VÍDEO: Itamaraty representou interesses de invasores da embaixada venezuelana em reunião

Vídeo de dentro da embaixada de Venezuela mostra trechos de reunião entre representante do Itamaraty, membros do corpo diplomático oficial e advogados.

Representante do Itamaraty em reunião com corpo diplomático da Venezuela. Brasília, 13/11/2019

Na última quarta-feira, 13 de Novembro, a embaixada da Venezuela em Brasília foi invadida por um grupo de pessoas que se declaravam representantes diplomáticos de Juan Guaidó. Guaidó é deputado federal e em janeiro deste ano proclamou a si mesmo presidente da Venezuela, numa jogada contra o presidente Nicolás Maduro. A invasão aconteceu pelos fundos da propriedade. Por voltar das 4 da madrugada, os invasores pularam o muro. O corpo diplomático legítimo, representante República Bolivariana da Venezuela, presidida por Maduro, que reside na propriedade, foi surpreendido e se dirigiu ao prédio sede da embaixada assim que foi informado do ocorrido.

O presidente Jair Bolsonaro encontrava-se em reunião com o presidente da China, Xi Jinping, por ocasião da reunião do BRICS, mas enquanto isso o seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, manifestou no twitter o seu apoio à invasão. O governo brasileiro atualmente reconhece Guaidó como presidente da Venezuela. Desde o golpe parlamentar que destituiu Dilma Rousseff da presidência, em protesto, a Venezuela não tem um embaixador presente no Brasil. Quem faz a sua função é Freddy Meregote, Encarregado de Negócios. Já se aproximava das 11 horas da manhã quando Freddy e sua equipe conversaram pela primeira vez com um representante do Itamaraty, Maurício Corrêa. Estavam presentes também os deputados federais Paulo PImenta (PT-SP) e Glauber Braga (PSOL-RJ), um policial federal que não se identificou e alguns policiais militares.

O vídeo a seguir mostra o registro de dois trechos dessa primeira reunião. Abaixo a transcrição dos conteúdos do vídeo.

Transcrição

Maurício Corrêa, representante do Itamaraty:

O que eu sugiro: primeiro a gente não vai discutir questão de fundo, a gente não vai discutir a essência da coisa – “Ah vai expulsar uns, vai expulsar os outros, vai deixar não sei quem entrar…”

A gente não vai discutir nada disso enquanto não tiver instruções. Enquanto não tiver instruções, nada vai acontecer quanto a isso. Isso é uma realidade. Quanto tempo vai demorar a instrução, pode ser que demore muito. Nesse minuto, o meu presidente da República tá com o Xi Jinping.

Eu não posso interromper e resolver isso. Então infelizmente hoje é um dia atípico. Um dia completamente atípico.

(Algumas pessoas atendem ligações e deixam a sala)

Então vou concluir num minuto… então a primeira coisa que eu tô dizendo é o seguinte. Então a gente não tem nada que vá resolver a situação de fundo, vamos manter a situação congelada. Manter a situação congelada o que que é? O pessoal  do Maduro de um lado, o pessoal do Guaidó do outro lado, um não chega no outro pra não ter confronto pra não ter quebradeira, pra não ter dano ao patrimônio, pra não ter dano à pessoa, pra não ter nada disso. Então essa é a primeira coisa. É isso que eu vim aqui que eu ia falar pra ele.

Então o que eu queria fazer? Eu não queria simplesmente obrigar, falar com o comandante da polícia: “Olha, bota 20 pessoas aqui no hall pra garantir à força que um lado não vai encontrar com o outro.” Como eu falei, a gente tá primeiro construindo confiança, vai conversar com ele. E quero conversar com o outro lado. Quero que os dois lados percebam que é razoável primeiro que a gente garanta isso daí. E daí a partir daí a gente continua.

Fernando Neto, advogado:

Primeiro, observações e sugestões: se o senhor está esperando uma instrução pra tomada de decisão, houve alguma instrução pra entrada deles aqui.

M.C.Não.

F.N.Não houve? Então não tem que se falar em instrução. Existe uma invasão ilegal. Existe uma invasão ilegal. E, sugestão, se o senhor quer dialogar com os dois lados, que desmobilize o lado que não estava aqui ocupado, porque é a República Bolivariana Venezuelana que mantém financeiramente essa estrutura. A parte que representa o Guaidó não tem orçamento público dirigido para a manutenção dessa estrutura. Então por uma questão diplomática, de bom senso e de entendimento do Estado, essas pessoas que estão aqui já ocupavam esse espaço.

Uma sugestão é: desmobilize os outros que são legitimamente reconhecidos pelo Itamaraty e dialogue com os dois lados em território neutro que não seja este. Porque enquanto estiverem todos aqui, inclusive nós, batalhão da polícia militar, o senhor aqui dentro legitima a presença deles, deslegitima o diálogo, e não há como construir um entendimento.

A minha sugestão é: desmobilizem todos, converse em território neutro, porque é muito simples um comunicado do Itamaraty. Estamos a quase 11 horas da manhã e não houve comunicado. Se não houve comunicado, não existe entendimento do governo. Se não existe entendimento do governo então que se dialogue pra fora e prevaleça o que estava acontecendo antes. Bem simples a sugestão.

M.C.Obrigado. Eu vou dizer como que é que o outro lado vê isso. Eu entendo que do lado de vocês (…) “aconteceu primeiro tira todo mundo daí a gente conversa”. O outro lado diz exatamente o oposto. O que o outro lado diz? O outro lado diz o seguinte: “Eu sou o representante do Guaidó, o Brasil reconhece o Guaidó, logo essa embaixada representa… Embaixada… Embaixada da Venezuela.”

(várias pessoas falam ao mesmo tempo)

M.C. Então o que acontece. Eles da mesma maneira estão pedindo pra mim: “tem que expulsar o outro pessoa, porque eu tô aqui, eu sou o representante do governo reconhecido, e eu sou o chefe da embaixada, e eu estou expulsando as outras pessoas.” Entende como está a situação? Eu não quero, nem de um lado nem do outro, fazer nada nesse momento.

F.N. – Eu entendo perfeitamente, mas existe uma contradição dentro da sua instituição que foi o que gerou isso. Que da mesma forma que reconheceu a carta diplomática da embaixadora, manteve a carta diplomática do Freddy, reconhecendo infelizmente essa realidade. Vocês mantiveram a carta diplomática dele, não pediram pra ele entregar a documentação dele e nem por ofício, diário oficial,  uma determinação do Itamaraty, vocês não comunicaram a ninguém da embaixada pra que isso acontecesse.

Na sua fala, se você reconhece o que os outros estão, o outro lado, como você gostaria de se referir, se o outro lado está sugerindo, então é preciso ter um entendimento primeiro do governo brasileiro, porque foi o governo brasileiro, o Itamaraty, a sua chancelaria, que não conseguiram decidir o conflito. Por isso estamos aqui hoje.

CORTE. No segundo clipe, está falando Freddy Meregote, Encarregado de Negócios entre Brasil e Venezuela, que ocupa a função de embaixador (Tradução livre).

Freddy Meregote … Esquema de legalidade, agora mesmo com a presença de dois governos no Brasil em uma intersecção…

M.C. Para nós não há a presença de dois governo. Para nós há um governo, o governo Guaidó. É esse que nós reconhecemos.(…) Peraí, é a questão da bola, deixa eu dar a bola pra ele.

Alguém fora da imagem:Não é o senhor que dá a palavra. Se coloca no seu lugar, o senhor não dá a palavra a ninguém.

Paulo Borges, advogado, toma a palavra:

Nós tamos aqui. Tá de cabeça para baixo. Nós estamos num espaço da Venezuela. Né? Sendo coordenados pelo Itamaraty.

M.C. – Tranquilo. Interlocução acabou. Desculpe, eu tava tentando conversar de maneira pra acalmar, ficaram “ah não, você não pode, aí acabou…”

P.B.Não. Não. Por favor deixa eu falar. Você falou, re-falou e tal. Em boa parte estamos alinhados e referendo o que o Fernando já disse. Mas até pra fortalecer o que ele propõe do espaço neutro é que nem o senhor tem legitimidade, nem o pessoal lá fora tem legitimidade. Porque se, na hipótese de se reconhecer e dizer que o governo brasileiro reconhece o Guaidó, e eles estão legitimados pra entrar, primeiro que não entrariam 3, 4 da manhã, e segundo, quem foi que o governo brasileiro reconheceu? Essas pessoas que estão lá fora? Como que a gente parte de um pressuposto de que tem dois lados, se aqui tem um lado que é reconhecido, todos sabem que representa a Venezuela, e um outro lado que por invadir o espaço aqui foi considerado um lado legítimo pra negociar! Nós estamos invertendo. É como se entrassem na nossa casa de madrugada, a polícia chega e nós vamos negociar o dono da casa e o interesse do bandido que entrou. Então nós estamos invertendo a lógica. Então pra poder chegar num acordo acho que a gente poderia atentar pra proposta que o Fernando faz. Vamos desmobilizar, distensiona aqui nesse espaço, embora quem pudesse estar coordenando as propostas deveria ser o representando legítimo, o Freddie, mas a gente vai pra um campo neutro…

(Fim do arquivo)

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América Latina e MundoVenezuela
Um comentário
  • TANUSIA DOS SANTOS DO NASCIMENTO
    15 novembro 2019 at 8:32
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    Como legitimar um bando de invasores que tomam posse de um espaço legítimo do governo de Nicolas Maduro que se dizem representados por um golpista chamado Guaido. O Brasil se coloca como comparsa deste golpe e não tem estrutura para resolver.

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