Transição rumo à liberdade

por Larissa Costa do Brasil de fato para os Jornalistas Livres fotos Isis Medeiros

Beleza mulheres com cabelos crespos e cacheados abandonam a química em busca da sua identidade

Alisamento, chapinha e escova progressiva viraram febre entre as brasileiras nos últimos anos. A promessa é que esses produtos são ótimas soluções para diminuir o volume, domar os cabelos crespos e esticar as madeixas. Mas quem disse que cabelo alto é um problema? Essa é a pergunta que muitas mulheres fazem quando resolvem abandonar a química e deixar o cabelo natural.

Esse processo, conhecido como “transição capilar”, geralmente é difícil e pode demorar anos. Mas vai além de uma transformação no cabelo. É um momento de autoconhecimento, autoaceitação e empoderamento.

Foto: Isis Medeiros

Para Paula Silva, foi uma busca por sua identidade. Ela começou a usar química no cabelo aos 7 anos e hoje conta que nunca gostou de alisar. “O procedimento é um sofrimento e é muito caro. Além disso, nos deixa reféns, pois não temos a liberdade de ir ao clube ou tomar um banho de chuva”, comenta a estudante.

Depois de duas tentativas, sua última transição durou dez meses até quando cortou o cabelo bem curtinho, o que é chamado de “big chop” (corte grande, em inglês). “Senti que aquele momento seria um divisor de águas na minha vida. Estava deixando de ser uma mulher de baixa autoestima, infeliz e cabisbaixa para ser uma mulher linda, feliz e com autonomia para enfrentar as adversidades de cabeça erguida e cabelo também”, afirma Paula.

A recepcionista Ana Carolina de Souza alisou o cabelo pela primeira vez aos 18 e, por oito anos seguidos, não ficava sem chapinha. “Houve época em que passava prancha no cabelo quase toda noite, de tanto que tinha medo de uma raiz anelada. Com o passar do tempo, vi meu cabelo sem vida, não podia fazer coisas simples sem a preocupação de chegar em casa e pranchar o cabelo”, lembra.

Foto: Isis Medeiros

Após nove meses, Ana Carolina também se rendeu ao big chop para cortar toda a química que ainda restava. “Cortei os 50 cm de cabelo esticado e opaco com uma única tesourada. Olhei-me no espelho com o cabelo curtinho e pensei: ‘nossa, essa sou eu?!’ Então eu via os cachinhos tímidos, que só após o corte ganharam forma e liberdade, e isso já me bastava para continuar a dormir feliz com óleo de coco na cabeça”, diz.

Rompimento com a dependência

Lorena Lemos usou alisantes por 14 anos, desde que tinha 12 anos. Ela conta que tinha problemas com o volume do seu cabelo e, por isso, usava muitos grampos para prendê-lo. “Não saía se não tivesse feito escova e prancha e uma raiz alta significava choro, crises de raiva. Além disso, o fato de passar uma hora, uma hora e meia no salão aos fins de semana começou a me incomodar profundamente, ao pensar que poderia estar fazendo outra coisa”, conta a professora.

A inspiração para a mudança veio quando sua mãe perdeu todo o cabelo — que também tinha química — no tratamento contra o câncer de mama. Junto com o cabelo novo de sua mãe, cresceu também a coragem para fazer o big chop. “Meu cabelo passava do ombro e quando cortei, ele ficou com quatro dedos de comprimento. Foi um processo complexo, na primeira semana tive dificuldade de olhar no espelho, mas ao mesmo tempo me sentia feliz de conseguir romper com um ciclo de dependência”, afirma

Foto: Isis Medeiros

Cabelo solto também é resistência

Além de terem passado pela transição capilar, Paula, Ana Carolina e Lorena têm mais uma coisa em comum. Para elas, alisantes nunca mais. Seus cabelões resgatam ancestralidade, são energia de vida e de luta.

“Hoje sou livre e essa liberdade transparece sendo resistência através do meu cabelo. Faço dele a minha marca, a minha autonomia, a marca da luta de negros e negras que resistiram e lutaram, minha referência aos meus antepassados, a história de quem eu sou e de onde vim”, afirma Lorena.

Dicas para a transição

A cabelereira e trancista Daniele Assis dá dicas para quem quiser fazer a transição capilar. Para a profissional, o big chop não é obrigatório, mas o “primeiro passo é cortar, pode ser aos poucos, mas tem que tratar o cabelo. Para isso, os salões oferecem várias hidratações, mas também tem aqueles métodos caseiros e naturais”.

Para aquelas que ainda não se encorajaram, Daniele diz que as tranças são uma ótima opção. “As tranças ajudam na transição, porque mantêm o cabelo arrumado”, afirma.

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