Um dia para a história do Brasil e de Lula

por Daniel Araújo Valença

Curitiba 10-05-2017 Presidente Lula e Dilma discursam durante ato na Praça Santos Andrade. Foto Lula Marques/Agência PT

Lula, do alto da Praça Santos de Andrade, agradecendo a quem chegou de locais longínquos como o Acre, bradou emocionado:

“Eu já participei de manifestações com um milhão de pessoas […],

com todo tipo e quantidade de gente que vocês possam imaginar,

mas nenhuma, nenhuma é tão gratificante quanto saber

que vocês confiam em alguém que está sendo massacrado […]”.

E realmente foi um dia histórico, para o Brasil e para Lula. Não se trata apenas dos cinquenta mil e das 700 caravanas que suportaram mais de 12 horas de luta em Curitiba, mesmo com Judiciário, Prefeitura de Curitiba e ataque fascista ao acampamento do MST. Isto, por si só, frente a toda a conjuntura atual, já entraria para a história do país. Para além, este momento representa o ápice de um lento processo de alteração na correlação de forças , em cujo caldo entra desde o aumento da resistência às reformas neoliberais de Temer à inauguração popular do São Francisco.

Hoje será, portanto, um marco quanto à resistência ao golpe e à prisão política de Lula.

Mas não se trata apenas disto. Hoje também terá sido um dia para a história de Lula. Não a que contarão, quando este período de ruptura democrática houver de entrar para os livros. Mas para o próprio Lula, ao dormir, ao descansar de mais um dia de luta.

Lula nunca militou devido a convicções marxistas, leninistas, gramscianas. Se uma ética socialista, de busca de igualdade entre as pessoas, é importante ao militante político de esquerda, em Lula, a luta política é claramente ligada a seus princípios, seus valores, sua história. E hoje ele poderá dormir em paz por ter a crença de que, se Dona Marisa estivesse viva, se orgulharia de seu companheiro.

Ele não apenas respondeu altivamente a cinco horas de interrogatório; não apenas denunciou para todo o país a perseguição que promovem Globo, Veja, Estadão e demais empresas de comunicação, ao lado de jovens procuradores que pouco ou nada entendem da vida. Ele fez tudo isto. Mas ele fez mais.

Cara a cara, após cinco horas de uma longa tortura que há dois anos submetem a um senhor de 71 anos de idade – sobrevivente, que já perdeu irmãos para a seca nordestina, sua primeira mulher para a saúde brasileira, Dona Marisa para a perseguição política e sua mãe durante a ditadura – ele falou para o país, mas também para o “desencargo de sua consciência”:

“Moro, o senhor sem querer, talvez, entrou nesse processo, sabe por quê?

Porque o vazamento de conversas minhas com minha mulher e

dela com meus filhos, foi o senhor que autorizou.

Não tinha o direito de ver minha casa molestada

sem que eu fosse intimado para uma audiência.

Ninguém nunca me convidou,

de repente vejo um pelotão da Polícia Federal

e quando saí levantaram até o colchão achando que tinha dinheiro, doutor”.

Talvez tudo isto tenha passado em sua cabeça quando, discursando para as dezenas de milhares, incorreu em choro repetidas vezes. E, talvez sem querer, fez algo atípico para comícios: após terminar sua fala, ao encontrar-se com Ana Júlia, líder secundarista do Paraná, retornou ao palco, para reiniciar o comício e dar a ela direito de fala. A resistência que ocupa as escolas falou perante um gigante cansado e emocionado.

Hoje Lula dormirá tranquilo. Hoje ele escreveu um dos capítulos mais importantes de sua história e honrou a Dona Marisa e toda sua família.

Daniel Araújo Valença, professor de Direito da UFERSA – Universidade Federal Rural do Semi-Árido, doutor em Ciências Jurídicas pela UFPB e colaborador dos Jornalistas Livres.

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