir-me a Vossa Excelência na oportunidade de me referir à perigosa situação que sofre a América do Sul, incluindo a República Bolivariana da Venezuela, como resultado do avanço agressivo da COVID-19 e da irresponsável atuação do Sr. Jair Bolsonaro, Presidente da República Federativa do Brasil, país onde hoje se encontra o principal foco da enfermidade em nossa sub-região.

Desde o momento em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a evolução da infecção por COVID-19 como uma pandemia, o governo do Presidente Nicolás Maduro Moros lançou uma série de medidas para garantir a proteção e o bem-estar do povo venezuelano, incluindo seu direito à saúde e à vida, bem como para cooperar com os esforços globais destinados a conter a propagação desta terrível doença. A estratégia venezuelana foi coordenada com o Sistema das Nações Unidas, a fim de garantir sua eficácia e ajustá-la aos protocolos internacionais que foram estabelecidos.

Hoje, apesar da campanha de agressão a que nosso país está sujeito, a Venezuela é o país com a menor taxa de contágio e com o menor número de casos confirmados de COVID-19 por milhão de habitantes na América Latina e no Caribe, enquanto se encontra na vanguarda em número de testes de triagem administrados à milhões de habitantes em nossa região. Isso é possível graças à compreensão imediata do nosso governo da magnitude da emergência sanitária, bem como da solidariedade e assistência técnica fornecida por vários parceiros, incluindo o Sistema de Nações Unidas.

Excelência,

Segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), até 15 de junho, o hemisfério ocidental registrava mais de 3.841.609 pessoas infectadas, das quais a República Federativa do Brasil representa 22,13% do total. No período compreendido entre 29 de fevereiro a 15 de junho deste ano, o número de casos confirmados naquele país, alcançou a cifra preocupante de 850.5141¹ – ou seja, 10,87% de todos os casos relatados à OMS em todo o mundo -, com o lamentável falecimento de 42.720 pessoas. É por isso que a atual situação sanitária no Brasil coloca em sério perigo milhões de vidas, dentro e fora desse país, e afeta negativamente as ações que nosso governo implementou para controlar a disseminação da doença e suas consequências devastadoras.

Como o senhor bem sabe, o Brasil é o país com a maior extensão territorial da América do Sul, compartilhando fronteiras com nove (09) países da nossa região, incluindo 2.200 quilômetros com a Venezuela. Portanto, um fator que causa profunda preocupação a nossa nação é a porcentagem de casos confirmados de COVID-19 na população dos estados fronteiriços brasileiros do Amazonas e de Roraima, onde há uma intensa transmissão comunitária do vírus. Neste 15 de junho, por exemplo, toda a Venezuela registra 3.062 casos confirmados, enquanto apenas os dois estados fronteiriços do Brasil contabilizam mais de 62.000 casos confirmados.

À luz do exposto, permita-nos enfatizar que a negligência criminosa do governo brasileiro ao abordar essa realidade nas regiões limítrofes da fronteira sudeste de nosso país é motivo de grande alarme, considerando a alta mobilidade humana que se registra hoje nessa área, quando milhares de migrantes venezuelanos, fugindo da discriminação, da xenofobia e outras formas relacionadas de intolerância as quais tem sido vítimas no país vizinho, retornam voluntariamente à Venezuela, o que poderia desencadear a propagação do vírus em nosso território nacional, muito apesar dos protocolos que estão sendo implementados nas diferentes fronteiras nacionais diante do retorno voluntário de milhares de compatriotas.

Excelência,

A catástrofe sofrida pelo Brasil como consequência da COVID-19 afetará, sem dúvida alguma a República Bolivariana da Venezuela e a todos os países da região. Nesse sentido, permita-nos chamar sua atenção para algumas ações alarmantes do Governo do presidente Jair Bolsonaro, que são chaves fundamentais em relação à pandemia:

  1. Negação da severidade da pandemia: Em um pronunciamento que ocorreu em 25 de março de 2020, o presidente Jair Bolsonaro atacou o fechamento de escolas e comércios em algumas partes do seu país para conter a disseminação da COVID-19, que ele comparou com uma “gripezinha” ou um “resfriadinho”². Da mesma forma, enquanto outros países da região tomaram severas medidas de confinamento para retardar a propagação do vírus, o Presidente Bolsonaro participava de uma manifestação no dia 18 de maio de 2020³, na cidade de Brasília, contrária às medidas de proteção para a população promovidas pelos governadores das unidades federativas regionais, reafirmando assim seu menosprezo por dados científicos, por esforços dos trabalhadores da saúde e da comunidade internacional para salvar o maior número de vidas possível.
  2. Carência de uma política pública coerente para contenção da pandemia: Durante o primeiro trimestre de 2020, o mundo inteiro pôde observar como o presidente Jair Bolsonaro removeu dois (02) Ministros da Saúde pelo simples fato de apelarem ao bom senso que deve prevalecer frente a calamidades como a levantada pela COVID-19. Esse vazio se torna mais evidente quando, em 20 de março de 2020, o presidente Bolsonaro decretou a reversão da competência dos Estados para restringir os movimentos da população em um esforço para conter a propagação do vírus. Quatro dias mais tarde, o poder judiciário se viu obrigado a intervir para revogar a ordem, pois colocava em risco a saúde e mesmo a vida de toda uma nação. É claro que estamos diante de um Chefe de Estado e Governo que intencionalmente impede, com abuso de autoridade, a salvação das vidas de seu próprio povo.
  3. Ameaças ao multilateralismo: Nos últimos dias, o Presidente Jair Bolsonaro disse aos meios de comunicação que o Brasil poderia seguir o mesmo curso adotado pelos Estados Unidos e decidir retirar-se da OMS. Hoje, mais do que nunca, essa pandemia mostrou que a solidariedade e a cooperação internacional multilateral são fundamentais, tanto para salvar vidas como para proteger as conquistas da humanidade no último século. A retirada do Brasil da OMS, em meio ao terrível custo humano da pandemia, só pode ser entendida como um ato de desprezo do Presidente Bolsonaro contra a vida de seus cidadãos e contra as vidas de todos os povos da região.

À luz do exposto, podemos afirmar, sem medo de equivocarmo-nos, que hoje o presidente Jair Bolsonaro e seu governo se converteram no pior inimigo dos esforços para sairmos vitoriosos da pandemia da COVID-19 na região da América Latina e Caribe.

Em consequência, solicitamos muito respeitosamente os bons ofícios de Sua Excelência, para exortar as autoridades do Brasil a cessarem suas ações imprudentes na luta contra esta enfermidade mortal. A enorme importância do Brasil na região faz com que sua influência seja ampliada, tanto para fazer o bem quanto para fazer o mal. É doloroso ver como hoje está desperdiçando a oportunidade de liderar a luta para salvar milhões de vidas e, ao contrário, está se convertendo em um gigantesco agente regressivo e destrutivo. Dessa forma, hoje o Brasil é uma verdadeira bomba humanitária que põe em risco a saúde, o bem-estar e a vida de nossos povos.

Sem mais referências, e agradecendo antecipadamente a atenção que brinda a esta carta, aproveito para reiterar a Sua Excelência as garantias da minha mais alta estima e consideração.

 

SAMUEL MONCADA

Embaixador, Representante Permanente da

República Bolivariana da Venezuela perante as Nações Unidas

 

  • Tradução: Juliana Medeiros

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Narcorrachadão das Américas, o escudo

De Serra Pelada ao narcogarimpo continental. Prometem combater o crime. Mas quem fica no controle?

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Narcogarimpo. Comércio de ouro, de fachada, para lavar o dinheiro sujo do narcotráfico. O que poucos sabem, quase ninguém, é que o narcogarimpo começou por volta de 1981, em Serra Pelada. Com gente chegando de tudo quanto era canto, o regime militar logo enviou, ainda em maio de 1980, interventor federal para botar ordem na bagunça, Major Curió. E ele botou. Proibiu a entrada de crianças, mulheres, armas, bebidas. Na cava. Na cratera em si, no formigueiro humano.

Não no Trinta, como ficou conhecida a vila para onde a balbúrdia migrou, lá do ladinho, no km 30 da rodovia PA-175, e criada só para isso: institucionalizar a balbúrdia. No Trinta, aí sim, era tudo liberado. Criança, arma, cachorro, whisky falsificado, ouro ilegal, consumo e tráfico de cocaína, festinha do Vorcaro. O sucesso do narcogarimpo foi tão grande que a vila acabou virando cidade e a cidade foi batizada em homenagem a seu maior protetor e patrono: Curionópolis. Pois é. O narcogarimpo nasceu junto com a narcomilícia. Mas, hoje, juram de pés juntos que querem criar um Escudo das Américas para nos proteger dos narcoterroristas”.

Procura-se: Fabrício Queiroz. Lembra? Mais conhecido como o pivô assumido (1) do esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio, o Bolsonaro. Caladinho até dia desses, agora resolveu aparecer todo pimpão falando que “já se movimenta”, dando como certa a vitória do patrãozinho. (2) Prefiro nem imaginar Queiroz se movimentando, a tirar por Bolsonaro Pai fazendo flexão. De todo modo, a dúvida: estaria se movimentando sozinho? Ou se movimentando com os mesmos comparsas de sempre, só esperando para transformar o país num narcorrachadão?

Adriano da Nóbrega, Ronnie Lessa, Peixe, tudo piaba, não, nem estou me referindo a esses, não. Falo de um Alessandro Pitombeira Carracena, por exemplo, que só anda com ilustres cações. Apontado como cúmplice do Comando Vermelho. Sabe? Aquele clubinho de biriba, domingo de sol no parque. Era secretário de Esportes e de Defesa do Consumidor do ex-governador Cláudio Castro, com acesso a informações privilegiadas, ao ser preso por vazar justo esses dados, no caso, sobre operações na Maré, no Complexo do Alemão. (3) A Polícia Federal o descreveu como “verdadeiro integrante” do CV, transcendendo os limites do exercício lícito da advocacia. (4) Gente finíssima, o Carracena. Grande biribeiro. Adivinha quem o indicou a Cláudio Castro? O Queiroz? Não, não foi o Queiroz. Foi o Flávio. Ele mesmo. O Bolsonaro. (5)

Até aí, espero, novidade nenhuma. Mal molhei o bico. O papel de Carracena no esquema com o Comando Vermelho era “apenas” complementar, o X9 da turma, quem entregava as cabeças dos policiais honestos, bucha de canhão, numa bandeja aos traficantes. O responsável pela articulação política e financeira era outro, TH Joias. Era Joias quem, segundo o Ministério Público do Rio, intermediava a compra de armamento pesado, drogas e dispositivos antidrones para o CV. (6) Agora, adivinha de quem TH Joias era aliado de primeira hora? Então. Do Flávio. Aquele. O Bolsonaro. (7)

O contato direto de Joias dentro do CV, conforme foi descoberto na Operação Zargun, da Polícia Federal, era Gabriel Dias de Oliveira, mais conhecido como Índio do Lixão, assessor parlamentar de TH (8) e com quem Joias negociava armas, drogas, cinco milhões de reais convertidos em dólares para a facção. (9) Fartas provas, com direito a videozinho que Índio recebeu de TH Joias, duzentos quilos de maconha. (10) Faltou a selfie com joinha, tudo bem, mas um belo vídeo mesmo assim. Didático. Pena não ter videozinho também dos cento e quarenta e oito quilos de cocaína que TH teria transacionado com Pezão. (11) Luciano Martiniano da Silva. (12) Quem estava acima de todos no bando, “no topo da estrutura”, segundo o Ministério Público Federal.

Resumindo, para ficar facinho de entender: Carracena e Joias formavam o “núcleo de liderança política” do esquema, e os dois estavam “sob a supervisão dele”, de Pezão. (13) Percebe? Tanto o sujeito que Flávio, o Bolsonaro, indicou para secretário de Castro, quanto o aliado de primeira hora de Flávio, o Bolsonaro, eram subalternos de Pezão, o cara que traficava armas do Paraguai (14), drones e equipamento antidrone da China (15), cocaína do… do próprio TH. E, se era Pezão quem supervisionava TH e Carracena, nova dúvida: quem supervisionava Pezão?

Não sei. Mas olha que coincidência: sabe quem também foi preso por suspeita de participar da organização criminosa, apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal como liderança do núcleo político do Comando Vermelho? (16) Você deve ter visto, né, nos jornais? Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, vice de Cláudio Castro. Balinha de coco ao primeiro que adivinhar de quem Bacellar era o preferido para suceder Castro como governador. Exato. O filho do homem. Flávio. O Bolsonaro. (17) Vai ter de se contentar com Douglas Ruas, Flavinho. Ouvi dizer que tem bom currículo, ele, achei compatível com os empreendimentos do grupo. (18) Boa sorte.

A sorte que Márcio Canella não teve. Preso em flagrante a dois meses das eleições, com um fuzil no carro. (19) Preso de novo agorinha no dia 15 de outubro, apontado pela PF como “patrono político e articulador de alto escalão” (20) de uma organização criminosa que movimentou sete ponto seis bilhões, com B de Bolsonaro, em lavagem de dinheiro via rede de postos de combustíveis, conexões com milícias, evidente, e com o Comando Vermelho em Belford Roxo. (21) E quem apoiou Canella como seu pré-candidato ao Senado pelo Rio, numa chapa com PL, União Brasil e PP? Quem? A mãe de Flávio, o Bolsonaro? Bem provável, afinal, Rogéria Bolsonaro foi escolhida, uni duni tê, como primeira suplente de Canella. (22) Natural, o apoio. Natural, filho apoiar mãe e a chapa em que sua mãe é suplente. (23) Normal. Nada de mais. Flávio, o Bolsonaro, inclusive, se declarou “surpreso” diante das… desse caso de família todo aí. (24)

A assessoria do candidato à presidência pelo Partido Liberal, a bem da verdade, nega tudo, relação nenhuma com qualquer dos episódios. Claro que nega. Imagina assumir relação com cento e cinquenta quilos de cocaína em meio ao segundo turno, relação com a própria mãe. Caso eleito – bate na madeira –, aí sim, Flávio, o Bolsonaro, poderá assumir relação, filho, enteado, sogra, sobrinho, sair do armário duma vez e assumir tudo, tudinho, inclusive o controle absoluto de quem deveria combater o crime organizado o qual ele jura de pés juntos que irá combater. Eu também negaria. Aliado de primeira hora, indicado por mim, meu preferido para governador, mas nem conheço. Nunca nem vi. Inteligência artificial, essas fotos aí. Não tenho barriga. Bora mudar de assunto, bora?

Que tal? Por que vocês da imprensa não falam sobre o avião lá da FAB com trinta e nove quilos de cocaína, na comitiva do Lula? Perfeito, porque não foi na comitiva do Lula, foi na comitiva do pai, o Bolsonaro. (25) Eu não disse isso. Acho que vou desmaiar, rapeizo. De modo geral, é o que costumam fazer. Negar a realidade. Vê o Trump. Disse que tinha invadido a Venezuela para combater o narcotráfico. (26) Aí, capturou o Maduro e deixou os traficantes todos lá. Colocou outra presidente no lugar para “supervisionar” os trabalhos, capaz. Cartel de Los Soles a pleno vapor. (27) Sem comando, será? Os EUA passaram a controlar o petróleo, (28) querem as terras raras, (29) a Venezuela toda, e justo o cartel de drogas, que era o maior problema do país segue funcionando sem a “supervisão” dos EUA? Estranho, né? Só eu acho estranho?

De besta que sou. Normalidade é exceção no continente. Da Argentina a El Salvador. É, meu querido “ancap” (anarcocapitalista, que defende a abolição total do Estado), não adianta sair de fininho, não, pode voltar, senta aí, e trata de ler até o final. Isso, assim, estrelinha na testa. Começo por Bukele ou por Milei? Milei, né? Visitou o Brasil, xingou meio mundo. Uma graça, ele. Amor de pessoa. Deve ter sido por isso que Gastón Alberdi, ex-aliado próximo, revelou numa entrevista que Milei teria lhe confessado já ter “assessorado narcotraficantes” como economista, (30) e que seu contato, Federico Machado, teria sido apresentado como “empresário”. Ia por acaso falar que era traficante?

Não ia. Claro que não ia. Se falasse, José Luis Espert, candidato de Milei à prefeitura de Buenos Aires em 2025, jamais teria recebido duzentos mil dólares de Machado nem admitido ter feito míseras trinta e cinco viagens nos aviões dele durante a campanha de 2019. (31) Nunquinha. Milei nega tudo, coisa da oposição. Tal qual o presidente do Equador, Daniel Noboa, um dos principais aliados de Trump na região, e que teve sua família investigada por envolvimento no tráfico de cocaína para a Europa. (32) A investigação revelou que ao menos 26 milhões de euros em droga foram encontrados em contêineres de bananas da Noboa Trading Co., empresa da família do presidente, com destino à Croácia e à Itália. Apesar disso, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, elogiou a cooperação de Noboa no combate ao narcotráfico. (33)

No Chile, agora, temos José Antonio Kast como presidente. Bem apessoado. Cara de compenetrado, tem. Mas, ô, dedinho podre. Tanta gente nesse mundo e o sujeito foi me escolher justo Gustavo Villatoro como assessor? Conhece não? Importou lá de El Salvador, ainda por cima, outro país, era ministro da Justiça de Nayib Bukele. “Sócio de narcotraficantes”, segundo consta. (34) O leitor deve estar se perguntando: “Espera, o Bukele não tinha prendido os meliantes, os membros de gangue, livrado o país da criminalidade? É desse mesmo Bukele que estamos falando?”

Olha, justiça seja feita. Prendeu um monte, mesmo, quase todos. Empenhou-se tanto que fez até pacto secreto com o CJNG, o Cártel Jalisco Nueva Generação, do México, em 2023, para que o cartel capturasse e entregasse “Crook”, líder da Mara Salvatruga, maior facção de El Salvador. Em contrapartida, ofereceu um milhão de dólares. No fim das contas, surpresa, descobriram que era tudo armação de um pilantra 171 para cima do governo. (35) Quer dizer, armação, o pacto com o cartel mexicano. Com os cartéis de El Salvador, não teve armação, não. O pacto foi para valer. (36) Isso, para não mencionar os três funcionários públicos salvadorenhos, bem próximos de Bukele, incluindo seu chefe de gabinete, que foram apontados pelo Departamento de Estado dos EUA como corruptos e facilitadores do tráfico de drogas. (37) Te contar, viu, se Bukele por acaso tivesse qualquer tipo de vínculo oculto com Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras condenado a quarenta e cinco anos por narcotráfico, (38) daria até para alguém com mente mais poluída imaginar que esse combate à criminalidade em El Salvador, na ponta do lápis, não ter passado de tomada de território mesmo. Acabar com a concorrência e ficar com o caminho livre para assumir o controle da bandidagem em paz. Mas só se Bukele tivesse vínculo oculto com algum ex-presidente hondurenho condenado por narcotráfico, mesmo, senão… ah, diz que tem? Coincidência, né? Mais uma. Muito embora Flávio, o Bolsonaro, ter declarado, dia desses, não existir isso de coincidência.

Porquê… sabe? Se começarmos a pensar que tem alguma coisa a ver, isso tudo, foragido por tráfico que financia candidato de Milei, sócio de traficantes como assessor de Kast, pacto secreto entre cartéis e Bukele, e mais vínculo oculto com outro ex-presidente narcotraficante – que mal tem, gente, vínculo com traficante, ser sócio, onde já se viu? que isso?, preconceito bobo, eu hein –, onde é que vamos parar?

Vamos pensar mais o quê? Que Trump teria algo a ver com isso? (39) Que Trump estaria controlando o Cartel de Los Soles agora? E que o Escudo das Américas seria só uma desculpinha furada para tomar o controle do narcotráfico em toda a América Latina? Sabe nem o que é Escudo das Américas? Já ouviu falar, sim. Aquela coalizão político-militar criada em março desse ano, liderada pelos Estados Unidos, a fim de “combater” o “narcoterrorismo” na América Latina e que conta com dezessete países da região, entre os quais… Argentina, Chile, El Salvador, Honduras, Equador e Venezuela. Só Brasil e México ficaram de fora. (40) Desfeita.

Se Trump tivesse dado indulto a Hernandez (41), sabe, ou se ele tivesse lucrado milhões de dólares lavando dinheiro do narcotráfico colombiano (42), ou tivesse, sei lá, feito acordo com o filho de El Chapo, lembra de El Chapo?, para que dezessete familiares de líderes do Cartel de Sinaloa entrassem nos EUA (43), ou fosse aliado e entusiasta das bananas de Noboa, aquelas, eu até pensaria mesmo coisa errada sobre o moço. Daria até para pensar que essas centenas de soldados (44) que ele está enviando para a América Latina não são para combater narcotráfico nada, coisa nenhuma, mas só para ocupar o território e tomar o controle do cartel todo, que nem ele fez na Venezuela. Porque besta eu sou, mas nem tanto. Hein? Os EUA acabaram de revogar o visto do procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, o que estava à frente das investigações contra o aliado de Trump, Luis Fernando Camacho, ex-governador de Santa Cruz de la Sierra, afastado por lavagem de dinheiro e proteção a narcotraficantes. O cara também não se ajuda, né?

Não se ajuda. Enfim, Bolívia. Lá longe. O problema de ficar pensando nessas coisas é acabar imaginando que Flávio, o Bolsonaro, só quer virar presidente para que o Brasil entre nesse clubinho do narcotráfico do bem (45) e ele faça que nem Bukele em El Salvador: exterminar a concorrência e entregar o monopólio do narcotráfico de bandeja ao aliado, ao preferido, ao indicado, ao Comando Vermelho e à narcomilícia toda duma vez. E é como dizem, né, porta de entrada. Começa com uma droguinha aqui, outra acolá, e, quando vê, já está fumando cocaína, fica doidão e logo quer dar o ouro, as terras raras, as joias da coroa tudo. Um narcogarimpão das Américas. Botam ordem nas casinhas deles e transformam o país, o continente inteiro, num grande cartel de drogas comandado pela narcomilícia. Que nem Major Curió fez em Serra Pelada. Disse que ia proteger os garimpeiros, acabou criando uma cidade com seu nome para proteger os próprios interesses – e as festinhas do Vorcaro. E é justo o que pode acontecer se Flávio, o Bolsonaro, virar presidente sob “supervisão” de Trump. Ele jura de pés juntos que quer o Brasil no Escudo das Américas para nos proteger. Talvez, só queira mesmo proteger seus narcomilicianos de estimação. Tirar a soberania do Brasil de nossas mãos e entregá-la de mãos beijadas ao narcotráfico internacional. Ao chefão da quadrilha de colarinho branco.
Arrisca? Ou melhor nem pensar nisso?


Referências da reportagem:

1 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/queiroz-admite-esquema-de-rachadinhas-ao-mp-e-tenta-inocentar-flavio-bolsonaro/
2 https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2026/10/pivo-da-rachadinha-queiroz-da-vitoria-de-flavio-como-certa-e-ja-se-movimenta.ghtml
3 https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/09/03/quem-e-o-advogado-e-ex-secretario-suspeito-de-vazar-informacoes-e-ajudar-o-comando-vermelho.ghtml
4 https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2025/09/pf-diz-que-traficante-do-comando-vermelho-pagou-ex-deputado-th-joias-e-ex-secretario-de-esportes-do-rj-cmf90babb02e3015i5iaa5ufw.html
5 https://aparecidanet.com.br/flavio-indicou-membro-do-cv-para-o-governo-de-claudio-castro-no-rj/
6 https://www.bnews.com.br/noticias/politica/drogas-armas-e-bazucas-antidrones-th-joias-vira-reu-por-esquema-ligado-ao-comando-vermelho.html
7 https://www.diariocarioca.com/2026/09/12/politica/judiciario/aliado-dos-bolsonaristas-th-joias-ex-deputado-estadual-no-rio-vira-reu-por-envolvimento-com-cv
8 https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/07/22/policia-prende-ex-assessor-parlamentar-de-th-joias-apontado-como-operador-financeiro-ligado-cv.htm
9 https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/06/pf-encontra-foto-de-th-joias-na-cama-com-milhoes-ex-deputado-converteu-milhoes-em-dolares-para-traficante-do-alemao.ghtml
10 https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/05/th-joias-gravou-video-de-200-kg-de-maconha-e-ofereceu-a-traficante-que-disse-nao-e-bom-de-vender.ghtml
11 https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/mpf-diz-que-th-joias-negociou-com-o-comando-vermelho-arma-usada-para-derrubar-drones.ghtml
12 https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/08/27/procurados-chefes-do-trafico-da-velha-guarda-continuam-soltos-no-rj.htm
13 https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/th-joias-guardava-200kg-de-drogas-e-controlava-pagamentos-da-venda-de-cocaina-diz-denuncia-do-mpf.ghtml
14 https://extra.globo.com/casos-de-policia/policia-identifica-traficante-de-armas-preso-com-identidade-falsa-no-paraguai-24884770.html
15 https://revistasegurancaeletronica.com.br/traficantes-do-comando-vermelho-compram-drones-com-capacidade-para-transportar-ate-20-fuzis-entre-favelas/
16 g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/02/27/pf-indicia-rodrigo-bacellar-e-mais-4-por-vazamento-de-dados-para-o-comando-vermelho.ghtml
17 https://diariodorio.com/com-apoio-de-flavio-bolsonaro-bacellar-ganha-forca-como-sucessor-de-castro-no-rj/
18 https://conjur.com.br/2026-out-02/mp-rj-investiga-douglas-ruas-por-peculato-lavagem-de-dinheiro-e-organizacao-criminosa/
19 https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/10/05/preso-com-fuzil-canella-e-o-2-deputado-estadual-mais-votado-no-rj.ghtm
20 https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/canella-era-patrono-politico-e-articulador-de-organizacao-criminosa-diz-pf/
21 https://valor.globo.com/politica/noticia/2026/10/15/pf-cita-ligacao-de-marcio-canella-com-milicia-e-acordo-com-comando-vermelho.ghtml
22 https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/mae-de-flavio-foi-escolhida-como-suplente-de-canella-preso-pela-pf/
23 https://veja.abril.com.br/politica/preso-pela-pf-marcio-canella-foi-pre-candidato-ao-senado-na-chapa-de-flavio-bolsonaro/
24 https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/flavio-diz-que-foi-surpreendido-com-prisoes-de-canella-e-bacellar/
25 https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/02/politica/1562091519_351309.html
26 https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/06/apos-captura-governo-trump-recua-sobre-acusacao-de-que-maduro-chefiava-cartel-de-drogas.ghtml
27 https://www.ntn24.com/noticias-actualidad/pese-a-captura-de-maduro-el-cartel-de-los-soles-sigue-operando-en-venezuela-asegura-investigacion-de-insight-crime-610894
28 https://www.brasildefato.com.br/colunista/observatorio-de-politica-externa/2026/09/24/soberania-sequestrada-como-os-eua-assumiram-o-controle-das-reservas-de-petroleo-da-venezuela-para-alimentar-suas-refinarias/
29 https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/alem-de-petroleo-eua-miram-potencial-em-terras-raras-da-venezuela/
30 https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/ex-aliado-acusa-milei-de-manter-lacos-estreitos-com-empresarios-narcos/
31 https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2025/10/07/argentina-extraditara-aos-eua-suposto-traficante-que-diz-ter-financiado-deputado-de-milei.htm
32 https://progressive.international/wire/2025-03-31-daniel-noboas-family-business-president-of-ecuador-is-involved-in-cocaine-trafficking-to-europe/en/
33 https://www.semafor.com/article/12/23/2025/ecuadorian-presidents-family-banana-business-smuggled-drugs-investigation-finds
34 https://larepublica.pe/mundo/2025/12/08/gustavo-villatoro-el-hombre-detras-del-plan-de-bukele-y-aliado-de-kast-que-es-vinculado-con-narcotrafico-y-corrupcion-ntpe-538816
35 https://english.elpais.com/international/2024-01-29/how-a-salvadoran-gangster-duped-the-bukele-government-with-a-fake-scheme-to-catch-an-ms-13-fugitive-wanted-by-the-us.html
36 https://www.dw.com/es/l%C3%ADder-pandillero-revela-los-pactos-de-bukele-con-las-maras/a-72412223
37 https://www.latimes.com/espanol/california/articulo/2021-05-17/estados-unidos-senala-de-corrupcion-a-cinco-salvadorenos-dos-integran-el-gabinete-de-bukele
38 https://reporterosdeinvestigacion.com/2022/03/31/los-negocios-entre-el-ex-presidente-ligado-al-narcotrafico-nayib-bukele-y-daniel-ortega/
39 https://www.reuters.com/world/americas/former-honduran-president-released-us-prison-after-trump-pardon-2025-12-02/
40 https://ncnews.com.br/2026/09/23/brasil-e-mexico-ficam-fora-de-alianca-dos-eua-contra-o-crime-organizado-e-desafiam-estrategia-de-trump/
41 https://www.nbcnews.com/politics/trump-administration/former-honduran-president-juan-orlando-hernandez-freed-trump-pardon-rcna246968
42 https://www.newsweek.com/trump-drugs-corruption-panama-hotel-money-laundering-714891
43 https://www.nytimes.com/2025/05/14/world/americas/mexico-cartel-chapo-family.html
44 https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/10/14/eua-estao-enviando-centenas-de-soldados-para-a-america-latina-dizem-autoridades-militares-americanas.ghtml
45 https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/23/flavio-promete-incluir-brasil-no-escudo-das-americas.ghtm

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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