Sobre a agressão e prisão arbitrária de uma índia

Por Aline Frazão, para os Jornalistas Livres

Foto: Gustavo Ferreira

Pelo fato de carregar arco e flecha artesanais, Juvana, da etnia Xacriabá, foi agredida e presa durante Grito dos Excluídos no norte de Minas Gerais

Juvana e a amiga Silla ainda tentam entender o que teria levado à prisão a índia Juvana naquele sete de setembro, em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Na internet, as mensagens direcionadas à indígena se dividem entre apoio e racismo. Das falas de ódio e desinformação, já conhecidas pelo brasileiro, talvez a que mais impressionou Juvana foi uma em que dizia que ela não é indígena. “Nós somos indígenas sim. Estamos em Montes Claros pra estudar”, diz Silla.

Foto: Gustavo Ferreira

Outra mensagem que também abalou Juvana, não mais que a agressão policial e a morte de seus parentes (índios da etnia Guarani-Kaiowá), foi uma que dizia que ela tem antecedentes criminais. “Como a pessoa fala isso? Ela terá de provar na justiça”, desabafa.

“A cabeça ainda dói, o braço está dolorido, e o psicológico está péssimo”, contou Juvana, que veio a Belo Horizonte nesta quarta-feira, dois dias depois da agressão, a convite do deputado estadual Rogério Correia (PT). Ela participaria de audiência pública da Comissão de Direitos Humanos, que trataria justamente de violência policial, não contra indígenas, mas contra jornalistas, em Minas Gerais. Mas agressão é agressão, e o momento não poderia ser mais propício.

Juvana e Silla são da etnia Xacriabá. A aldeia delas fica no município de São João das Missões, a 300 km de Montes Claros. Elas deixaram o lar e os familiares e foram para a cidade realizar o sonho da maioria dos jovens: se formar em uma universidade. Juvana faz Direito e Silla, Enfermagem. Mas, para concretizar a graduação, elas enfrentam todo tipo de preconceito e dificuldade. Na universidade, elas recebem apoio dos colegas, mas fora de lá, a vida não é fácil: machismo em cada esquina e a recusa em empregá-las em algum trabalho.

Foto: Gustavo Ferreira

De personalidade forte, mas com a característica marcante de uma pessoa tranquila, Juvana não imaginava que seria agredida, um dia, por um policial. Mas aconteceu. Naquele dia em que se comemora a Independência do Brasil, ela saiu, com outros quatro indígenas, para participar do Grito dos Excluídos, evento paralelo aos tradicionais desfiles cívicos, que acontece há 21 anos em várias cidades de todo o país. Além do arco e flecha, artesanais, Juvana empunhava um cartaz que dizia: “somos todos Guarani-Kaiowá. Contra o genocídio a mando do agronegócio”.

Nos últimos dias temos visto o assassinato cruel de lideranças indígenas no Mato Grosso do Sul. Os verdadeiros donos do país, que povoavam aqui antes da chegada dos portugueses, são expulsos à bala por fazendeiros, que desmatam a floresta e contaminam os rios em nome do “progresso”. Mas aprende-se na escola que o Brasil foi “descoberto”. E deve ser por causa de mais essa distorção que até hoje os índios continuam sendo exterminados. O brasileiro não sabe a própria história. Triste!

Além do genocídio, em curso, dos índios da etnia Guarani-Kaiowá, os indígenas ali presentes no ato protestavam contra a aprovação da PEC 215, que tramita no Congresso e pretende tirar do Poder Executivo e da Funai, a demarcação de terras, e passá-la para o Senado. Sim, essa Casa Legislativa vem mostrando bem ao lado de quem está: dos ruralistas.

Durante o protesto, as índias não perceberam, mas o policial que agrediu e efetuou a prisão arbitrária de Juvana estava próximo a elas o tempo todo. As fotografias postadas por várias pessoas na internet, após o evento, comprovaram isso. O que deixa Juvana pensativa: “Não sei se foi por preconceito contra nós, ou se alguém havia pedido que ele ficasse tão perto da gente”.

Quando os manifestantes do Grito dos Excluídos chegaram até o palanque onde estava o prefeito Ruy Muniz, as pessoas se sentiram ofendidas com a reação do chefe do Executivo local. E não é pra menos: nos vídeos postados na internet dá pra ver claramente que ele estava sorrindo e dançando, em um momento onde não se tinha o que comemorar. As pessoas estavam ali lutando por direitos negados a elas.

Conforme contou Juvana, nesse momento ela entregou ao prefeito o presente que havia levado para ele: uma camisa com os dizeres “não à PEC 215”. Apesar de agradecer, o prefeito não mostrou o presente, como gostaria Juvana. Foi quando muitas pessoas se juntaram a uma grade, que caiu. Repito: muitas pessoas. Mas só Juvana foi levada pelos policiais, que disseram que ela queria acertar Ruy com a flecha em mãos. Além da prisão arbitrária, Juvana foi agredida. E o detalhe do arco e flecha não pode passar despercebido, pois se eles representavam uma ameaça, por que não foram “tomados” de Juvana e dos outros indígenas no início do protesto?

O dia de Juvana e Silla foi movimentado na capital mineira. Os telefones não paravam de tocar: havia gente querendo mesmo se solidarizar e ajudar de alguma forma, como havia também os oportunistas. Durante a audiência, Juvana, que se mostrou forte em todas as entrevistas de TV, rádio, jornal e internet, não conseguiu concluir sua fala, e desatou a chorar.

Mas a expectativa com a audiência é boa. No dia 28 deste mês, será realizada, a pedido da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas Gerais, uma audiência em Montes Claros. O prefeito da cidade, Ruy Muniz, e o cacique da etnia Xacriabá foram convidados. O comandante da PM em Montes Claros, Sérgio Ricardo de Oliveira, foi convocado pelos legisladores para prestar esclarecimentos.

Depois de muitas entrevistas concedidas à imprensa, as índias foram até a Casa de Direitos Humanos em Belo Horizonte. Elas contariam, em forma de oitiva, o ocorrido neste sete de setembro em Montes Claros. Apesar da agressão sofrida, Juvana disse não ter medo de lutar por seu povo, pois ela tem “o sangue do sangue que foi derramado nesses mais de 500 anos de colonização do Brasil”.

Foto: Gustavo Ferreira
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