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10 Anos de Mostra Luta!

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Entender e propor discussões sobre o momento atual e seus caminhos, as diversas faces e forças que muitas vezes oprimem a classe trabalhadora. Refirmar, dar visibilidade as luta sociais, fortalecer que as vozes da luta ecoem e tenham seus direitos respeitados.
A Mostra Luta! Durante os 10 anos em que acontece tem trazido discussões importantíssimas para a sociedade. A partir da sexta-feira, 13 de outubro, ela acontecerá em diversos locais, todas as ações são gratuitas, a programação engloba teatro, música, exposições, rodas de conversa, exibição de filmes entre outras atividades compõem a grade.
Documentários importantes como; “Menino 23” de Belisário Franca, “Era o Hotel Cambridge”; filme de Eliane Caffé, Chão de Fábrica; Documentário de Renato Tapajós (2017) entre outros fazem parte da Mostra. Exposições dos alunos secundaristas sobre as ocupações das escolas e a primeira iniciativa do coletivo de fotografia, formado por mulheres, – “Carolinas” traz a exposição fotográfica “ReExistir” .
Os Grupos de Teatro Carcaça e Vila 8 encenam temáticas para refletir e discutir. Um sarau com Batalhas de poesia, participação de diversas bandas, do Grupo de Teatro Fora dos Trilhos, Grupo Aos Brados e apresentação de Drags, e ainda um encontro musical com TC, Laila, Grupo Urucungos, Puítas e Quijengues e Baque Mulher integram a programação.
Além do MIS- Campinas, a Casa de Cultura Tainã, a Comunidade Nelson Mandela, a Praça Rui Barbosa e a UNICAMP fazem parte dos espaços que integram a Mostra Luta!.

Mostra Luta!
É um evento político cultural organizado por coletivos de comunicação popular de Campinas, que começou em 2008 como uma mostra de vídeos que abordavam as lutas sociais e, ao longo dos anos, passou também a incluir realizações em outras linguagens, como fotografia, quadrinhos, poesia, dança, música, teatro, debates, rodas de conversa, oficinas e saraus.
Em tempos de golpes, a Mostra Luta! reafirma que a luta continua presente nas ruas, nos bairros, nas fábricas, nos sindicatos, nas escolas, nos quilombos e nas quebradas de todo o país, nas muitas formas de luta por direitos, justiça, dignidade e emancipação social.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

SEXTA-FEIRA, 13 DE OUTUBRO
MIS ( MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS)
19h – Abertura das exposições.
19h30 – “Menino 23”, documentário de Belisário Franca, 2016
A partir da descoberta de tijolos marcados com suásticas nazistas em uma fazenda no interior de São Paulo, o filme acompanha a investigação de Sidney Aguilar e a descoberta de um fato assustador: durante os anos 1930, cinquenta meninos negros e mulatos foram levados de um orfanato no Rio de Janeiro para a fazenda onde os tijolos foram encontrados. (1h19)
Debate com a presença de convidados

SÁBADO, 14 DE OUTUBRO
MIS ( MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS)
19h30 – “Era o Hotel Cambridge”, filme de Eliane Caffé, 2017
Refugiados recém-chegados ao Brasil dividem com um grupo de sem-tetos um velho edifício
abandonado no centro de São Paulo. Além da tensão diária que a ameaça de despejo causa, os novos moradores do prédio terão que lidar com seus dramas pessoais e aprender a conviver com pessoas que, apesar de diferentes, enfrentam juntos a vida nas ruas. (1h39)
Debate com a presença de convidados

DOMINGO, 15 DE OUTUBRO
MIS ( MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS)
15h – “A farsa: ensaio sobre a verdade” – filme da Cia Estudo de Cena (SP), 2017
O filme, de 21 episódios organizados em três atos e epílogo, fala da memória do Massacre de Eldorado dos Carajás e da trajetória da peça “A farsa da justiça burguesa”. Um experimento sobre arte, política e memória popular. (2h40)
Debate com a presença do diretor, Diogo Noventa.
19h – “Recado para o mundão”- documentário de Diogo Noventa (SP), 2016
Morte, cultura, violência, relações familiares e amorosas na voz de jovens privados de liberdade nas Fundações CASA de São Paulo, que através de um dispositivo de câmeras de segurança e usando máscaras, enviam seu recado para o mundão. (1h24)
Debate com a presença do diretor

SEGUNDA-FEIRA, 16 DE OUTUBRO
MIS ( MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS)
“100 anos da Revolução Russa de 1917”
19h30– “10 dias que abalaram o mundo”- documentário, 1967
Uma produção anglo-soviética,baseada no livro homônimo de John Reed, feita para a TV, traz imagens de época e algumas cenas retiradas de Outubro (1927), de Serguei Eisenstein, além de cenas recriadas especialmente para o documentário. A narração original é de Orson Welles. (1h16)
Debate coma presença de Augusto Buonicore, historiador e secretário geral da Fundação Maurício Grabóis

TERÇA-FEIRA, 17 DE OUTUBRO
MIS ( MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS)
“Os 10 anos da Mostra Luta!”
19h – Especial curso DOC 360º – Aula Aberta
Roda de conversa coordenada por Juliana Siqueira e Batata, com
a presença de organizadores da Mostra Luta! e convidados

QUARTA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO
MIS ( MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS)
“Os sindicatos e o Golpe no Brasil”
19h – Chão de Fábrica; Documentário de Renato Tapajós (2017)
Chão de Fábrica é uma série documental televisiva de 13 episódios sobre a história do Novo Sindicalismo brasileiro, produzida pelo Laboratório Cisco, dirigida por Renato Tapajós e com narração de Zé de Abreu (primeiro episódio -17m)
Debate com a presença de vários sindicalistas de Campinas.

QUINTA-FEIRA, 19 DE OUTUBRO
ARQUIVO EDGARD LEUENROTH / UNICAMP
14h30 – 1917, a Greve Geral; documentário de Carlos Pronzato, 2017
O documentário busca as origens da greve de 1917, uma das mais longas e importantes de São Paulo e do Brasil, e discute momentos históricos, a trajetória dos trabalhadores e a greve diante da situação cem anos depois. (60m)
Debate com a presença do diretor.

MIS ( MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS)
19h- “Direitos Humanos na resistência à indireitação planetária”
Roda de conversa coordenada por Paulo Mariante, presidente do Fórum Municipal
de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania de Campinas, grupo Identidade e convidados.
SANDRA PRESENTE!!! homenagem a Sandra, mulher guerreira, uma das fundadoras da
Associação das Mulheres Guerreiras de Campinas

SEXTA-FEIRA, 20 DE OUTUBRO
MIS ( MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS)
19h – “Martírio”, documentário de Vincent Carelli, Uma análise da violência sofrida pelo grupo Guarani Kaiowá, uma das maiores populações indígenas do Brasil nos dias de hoje e que habita as terras do Centro-Oeste, entrando constantemente em conflito com as forças de repressão e opressão organizadas pelos latifundiários, pecuaristas e fazendeiros locais, que desejam exterminar os índios e tomar as terras para si. 2016 (2h42) Debate com a presença de Selvino Kókáj Amaral, primeiro professor indígena da Unicamp (IEL)

SÁBADO, 21 DE OUTUBRO 10H
PRAÇA RUI BARBOSA
Centro Grupo NATO, de Campinas, apresenta Teatro Fórum- PEC´s do Fim do Mundo

MIS ( MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS)
15h – “Se a escola fosse nossa – A luta dos estudantes secundaristas das ocupações à greve geral de 2017”
“Acabou a paz, isto aqui vai virar o Chile”, documentário de Carlos Pronzato, 2015
No final de 2015, estudantes secundaristas se mobilizaram contra a proposta do governo paulista de reformulação da rede estadual de ensino de São Paulo. Nãoconcordavam com a imposição vertical do projeto, considerando-o arbitrário, além de nãobenéfico para a classe estudantil. Em resposta, iniciaram manifestações de rua, culminando com a ocupação de escolas estaduais como uma forma de luta, estratégia influenciada pelos estudantes secundaristas chilenos que fizeram o mesmo em 2006. (60m)
Debate com a presença do diretor, Eduardo Vinagre (Professor da Rede Estadual), Tuany Cristina (Ocupação Eliseu Narciso), Carol Ynara (Ocupação Carlos Gomes), Nathalia Rodrigues (Ocupação Dom Barreto) Madu Lopes (Secundarista E.E Carlos Gomes) e mediação de Isabela Gonçalves.

18h – SARAU: Batalhas de poesia + Bandas: Pública, Ponto Oeste, Trupe, Kabbalah e Nêgo
Mantra + Grupo de Teatro Fora dos Trilhos + Grupo Aos Brados e apresentação de Drags

DOMINGO, 22 DE OUTUBRO
COMUNIDADE NELSON MANDELA
10h – “Fragmentos de cidade agrária – recortes cênicos sobre a relação do homem e a cidade”- Grupo de Teatro Carcaça, de Campinas
CASA DE CULTURA TAINÃ
15h – Comunicação em tempos de Golpes: Por onde devemos caminhar?!
Roda de Conversa sobre Comunicação Social
17h -“Candombê, Comparsas e Mocambos” – documentário de Alceu José Estevam, 2017 Contextualiza a passagem do Grupo Nación Zumbalelé, companhia de comparsa de candombê, sediada na cidade balneária de Salinas, no Uruguai, que realizou na Casa de Cultura Tainã várias oficinas culturais divididas entre construções de tambores, dança e percussão, organizadas pelos artistas e ativistas culturais Gustavo Fernandez e Camila Ocampo Albarenque.
Entrevistas, bailados, sonoridades percussivas, mesclando com as lutas dos movimentos de ativismo político-cultural, tanto da Rede Mocambos como da Nación Zumbalelé, que reúne povos afro latinos americanos, para a construção de “ uma cultura de paz e do jeito que queremos”, é o fio condutor de documentário. E também tem o caráter de salvaguardar as ações desta grande rede de produções colaborativas espalhadas na América Latina. (20m)
Debate com a presença do diretor.
18h -Lançamento da revista da AEESSP
Anais do XIX Congresso Mundial de Educadores e Educadoras Sociais
19h-Encontro Musical com TC, Laila, Grupo Urucungos, Puítas e Quijengues e Baque Mulher

QUARTA-FEIRA, 25 DE OUTUBRO
MIS ( MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS)
19h – Abertura da exposição fotográfica “ReExistir”
Debate com as fotógrafas do Coletivo Feminino Carolinas: Cíntia Antunes, Fabiana Ribeiro, Gabriela Zanardi , Sandra Lopes e convidad@s

SÁBADO, 28 DE OUTUBRO
SALA DOS TONINHOS
20h – Peça de teatro ; Noites Árabes – Grupo de teatro Vila 8 , de Campinas
Direção de Eduardo Okamoto, dramaturgia de Isa Kopelman, música de Marcelo Onofri e atuação de Cadu Ramos, Lucas Marcondes, Tess Amorim, Vanessa Petroncari e Virgílio Guasco.
Cinco atores sobre um tapete: um louvor às narrativas. Noites Árabes evoca o antigo hábito humano de narrar histórias traçando um paralelo entre as espantosas histórias que Sahrazad conta durante “Mil e Uma Noites” para se manter viva e relatos contemporâneos de guerra de palestinos na Faixa de Gaza. Os atores-narradores se revezam para recontar o mito de Sahrazad e histórias que espantosamente conseguiram escapar de um lugar de confinamento.
Ao contrário dos corpos, as palavras atravessam territórios e eras, transformando-se em força vital mantenedora da sobrevivência humana. Debate com o grupo após a apresentação.

Endereços:
MIS ( MUSEU DA IMAGEM E DO SOM DE CAMPINAS) CAMPINAS
Rua Regente Feijó, 859 – Centro

SALA DOS TONINHOS
R. Francisco Teodoro 1050 – Vila Industrial

CASA DE CULTURA TAINÃ
R. Inhambu, 645 Vila Padre Manoel da Nóbrega

ARQUIVO EDGAR LEUENROTH
R. Cláudio Ábramo, 377 Cidade Universitária

COMUNIDADE NELSON MANDELA
Jardim Nossa Senhora Aparecida, próximo ao Distrito Industrial (DIC)

PRAÇA RUI BARBOSA
R. 13 de Maio, 159 – Centro

Todos os eventos possuem entrada gratuita

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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