Terra, vida e juventude – Thais Paz

Laís Vitória Cunha de Aguiar, especial para os Jornalistas Livres. Fotos: MST.

“Terra é vida. É dela que brota tudo, dos alimentos até a cultura camponesa. Por isso a terra jamais deveria ser mercadoria: como base da vida, é um direito de qualquer ser humano ter acesso a ela e aos seus frutos.”

Thais Terezinha Paz, de 24 anos, nasceu em Água Doce, um município de Santa Catarina, no mesmo ano em que seus pais começaram o trabalho de base que desencadearia no assentamento IX de Novembro.

Ela começou a participar do coletivo da juventude em 2007, com somente 14 anos. Para ela a luta é normal, nascer lutando por um ideal é algo quotidiano.

Depois de estudar história na UFSM, e contribuir para a organização do Levante Popular da Juventude e da Escola Nacional Florestan Fernandes, no início de 2016 ela assumiu a coordenadoria nacional da juventude do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST.

Assumiu a coordenadoria em um momento de crise: a luta contra o golpe. No MST, ajudou nas ações de stencil, muralismo, teatro, música, batucada, intervenções em praças, metros, ônibus, ocupações das escolas, entre tantas outras.

Thaís é uma jovem mulher que representa bem a juventude do MST, com clara formação política sólida, e com a essência da vida que alimenta a terra e também o sonho e ideal dos jovens do movimento: a busca pela igualdade, pelo direito a terra, pela vida, pela liberdade e pela educação libertadora. É uma juventude viva na luta contra desigualdades e injustiças, algo bem raro nos dias de hoje, em que discurso parece prevalecer em relação à ação.

Confira a íntegra da entrevista:

Jornalistas Livres: Como entrou para o MST?

Thais Paz – Minha família é próxima do MST desde a década 90. Em 1993 (ano em que nasci), meus pais se envolveram com o trabalho de base que desencadeou na ocupação de um latifúndio que logo depois virou assentamento (IX de novembro, no município de Água Doce-SC). Hoje minha família é assentada lá. Então estou no MST desde que nasci.

JL – Qual a sua luta como juventude do MST, tanto no âmbito coletivo como pessoal?

TP– São muitas questões que nos motivam a lutar: individualmente o que mais me incomoda são as injustiças. Esse sistema explora nosso trabalho, nossos corpos, implica divisões no povo para que não nos reconheçamos como iguais. Sonho com um mundo sem exploração das/os trabalhadoras/es, sem dominação sobre as mulheres, LGBTs, negras/os.  A juventude do MST tem essa capacidade de vincular as lutas por nossas necessidades mais imediatas com a luta por objetivos mais a longo prazo, como a luta por uma sociedade socialista.

JL – Como você se tornou liderança da juventude do MST?

TP – Comecei a participar das atividades da juventude do MST em 2007, com 14 anos.  Fiz cursos de formação no meu assentamento, atividades estaduais, e o programa de formação da juventude campo e cidade que terminou em 2008. Neste ano entrei para o coletivo estadual  de juventude em Santa Catarina.  Depois passei 5 anos estudando história em Santa Maria (UFSM), e contribui na organização do Levante Popular da Juventude. No ano de 2015 contribuí na Escola Nacional Florestan Fernandes e no início de 2016 assumi a tarefa de coordenação do coletivo nacional de juventude. Ou seja, são alguns anos participando dos processos organizativos e formativos da juventude, e que aos poucos vão implicando em responsabilidades maiores.

JL – Quais os maiores desafios que enfrentou, pessoal e coletivamente?

TP – São vários desafios que permeiam a juventude do MST. Entre todos destaco o acesso a educação.  A luta pela construção de escolas nas áreas da reforma agrária, por uma educação no campo, pelo acesso ao ensino superior, por uma formação comprometida com a luta do povo brasileiro, são partes fundamentais da luta da juventude sem terra.

JL – Qual característica mais representativa da juventude do MST?

TP – A diversidade do povo brasileiro e a luta. A juventude sem terra guarda em si a história de resistência do nosso povo, dos camponeses, indígenas, negras/os, trabalhadores rurais expulsos do campo. Essa diversidade é marca de qualquer encontro, é um dos nossos pontos mais fortes. Outra marca fundamental é que a juventude sem terra desde muito cedo aprende que é preciso organizar nossa rebeldia, é preciso dar força a ela, transformá-la em luta, em ação concreta que enfrente nossos inimigos e conquiste direitos.

JL – Qual o seu principal sonho para a juventude do MST?

TP – Meu maior sonho  é que conquistemos uma vida digna para todos e todas, que possamos construir uma nova sociedade em que realmente haja igualdade, liberdade, terra, alimentos saudáveis, educação, saúde, cultura, lazer, etc. Desejo que a juventude nunca se acomode, que viva permanentemente enfrentando as desigualdades e injustiças.

JL – Se pudesse definir a palavra terra, como a definiria e o que ela representa para você?

TP -Terra é vida. É dela que brota tudo, dos alimentos até a cultura camponesa. Por isso a terra jamais deveria ser mercadoria: como base da vida, é um direito de qualquer ser humano ter acesso a ela e aos seus frutos.

JL – Como foi sua atuação na luta contra o golpe?

TP – A juventude do MST construiu todas as agendas de luta do MST, que por sua vez tem na Frente Brasil Popular um espaço de articulação das lutas com outros setores populares. Participamos das lutas, fomos protagonistas principalmente nas ações com agitação e propaganda, usando nossa criatividade em técnicas como stencil, muralismo, teatro, música, batucada, intervenções em praças, trens, ônibus, etc. Participamos das ocupações de escola, ocupando nossas escolas do campo, doando alimentos e apoiando outros processos de luta da juventude.  É um momento intenso de luta e articulação, com a construção da Frente Brasil Popular, as greves, as mobilizações contra o golpe refletem os desafios que são próprios desse momento. O trabalho com a juventude sempre se conecta com os desafios gerais da organização. Esse é um período de intensa mobilização, onde cresce a centralidade das pautas políticas. Nossa juventude tem participado de muitos processos de luta, o que acelera o processo de formação.

JL – Como você vê a questão das minorias no MST?

TP -A gente não usa esse termo de minoria, então vou falar mais ou menos o que entendi: a gente tem um setor de gênero, onde as mulheres se organizam historicamente, um setor que não é só auto organizado de mulheres, mas um setor que luta contra o patriarcado, pela desconstrução do machismo. Existe desde 2000, e a novidade tem sido a organização dos LGBTs Sem Terra, que já tinha uma série de iniciativas, mas a gente passa a organizar nacionalmente a partir de 2015, com a realização do primeiro seminário, o MST e a Diversidade Sexual,  e aí a partir de lá tem sido feita uma série de atividades, estamos gestando, construindo um coletivo LGBT Sem Terra. Lá também temos um grupo de estudos do LGBT Sem Terra, que foi onde já fizemos um caderno de formação.

Por Laís Vitória Cunha de Aguiar, especial para os Jornalistas Livres.

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