Um ano de transcidadania

Por Léo Moreira Sá, para Jornalistas Livres

Foi realizada na quarta-feira (20/1), no Paço das Artes, em São Paulo, a comemoração de um ano do programa Transcidadania. No mesmo dia, 38 bolsistas do programa receberam o certificado do Ensino Médio e Fundamental. Estavam presentes na cerimônia o prefeito Fernando Haddad e sua esposa, Ana Estela Haddad, os secretários municipais Eduardo Suplicy (Direitos Humanos), Gabriel Chalita (Educação), Denise Motta Dau (Políticas para Mulheres), Cristina Cordeiro (Assistência e Desenvolvimento Social) e o coordenador de políticas LGBT da Secretaria de Direitos Humanos, Alessandro Belchior.

Trancidadania 2

“Em 12 meses foi possível transformar a vida de pessoas que já não tinham esperança de que podiam alcançar os seus objetivos e que muitas vezes se dedicavam às atividades que não eram condizentes às suas aspirações. Agora, pela educação, elas terão oportunidades renovadas”, declarou o Haddad, que anunciou a abertura de mais 100 vagas para esse ano.

O programa Transcidadania foi lançado em 29 de janeiro de 2015. Oferece uma ajuda de custos de R$ 820 (atualizada neste ano para R$ 910) para que travestis, mulheres transexuais e homens trans cumpram uma carga horária de 6 horas diárias de estudos envolvendo ensino tradicional, cursos de capacitação profissional e de Direitos Humanos . São 200 pessoas beneficiadas que ficam por um período de dois anos sob os cuidados de professores, psicólogos, assistentes socias, além de terem acesso à hormonização, saúde integral e assistência jurídica.

A coordenação do programa é feita pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC), em parceria com as secretarias de Políticas para Mulheres (SMPM), Educação (SME), Saúde (SMS); Desenvolvimento, Trabalho e Empreendedorismo (SDTE) e Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), além de outros colaboradores.

“A nossa intenção é que as pessoas tenham novas oportunidades de vida: de estudar, de sonhar, de ter desejo, de poder minimamente criar seu próprio sonho” declarou June, coordenadora do Transcidadania

A bolsista Paloma Castro, de 24 anos, que se formou no Ensino Fundamental, disse que retomar os estudos era um sonho que só pode ser realizado com a sua adesão ao Transcidadania. Agora quer recuperar o tempo perdido para construir um futuro melhor. Antes, todo o seu tempo era gasto na sobrevivência do trabalho nas ruas, como profissional do sexo. “Meu sonho de trabalho é ser médica, trabalhar na área de saúde. Vou lutar pra isso e não vou parar por aqui”, avisa.

O homem trans Luciano Medeiros, 38 anos, passou 28  sem estudar por não ter suportado a relação transfóbica de estudantes e alun@s nas salas de aula.  Se formou no curso de Direitos Humanos e Cidadania e já concluiu o Ensino Fundamental. Neste ano, começa a estudar no Ensino Médio. “Hoje tenho outras perspectivas na minha vida. Sonho em ser um advogado e assistente social. Minha vida mudou completamente pra melhor. O Transcidadania significa para mim o resgate da minha dignidade.”

Jornalistas e delegações estrangeiras já visitaram o Brasil interessados em conhecer a estrutura do projeto com o objetivo de levar a experiência pioneira para seus países. O coordenador, Alessandro Melchior, anunciou a sua ida aos Estados Unidos para apresentar o Transcidadania. O programa também está sendo planejado para operar em Minas Gerais.

“Implantamos essa política no país que mais assassina travestis e homossexuais. É uma política pública séria, uma opção corajosa e arriscada que pode mudar a vida das pessoas, servindo de exemplo para outros municípios e estados”, declarou Melchior.

O Transcidadania é um programa de inserção social para travestis, mulheres transexuais e homens trans pioneiro no mundo. Completa um ano com sucesso ao resgatar das ruas pessoas historicamente excluídas e as  capacita com estudo e qualificação profissional. Como declarou Haddad “é o programa mais ousado que se tem notícias”, em referência à situação de exclusão social e violência a que estavam submetidos integrantes desse grupo social. O importante agora é acelerar a inclusão de uma porcentagem maior do que os 5% beneficiados. São cerca de 4.000 travestis, mulheres transexuais e homens trans vivendo de subempregos ou como profissionais do sexo no Brasil.

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