O bolsonarismo entre o carisma, a libido e a pulsão de morte
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ARTIGO
Daniel Soares Rumbelsperger Rodrigues (1)

Cau Gomez
Não há progresso (Lacan)
É algo que demanda uma explicação o fato de dezenas de milhares de pessoas terem marchado, no último dia 15/3, em defesa do atual presidente da República. Não se tratava
propriamente de uma defesa do governo federal, mas da pessoa do presidente em sua agenda de ação. Como e por que se mantém fiel ao presidente um arco tão amplo de pessoas ao ponto de arriscarem-se a contrair um vírus em rápida expansão que levou autoridades políticas e sanitárias nacionais e internacionais a recomendar isolamento social e suspensão de diversas atividades econômicas? Como e por que, contra todas as análises e prognósticos das mais variadas organizações médicas do Brasil e do mundo, um coletivo considerável de pessoas redobra suas apostas no presidente ao ponto de convocar manifestações a seu favor, mesmo depois do aumento significativo no número de casos de
(e mortes confirmadas em função do) coronavírus, como na ocasião da hashtag #obrasilnaopodeparar? Como e por que, dia a após dia, há um reinvestimento coletivo de energia na figura do presidente, seus discursos e pontos de vistas? O que explica a manutenção do apoio ao presidente mesmo quando o mundo inteiro, até – ainda que de maneira vacilante – o presidente estadunidense Donald Trump, vai na direção contrária ao valorizar as orientações médicas e científicas e buscar preservar vidas (isolamento ou distanciamento social para conter a propagação do vírus) e empregos (por meio de políticas sociais – comuns ou emergenciais – recomendadas inclusive pelos economistas liberais)?
Porque, claro está, a polarização entre vidas e empregos não é razoável. O que o momento
pede é planejamento integrado e estratégico (mercado, Estado e sociedade) para, no intuito
de superar a pandemia, manter serviços essenciais, socorrer as parcelas vulneráveis da
população, auxiliar as empresas na manutenção dos empregos mesmo com a suspensão
temporária de suas atividades e acompanhar a evolução dos indicadores para prospectar o
retorno paulatino da vida econômica do país. Pode-se objetar que o bolsonarismo – desde o
início um desafio à imaginação sociológica – não é hoje tão expressivo em termos
quantitativos e, portanto, um fenômeno decadente que aglutina cada vez menos pessoas,
mas resta enigmática a sua permanência e, mais, avanço qualitativo; resta enigmática sua
expressão atual em termos tão “puros”. O que mantém o laço dos bolsonaristas entre si e na
relação com seu líder? Qual o tipo de vínculo, mediado pelo grupo, ata o líder ao seu
seguidor num caminho que coloca a todos em risco? Como um líder angaria o apoio de
milhões de pessoas para objetivos que contrariam em larga medida seus próprios interesses
pessoais?
O carisma
Max Weber definiu o carisma como uma das três formas típicas de dominação
política. O carisma não é algo que se possui como um objeto material, mas uma relação
social. Isso significa dizer que o líder tem tanto mais carisma quanto maior e mais arraigada
é a crença coletiva na sua excepcionalidade. O que sustenta a relação de dominação
carismática é a reafirmação frequente do carisma: o líder precisa dar provas contínuas do
seu poder mágico, sobrenatural ou extracotidiano – de sua missão (ou qualidade)
excepcional. A instabilidade dessa dominação reside exatamente nessa necessidade de
reafirmação constante do carisma; o líder precisa manter a agitação das massas, precisa
manter a excitação, precisa atiçar continuamente o ânimo e a eletricidade. É nesse sentido
que o bolsonarismo – como uma variante do fascismo – precisa e se nutre da polarização.
Ela é seu alimento e combustível. É um dos elementos que mantém unidos seguidores e
líder. O fascismo precisa da inconsciência e da excitação contínua das massas, algo que é
precisamente negado no poema nazista Desperta, Alemanha! e na ameaça bolsonarista: O
gigante acordou. Sob essas palavras de ordem, o que se vê é justamente seu oposto, o sono
da razão.
Diz-se que Bolsonaro não governa, mas permanece em constante clima de palanque.
E não é à toa: uma das características do fascismo é não ter programa positivo, mas ser um
amontoado de dispositivos (relativamente monótonos 2 ) que reforçam a solidariedade dos
(3) que fazem parte do grupo (reduzindo aí a ambivalência) e excitam a hostilidade contra os de
fora. O fascismo carece de “questões políticas concretas e tangíveis”, nutrindo-se de “uma
atmosfera de agressividade emocional e irracional” (Adorno, 1951, p.154). Por isso o
fascismo precisa alimentar não só a polêmica vazia ou a polarização artificial, mas também
inimigos imaginários que, em conluio, conspiram diabolicamente para atacar e destruir os
portadores da missão quase-divina do messias da vez. Nesse sentido, o bolsonarismo (na sua
expressão “pura”) inverte a realidade: chama de comunista quem fez campanha sistemática
e obstinada contra quem ele chama – equivocadamente – de comunista e que cultivou parte
das condições (históricas e culturais) que possibilitaram o próprio bolsonarismo. O ódio dos
bolsonaristas à chamada grande imprensa e ao espantalho do comunismo é análogo ao uso
nazista da lenda da punhalada pelas costas. Essa necessidade de polarização, conspiração e
contínuos e substituíveis espantalhos não é racional, ainda, do ponto de vista da estabilidade
da dominação política, quer dizer, de um projeto de poder estável a longo prazo. Para
qualquer político de direita com alguma capacidade prospectiva, seria muito fácil utilizar-se
desse momento de pandemia e crise econômica para alçar-se, de maneira inclusive
conservadora, como líder da nação, da união nacional contra o vírus e pela reconstrução da
economia. Não é o caso de Bolsonaro. Não é o caso da demanda afetiva dos bolsonaristas.
No grupo, o bolsonarista perde a individualidade e vai contra seu eu – o seguidor
fascista é irracional. Bourdieu refere-se à essa irracionalidade sob o conceito de “violência
simbólica”. É simbólica a agressão que a vítima faz contra si mesma ao incorporar os
esquemas de pensamento que justificam e legitimam as agressões que ela sofre. Na
violência simbólica, os dominados entendem como legítimas e naturais as instituições e a
realidade nas quais eles participam na condição de dominados. Trata-se de uma “violência
suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas” (Bourdieu, 2019, p.12). A ideia de poder
simbólico, em Bourdieu, se assemelha a de ideologia, em Marx: em ambos os casos se trata
de sistemas de pensamento que, incorporados pelos indivíduos das classes dominadas, os
fazem perceber como natural e legítima a ordem social que os oprime. A violência simbólica opera “quando os dominados aplicam àquilo que os domina esquemas de pensamento que são produto da própria dominação” (idem, p.30). A mulher machista, o homossexual homofóbico, o negro racista etc. são os exemplos mais óbvios. Como se vê numa música dos Racionais: “um dia um PM negro veio me embaçar. E disse pra eu me pôr no meu lugar. Eu vejo um mano nessas condições: não dá… Será assim que eu deveria estar?”
Psicanálise do fascismo
Freud aborda essa questão sob um ângulo mais profícuo (talvez por não fazer
distinção de classe) para o caso dessa corrente política e de opinião que é o bolsonarismo.
Segundo Freud, o vínculo que ata líder e seguidor é de natureza libidinal, permitindo que se experimente, no grupo, um prazer quase impossível de se obter por outros meios.
Dificilmente os afetos dos homens se elevam, em outras condições, à altura que atingem numa massa, e é mesmo uma sensação prazerosa, para seus membros, entregar-se tão abertamente às suas paixões e fundir-se na
massa, perdendo o sentimento da delimitação individual (Freud, 1921,
p.25).
Que prazer é esse? O tipo de vínculo entre o seguidor e o líder é análogo ao que unia
o filho e o pai da horda primitiva. O superego, de uma extensão psíquica da influência
parental, é substituído pelo ideal de grupo, do qual é revestido o demagogo fascista, que
passa a encarnar, aos olhos da massa, a onipotência ameaçadora do pai original da horda
primeva. O líder encarna “uma personalidade muito potente e perigosa, ante a qual só se
pode ter uma atitude passiva-masoquista, à qual a vontade tem que se render” (Freud,
1921, p.70). Continua Freud:
O líder da massa continua a ser o temido pai primordial, a massa quer ainda
ser dominada com força irrestrita, tem ânsia extrema de autoridade, ou,
nas palavras de Le Bon, sede de submissão (idem, p.71).
Ora, é esse tipo de vínculo libidinal que explica a atitude irracional (do ponto de vista
do auto-interesse individual) do seguidor fascista. O indivíduo se rende ao grupo e à
submissão ao líder porque é aí que ele satisfaz o impulso arcaico de entregar-se a uma
autoridade, puramente fantasiosa, onipotente e incontrolável. Mas, quais mecanismos
transformam a libido no vínculo entre seguidor e líder?
O seguidor, na realidade, identifica-se com e idealiza o líder. Ele vê o líder como uma
extensão idealizada de sua personalidade; trata-se de uma regressão hipertrofiada,
portanto, ao estágio narcisista de desenvolvimento das tendências libidinais. Antes de
dirigir-se a um objeto externo, os impulsos sexuais dirigem-se ao (procurando encontrar
prazer no) próprio corpo do sujeito; essa fase infantil, auto-erótica, desdobra-se no (5)
narcisismo, em que os instintos sexuais catexizam o ego como objeto (Freud, 1912, p.112).
Esse amor de si, que é o princípio da condição do apaixonado, expande-se para o líder em
função do conflito – especificamente moderno – de ter de se lidar com a frustração dos
desejos (3) . O seguidor, “ao fazer do líder seu ideal, ama a si mesmo, mas se livra das manchas
de frustração e mal-estar que desfiguram a imagem de seu próprio eu empírico” (Adorno,
1951, p.169).
O bolsonarista típico é um frustrado, mas frustrados somos todos. Ele é um frustrado
que se ressente. Há uma incapacidade em se resignar em face da frustração dos desejos
aliada à uma dificuldade em realizar o prazer, em satisfazer os impulsos por prazer; isso gera
uma concentração da libido que encontra seu escape no “universo da política” ou da
participação num grupo que aspira ao “poder político” e que, assim, se atribui a
grandiosidade de uma missão ou cruzada moral. O fascismo, ao mesmo tempo que um
retorno primitivo, é feito na e pela civilização. É essa ira contra a frustração (que bem pode
ter a ver com contextos de desemprego, crise econômica ou conflitos sexuais) que está na
base da devoção ao líder, objeto – paradoxalmente – de identificação e idealização. As
pessoas com quem o líder fascista tem de lidar, prossegue Adorno (1951, p.169), “padecem
geralmente do conflito moderno característico entre uma instância do eu racional,
fortemente desenvolvida e auto-conservadora, e o contínuo fracasso em satisfazer as
demandas de seu próprio eu”.
É interessante notar que é a própria característica de dominação absoluta que faz o
líder ser amado; a hipnose, por assim dizer, que o pai da horda primeva causava é como que
revivida na relação (parcialmente narcísica) que o seguidor mantém com seu líder. Ele não
tem nenhum programa positivo. Não tem nada a dar. E é amado justamente porque não ama.
O líder somente pode ser amado se ele mesmo não amar (idem, p.171).
Ainda hoje os indivíduos da massa carecem da ilusão de serem amados
igualmente e justamente pelo líder, mas este não precisa amar ninguém
mais, é-lhe facultado ser de natureza senhorial, absolutamente narcisista,
mas seguro de si e independente. Sabemos que o amor refreia o narcisismo, e
poderíamos demonstrar que em virtude disso tornou-se fator de cultura (Freud, 1921, p.67).
É extremamente ambígua a circunstância de que ao mesmo tempo que encarna a
onipotência ameaçadora e absoluta, o líder precisa aparecer como uma figura com a qual o
seguidor consegue identificar-se. Quer dizer, não basta corporificar um supereu exagerado e
inalcançável; há a igual necessidade de aparecer como mais um, como um homem comum,
como alguém com quem o seguidor possa não só submeter-se de maneira passivamente
masoquista, mas também identificar-se. É assim, e só assim, que “a imagem do líder satisfaz
o duplo desejo do seguidor em se submeter à autoridade e ser ele mesmo a autoridade”
(Adorno, 1951, p.172). É assim que o líder, que por princípio submete, submete-se à massa.
Os seguidores o podem trocar do dia pra noite – ele é, em essência, descartável. Eles
assemelham-se àqueles indivíduos compulsivos que “repetidamente, no curso da vida,
elevam outra pessoa à condição de grande autoridade para si mesmos ou para a opinião
pública, e após um certo tempo derrubam eles próprios essa autoridade, para substituí-la
por uma nova” (Freud, 1920, p.134).
Com frequência ele [o líder] necessita apenas possuir de modo
particularmente puro e marcante os atributos típicos desses indivíduos [os
seguidores] e dar a impressão de enorme força e liberdade libidinal; então
vai ao seu encontro a necessidade de um forte chefe supremo, dotando-o
de um poder tal que ele normalmente não poderia reivindicar. Os outros,
cujo ideal de Eu, de outro modo, não se teria corporificado sem correções
na sua pessoa, veem-se então arrebatados “sugestivamente”, isto é, por
identificação (Freud, 1921, p.72).
As pessoas que obedecem aos ditadores também percebem que eles são
supérfluos. Elas reconciliam essa contradição ao assumirem que elas
mesmas são o opressor brutal (Adorno, 1951, p.172).
O bolsonarista típico, portanto, é humilde e orgulhoso em suas aspirações. Essa
humildade ou medianidade, diferentemente do que diz Adorno, nada tem a ver com a
profissão ou a ocupação exercida, posto que a relação carismática de poder não encontra
barreiras de classe. Quer dizer, embora assuma matizes distintos a depender das classes
sociais, o bolsonarismo as atravessa. Em todo caso, é pela ação do mecanismo duplo de
identificação e idealização que é feito o milagre da união de onipotência ameaçadora e simplicidade do homem comum a tocar seus afazeres cotidianos (4) . Parte da astúcia de
Bolsonaro advém daí: da sua capacidade de encarnar e manipular signos opostos. Ele se
vende como um político inimigo do “sistema”, como guia de uma missão heroica pela
“salvação da nação” e, ao mesmo tempo, se coloca ombro a ombro com o homem comum,
como um representante típico do homem do povo, em cuja imagem o seguidor (de
diferentes classes ou frações de classe) se projeta. Ao lado dessa ambiguidade, a astúcia de
sua liderança vem daquela capacidade de manter constantemente excitada a eletricidade
que mantém a massa unida e coesa na sua luta grandiosa “contra o sistema, pela nação”.
É por aí que podemos entender o quanto o fascismo é desinibido: parte do
pensamento para a fala e daí para ação – sem mediação. O agitador fascista “diz o que
pensa”, o que significa dizer o que não pensa, o que não passa pelo crivo da razão e da
consciência, o que é apenas uma descarga do inconsciente que logo passa para a ação. Essa
linguagem desinibida do inconsciente a céu aberto é uma das vias de identificação do
seguidor com seu líder, produzindo a mágica de reduzir os indivíduos a membros de
multidões vociferantes e irracionais que pensam, falam e agem sem filtro (5) .
Ora, Bolsonaro é admirado como um “mito” por isso: diz o que todo mundo (supostamente) pensa e ninguém
diz. O bolsonarismo, assim, é um grito contra uma certa etiqueta de civilidade, uma vez que
a civilização implica justamente no respeito aos indivíduos como indivíduos, não como
objetos, em suas singularidades significativas, em suas humanidades, assim como numa
certa restrição dos próprios impulsos (libidinais e destrutivos) individuais. Dizendo o que
ninguém diz, ou o que ninguém dizia por um certo constrangimento, Bolsonaro permite que
todos digam juntos, em uníssono, o que só é dito – e feito – em grupo e pelo grupo. O
seguidor bolsonarista não é um monstro, mas se permite monstruosidades no grupo virtual
ou real. O bolsonarismo é o fascismo dos homens bons (6) .
A civilização nasce com a renúncia. É ela que dá início à cultura e à vida em comum. O
fascismo, por sua vez, é a negação dessa negação, é a imposição imperiosa e absoluta do eu
em suas pulsões por prazer e (auto)destruição; imposição esta que, todavia, só se realiza no
e pelo grupo através da combinação dos mecanismos da identificação e da idealização. Por
isso o fascismo não tem fim, não tem contentamento possível. À beira do abismo, dá um
passo à frente. O fascismo é totalitário na sua vontade de poder, na sua ânsia de conversão e
domínio do mundo. Ironicamente, é como um vírus que não se sacia, que não tem limite. O
fascismo não sublima, ele atua e realiza. “Vocês querem a guerra total?!” Bradava Goebbels
com uma audiência embevecida. O fascismo exacerba a pulsão de gozo, morte e de
destruição.
Não há aqui uma análise exaustiva dessa politização da antipolítica que é o
bolsonarismo, que sem dúvida é um fenômeno complexo e multidimensional. Pelo contrário,
busquei, num quadro típico-ideal, lançar alguma luz sobre o cenário, sem reivindicar, aliás,
que se incluem neste quadro todos que votaram no atual presidente da República ou que
em alguma medida se alinham ao seu governo. Procurei sugerir, ainda, que, em termos
psicológicos, o fascismo bolsonarista é uma modulação extremada de (ou melhor: é uma
saída anti-civilizatória para) um conflito que, em certo sentido, nos diz respeito a todos.
Diversos autores e autoras vêm se dedicando ao tema, produzindo uma série de análises e
contribuições; se destacam as comparações (semelhanças e diferenças) com outras
correntes, como o lulismo, e as discussões que vinculam as escolhas das esquerdas à
ascensão bolsonarista e que mostram o quanto são turvas as linhas que, em muitos casos,
separam eleitorados opostos de maneira supostamente radical. Janelas importantes de
investigação também são as atitudes diferenciais de indivíduos de classes sociais desiguais,
mas que se unem no ódio e no amor libidinal (sadismo e masoquismo), assim como o fetiche
da ordem, da hierarquia e da organização que se vê nas multidões verde-amarelo. Ademais,
são centrais a dinâmica de amor aos de dentro do grupo e ódio aos de fora (com suas óbvias
interligações com setores do neopentecostalismo) e toda a retórica, típica dos tempos de
pós-verdade, de negação da ciência, de desprezo pela verdade dos fatos e de autonegação:
just remember, what you’re seeing and what you’re reading it’s not what is happening, just
stay with us.
1 Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) e mestre e doutor
em Sociologia pelo Instituto de Estudo Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(IESP-UERJ).
2 Como diz Adorno (1951, p.155), são ingredientes indispensáveis da técnica da propaganda fascista “a
constante reiteração e escassez de ideias”.
3 “Como uma rebelião contra a civilização, o fascismo não é simplesmente a reocorrência do arcaico, mas sua
reprodução na e pela civilização” (Adorno, 1951, p.162).
4 Ainda Adorno (1951, p.171): “embora apareça como super-homem, o líder precisa, ao mesmo tempo, operar
o milagre de aparecer como uma pessoa mediana, tal como Hitler posava como uma união de King Kong e
barbeiro suburbano”.
5 “A fim de conseguir corresponder às disposições inconscientes de sua audiência, o agitador fascista, por assim
dizer, simplesmente volta seu inconsciente para fora” (idem, 1951, p.182).
6 A referência aqui é A Máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe.
Textos citados:
ADORNO, Theodor. [1951]. Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista. In:
ADORNO,
Theodor. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo: Editora Unesp, 2015.
9
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina; a condição feminina e a violência simbólica. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 2019.
FREUD, Sigmund. [1912]. Totem e Tabu. In: FREUD, Sigmund. Totem e tabu e outros
trabalhos. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud,
volume XIII (1913-1914). Rio de Janeiro: Imago Editora, 1974.
______. [1920] Além do princípio do prazer. In: FREUD, Sigmund. História de uma neurose
infantil (“o home dos lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). Obras
completas, volume 13. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
______. [1921]. Psicologia das massas e análise do eu. In: FREUD, Sigmund. Psicologia das
massas e análise do eu e outros textos (1920-1923). Obras completas, volume 15. São Paulo:
Companhia das Letras, 2011.
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A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução
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2 meses atrásem
12/07/26
Eduardo Nunes Campos*
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
(*) Jornalista
Internacional
IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS
Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)
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2 meses atrásem
02/07/26
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.




O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Geral
O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Publicadoo
6 anos atrásem
07/11/20O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac
Por Dirce Waltrick do Amarante*
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina
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