Daniel Pinha, professor do Departamento de História da UERJ
O divórcio entre Bolsonaro e Moro põe em xeque peças decisivas da crise democrática. A parceria entre grande imprensa e Judiciário, geradora da Operação Lava-Jato e seu protagonista Sérgio Moro, tiveram papel determinante na queda de Dilma e prisão de Lula, acontecimentos fundamentais da crise. Precisamos saber como esta engrenagem irá se movimentar diante do bolsonarismo e será capaz de detê-lo. Levando-se em conta, ainda, uma condição específica ao nosso presente mais imediato, isto é, a pandemia de coronavirus.
O primeiro passo para entender este xadrez é reconhecer as diferenças (e são muitas), entre estes dois sentimentos políticos, peças fundamentais neste jogo: Lava-jatismo e Bolsonarismo. O primeiro foi gerado na crise; o segundo, é anterior e foi impulsionado por ela.
Lava-jatismo: narrativa gerada na crise
Primeiro, o Lava-jatismo. A Operação Lava-Jato se construiu como força determinante do jogo político não apenas por sua função judicial-investigativa, mas por seu apelo midiático, como nos mostram as pesquisas do cientista político André Singer. A grande imprensa narrou a Lava-Jato para a população a colocando como se estivesse imune à podridão política, capaz de cumprir um papel saneador a atacar o maior dos problemas brasileiros, a corrupção. Transformou ações policiais em espetáculos televisivos, impôs o consenso da isenção e despolitização dos órgãos do Judiciário, traduziu à sua maneira o vocabulário jurídico (especializado) para o grande público consumidor de notícias. Quem não se lembra das operações da Lava-Jato às 6h, 7h da manhã transmitidas ao vivo como grande furo e notícia do dia? Ou ainda, o episódio da condução coercitiva de Lula, em março de 2016, com helicóptero ao vivo e câmeras a postos para filmar o carro de Lula pela via área? O “Japonês da Federal” se tornou personagem conhecido do público, motivo de conversas de bar, falado na feira, na fila dos elevadores, até em marchinha de Carnaval ele entrou.
Sérgio Moro se tornou o maior representante do lava-jatismo justamente por conseguir controlar a grande mídia e transformá-la na porta-voz de suas ideias. A fala de Moro nunca foi vista como expressão de um ponto de vista. Sempre foi a verdade. Despolitizada, neutra, justa. Inteiramente ajustada ao contexto de sentimento antipolítica tradicional despertado desde 2013. E este apelo midiático-popular transformou a imagem sóbria de um juiz em uma figura pop, herói nacional.
E isto que podemos chamar de populismo judicial contaminou parte significativa do corpo judiciário, que se sentiu “empoderada” para intervir cada vez mais no processo político, movido pela ideia de “popular” traçada pela grande imprensa. Exemplo desse ativismo é a postura do ministro do Supremo, Luis Roberto Barroso, cujas sentenças, muitas das vezes, se tornam verdadeiros discursos políticos voltados para a atenção do grande público, em favor deste saneamento moral. Foi dessa forma que Moro, ou o sentimento “morista” a contaminar juízes de diferentes instâncias, criou o clima para derrubar Dilma (sem crime de responsabilidade) e pôs Lula na cadeia (sem provas). Desse jeito, aliás, o PT foi retirado da presidência: pelas leis anticorrupção e instituições autônomas que fomentou, Ministério Público e Polícia Federal, sobretudo. Moro criou a hipótese de que Lula era o chefe do esquema de corrupção e torceu o processo jurídico em função daquela narrativa, que, em determinado momento, já não era só dele, mas também da grande mídia. Bolsonarismo: dois ressentimentos antidemocráticos.
O bolsonarismo não é uma força política gerada apenas na crise democrática atual. A crise impulsionou o bolsonarismo, mas não o gerou. Ele é resultado de dois ressentimentos antidemocráticos acumulados da época do deputado federal Jair Bolsonaro, mobilizados agora na presidência, ora com mais ora com menos intensidade. Primeiro, o ressentimento sobre rumos da redemocratização. Ele se manifesta, por exemplo, no sentimento de nostalgia da Ditadura de 64, na retórica de ataque aos direitos humanos e no recurso à ditadura como modelo político ideal. Isso se manifestou claramente nas recentes participações de Bolsonaro em atos antidemocráticos que pediam o fechamento do Supremo Tribunal Federal, do Congresso Nacional e, até mesmo, o AI-5.
Segundo, o ressentimento quanto à perda de valores morais associados à família conservadora, branca e patriarcal (o que ele chama de valores da maioria e não das minorias). Este movimento ocorre, sobretudo, a partir de 2011, no início do governo Dilma, quando o PT já somava oito anos de governo. Sua agenda passa a ser não somente a nostalgia da Ditadura, mas a reação aos avanços sociais e perspectivas de democratização abertas pelo governo Lula, sobretudo em relação às agendas de raça, gênero e políticas pública de fortalecimento dos direitos sociais – por exemplo, Bolsa Família e Mais Médicos, atacados por Bolsonaro ao longo do governo Dilma. Não por acaso, ele ganha tanta projeção em torno de causas morais e defesa da família: desde o “kit gay”, “ideologia de gênero”, contra o aborto, feminismo, gayzismo e tantas outras. Até a crise mais aguda, aberta pelas manifestações de junho de 2013, Bolsonaro atua no horizonte dessas duas perdas possibilitadas pela democracia: no público (desordem, corrupção e violência gerada pela inépcia do jogo político democrático) e no ambiente privado (família sem o comando do pai e do marido, desvirtuação homossexual e feminista).
A crise democrática aberta em 2013, concretizada em 2016 no impeachment, aprofundada em 2018 na prisão de Lula, potencializa estes valores antidemocráticos e é neste momento que o parlamentar se transforma em Mito: na esteira do lava-jatismo e na crítica antissistema político (iniciada em 13), incluindo o anti-petismo. Há, entretanto, uma particularidade, decisiva, na forma de narrar do bolsonarismo. É nas redes sociais e no submundo do Whatsapp que ele ganha forma; ao contrário da Lava-Jato e Moro, que sempre contou com os meios tradicionais de manipulação discursiva, isto é, o centro difusor das empresas de comunicação. Bolsonaro se apresenta não só como outsider antissistêmico do jogo democrático, mas também da grande imprensa, a mesma que fabricou Moro e a Operação Lava-Jato.
Crise e futuro aberto em tempos de Covid-19
É com este instrumental histórico e conceitual que devemos operar para entender o divórcio entre Moro e Bolsonaro, iniciado na saída de Moro do Ministério da Justiça em 24 de abril e ainda em curso, com o mais recente episódio do vídeo da reunião ministerial de Bolsonaro. Há uma condição fundamental a ser colocada aqui neste presente imediato: a pandemia do coronavirus. Bolsonaro já deu várias demonstrações de que não age em função de uma ética de valorização da vida; a crise da Covid tem mostrado de maneira radical este comportamento. Ele não apenas desmerece a comoção em torno da Covid, desfazendo o pacto mínimo em torno do cuidado com a vida, como se aproveita desta circunstância para avançar em seu projeto político. Ele age na esteira de uma (natural) desmobilização política na rua e no Parlamento – afinal, como priorizar um processo de impeachment agora?
A Covid se torna não só a oportunidade para promover um rearranjo de seu governo, mas esticar a corda com Moro. Se a crise na Polícia Federal é inevitável, e é, diante do descontrole de investigações que caminham para implodir sua família e seu governo, a hora de agir é agora e não depois da Covid. Por outro lado, do ponto de vista de Moro, se ele gozava de tanto prestígio na Polícia Federal quando estava fora do governo (parte de Dilma e todo governo Temer), por que Moro toparia perder este controle, contraditoriamente, de dentro do governo? A princípio, contra Bolsonaro, Moro dispõe dos mesmos instrumentos de que dispunha contra Dilma e Lula: grande mídia e judiciário. Por um lado, não possui mais o cargo de juiz e a narrativa em torno da Operação Lava-Jato. Por outro, mantém prestígio popular acumulado da Lava-Jato, a despeito do escândalo (materialmente comprovado) da Vaza-Jato pelo site The Intercept Brasil. Judiciário, sobretudo STF, parece disposto a segui-lo. Nesta direção estão as decisões dos ministros Alexandre Moraes, impedimento da posse de Alexandre Ramagem como diretor da Polícia Federal, e Celso de Mello, pelo andamento do processo de investigação das denúncias feitas por Moro.
Bolsonaro não formou base parlamentar no ano passado e parece disposto a fazer este movimento agora, mas não sabemos se isto será suficiente para deter um processo de impedimento. Terá ao seu lado, militância e milícia digital, que vão narrar essa experiência em contraponto à grande mídia. O “combate à corrupção” perde força, não só pela queda de Moro, mas pela aproximação com os parlamentares do “centrão”. Os dois ressentimentos antidemocráticos, no entanto, se mantém intactos. A tendência é que o discurso bolsonarista avance ainda mais nas pautas de ordem moral, como apontaram Géssica Guimarães e Amanda Danelli em seu artigo no site Jornalistas Livres.
Nosso futuro político parece mais aberto do que antes e não é só pelos impactos econômicos e sanitários da Covid. Desde o presente, podemos afirmar: o divórcio Bolsonoro e Moro gerou um ponto de inflexão na crise democrática, e instrumentos fundamentais da crise, que golpearam Dilma e levaram à prisão política de Lula, estão sendo testados.
Muito boa análise. Me preocupa, apenas nessa análise o papel que agora o judiciário desempenhará e o poder legislativo fortemente dominado pelo centrão. Nesse sentido, o papel tanto de Tofoli, quanto de Maia parece ser de alinhamento com o bolsonarismo sem confronto explícito com a politização do judiciário. Parabéns, abs Pedro da Luz Moreira
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa. Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta. O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.
Irã Mall Foto: Eduardo Campos
A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream. Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.
Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos
A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra. Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental. Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões. A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida. Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele. Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa. Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens. A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas. A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos. O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás. O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.
O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina
Gilberto Barros
16/05/20 at 19:15
Perfeito, texto muito bom.
Pedro da Luz Moreira
16/05/20 at 19:17
Muito boa análise. Me preocupa, apenas nessa análise o papel que agora o judiciário desempenhará e o poder legislativo fortemente dominado pelo centrão. Nesse sentido, o papel tanto de Tofoli, quanto de Maia parece ser de alinhamento com o bolsonarismo sem confronto explícito com a politização do judiciário. Parabéns, abs Pedro da Luz Moreira