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Democracia ou morte!

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Por João Bacellar

Um grande slogan vale por uma bomba atômica. Uma grande epígrafe move montanhas. Um grande epíteto faz o papel de uma coroa imperial. Um pensador pode deixar legado à humanidade 10 mil tomos de 20 mil páginas da mais genial elucubração; passados 100 anos, tirando talvez meia dúzia de apóstolos, a humanidade apenas lembrará de suas frases de efeito, jargões e bordões. A história se repete como farsa, e, no entanto, ela se move.

A beleza de um bom slogan está em seu caráter democrático. Longos discursos, esforços retóricos de fôlego e textos densos podem dissecar uma determinada questão ao átomo da molécula da célula da medula. Podem levar o público à compreensão profunda do assunto tratado, mas… Que público será esse? Será o pequeno público especializado em tal questão específica ou o ainda menor público de polímatas aptos a digerir qualquer osso teórico. Independente de clareza ou da beleza do estilo empregado é inerente à complexidade ser pouco compreendida. Já um bom slogan é entendido – e, melhor, gravado na mente – do mais erudito dos escolásticos ao mais inepto dos energúmenos. Um bom slogan “cola”. É democrático.

O slogan eficiente, do ponto de vista da comunicação, também tem a vantagem de não ter como obrigação exprimir uma premissa correta ou verdadeira. Se, por exemplo, um  artigo científico tem por mérito demonstrar a verdade ou relevância de uma teoria qualquer, o slogan só precisa colar a mensagem que deseja passar ao público, mesmo sendo uma fraude histórica ou um engodo total como o famoso “Independência ou morte” ouvido pelas margens plácidas do Ypiranga.

Alguém tem ilusões que o tíbio Pedro de Alcântara F.A.J.C.X.dP.M.R.J.J.G.P.C. Serafim, Vulgo D.Pedro I,  possuía quaisquer reais pretensões independentistas, na acepção concreta do termo, quando os espertos cronistas palacianos cunharam o “independência ou morte”? Passamos de um império fajuto a uma colônia britânica (senão oficial seguramente de facto) na esteira do famoso grito. Pedro, fugido do Brasil numa fragata inglesa, e morto aos 35 anos pouco mais de uma década após proclamar o histórico slogan, graças à retumbante frase, entrou para a história no senso comum como um herói. Um bom slogan “transforma” um fraco num gigante, um canalha num justo e uma raposa velha do baixo clero da câmara dos deputados num messias.

Não é coincidência que a bandeira do Brasil seja uma das únicas do Mundo que contém um slogan.

                                                                           

charge: Bacellar

Nós aqui do esmagado e triturado dito “campo progressista” (epíteto que não engaja, nem une e nem sequer anima. Mas é o que temos pra hoje) costumávamos entender bem o poder de síntese e comunicação do slogan. Para criar um slogan poderoso os autores precisam, acima de tudo, captar com perfeição o período histórico que vivem e conhecer em profundidade o  público alvo. “A esperança vai vencer o medo”, da vitoriosa campanha de Lula em 2002 era perfeito naquele momento, após uma década de dilapidação neoliberal e arrocho, o brasileiro precisava de esperança, mas após décadas de macartismo incessante tinha medo de barbas longas e bandeiras vermelhas. Então dissemos afirmativamente: A esperança VAI vencer o medo. Apelamos para o sentimento mais positivo em detrimento ao negativo, a situação era tão desalentadora que o medo refluía, e, não por acaso, deu certo.

É evidente que não basta um slogan para levar uma eleição presidencial, não se pode negar todo o processo histórico e material de cada período. Por exemplo, o “pai” da “esperança vai vencer o medo” o famoso “sem medo de ser feliz” não levou em 89, mas era melhor do que o epíteto “caçador de marajás” e se  foi derrotado o fracasso se deveu a uma articulação barra pesada, milionária e desonesta do velho patrimonialismo nacional, dos eternos donos do Brasil. Um slogan sozinho não vence eleição e não cria o caldo social necessário para fomentar uma guinada ideológica na população. Mas slogans e chaves discursivas simples e compreensíveis são sim uma parte fundamental e básica na guerra narrativa política. Em tempos de guerra híbrida então deveriam ser o foco número um de qualquer comunicação.

Outro exemplo de slogan poderoso do nosso campo foi o “Diretas já”. Simples, conciso, imperativo. Queremos votar. Queremos democracia. Queremos imediatamente. Para um Brasil silenciado por 24 anos de ditadura era o slogan perfeito: Universalizante, vertical, horizontal, transversal. Ou você queria passar a votar ou queria a continuação daquilo que não dava certo. Num momento de fraqueza e desgaste do regime foi mortal.

Agora percebam a importância de compreender ou captar o “mood” do público e a essência do momento histórico. Por que não bastou requentar o “Diretas Já” contra o golpismo em 2016 para galvanizar o Brasil? Simples, tivemos diretas em 2014 e teríamos eleições diretas municipais em 2016 mesmo… Ao senso comum, que é simples, porém não obtuso, soava como pedir algo que já existia. A população ansiava por estabilidade após os conturbados anos que seguiram 2013, e o golpe de 2016 pela via institucional do impeachment, oferecia, ao menos discursivamente, estabilidade. Aquilo que funcionou num período específico não tende a funcionar num período diverso.

                                                                           

Agora vamos olhar para o atual discurso do campo progressista. Da oposição ao ultra-neoliberalismo capitaneado pela extrema-direita. Uma total polifonia. Textos (como esse!) longos e complexos demais para 98% do Brasil. Discordâncias. Linhas políticas contrárias, autocentradas e que gastam 50% de sua energia no combate ao… Próprio campo progressista! Alguém pode crer que para o cidadão médio não sejamos nós os culpados pelo caos social? Nossa atitude caótica e errática apenas corrobora essa visão.

Será que o arguto e atento Antonio Gramsci passou os últimos anos de sua vida pensando e escrevendo preso num cubículo minúsculo e úmido para fornecer armas teóricas poderosas para a direita e ser, aparentemente, esquecido por nós da esquerda – a quem tais reflexões originariamente se destinavam? Por que, vamos admitir, o general Heleno parece compreender muito bem o pensamento gramsciano, já alguns setores da esquerda… O campo progressista perde tempo estapeando-se por likes e wiews nas plataformas do FAANG como se fosse operado pelos mais perfeitos, rematados e caricatos cãezinhos de Pavlov. “Muito bem, desenvolvimentista, bateu no trotskista, tome um like! Bom garoto”… “Feio, stalinista! Criticou o identitário! Vai perder 30 followers!”

Se por um lado é óbvio que para a esquerda atual é impossível criar um programa político-econômico aplicável ao Brasil, que abarque ou agrade todas as linhas e correntes do campo progressista, mais óbvio ainda é que podemos fácil e coerentemente nos unir no objetivo em comum de afastar a extrema direita do leme do país e garantir a continuidade das liberdades democráticas. Alguns dirão que no Brasil nunca houve liberdades democráticas plenas (uma obviedade), a esses cabe  perguntar: entre a não plenitude e o extermínio total… Há o que pensar?

                                                   

charge:Bacellar

Enquanto debatemos e gastamos os dedos com textos como esse, destinados a, com sorte, alguns milhares de ativistas a extrema direita marreta seus slogans poderosos na cabeça de milhões de brasileiros minuto a minuto.

E como são esses milhões? O Brasil é um país continental com mais de 200 milhões de habitantes. Um porto-alegrense, por exemplo, está mais próximo, geográfica e culturalmente, de Montevidéu do que de Monte Sião, assim como um sul mato-grossense de Ponta Porã entra e sai do Paraguai a pé, mas precisa pegar 300km de estrada para chegar na capital do estado, Campo Grande. O Brasil é gigante e diverso. Slogans e chaves discursivas para pegar do Oiapoque ao Chuí precisam ser baseados em análises profundas do povo brasileiro. Não me venham com o que Lenin derramava nos ouvidos do povo soviético em mil novecentos e lá vão 100 anos… Lenin está morto e embalsamado, precisamos tocar o povo brasileiro de 2020.

Essa  tarefa, de mapeamento demográfico complexo, é tarefa para nossas melhores cabeças. Eu que não tenho pedigree nem titulação, sou apenas um João qualquer (Mas talvez esteja na hora de nossos sábios e eruditos darem 10 minutos de ouvido a um João qualquer), só posso tentar traçar um esboço grosseiro. Vamos lá.

Possuímos uma série de capitais ou grandes cidades cosmopolitas em que as populações tendem a ter mais semelhanças culturais e de costumes entre si do que em áreas rurais e de cidades de pequeno e médio porte regionalmente mais próximas a elas. Já considerando os diferentes recortes socioeconômicos é possível perceber mais paralelos no modo de vida e cultura de, por exemplo, paulistanos, brasilienses e recifenses do que entre paulistanos e brodosquianos ou votuporanguenses. Pode-se dizer que uma parte do discurso das esquerdas precisa ser voltado para essas populações urbanas dos grandes centros, que embora distantes geograficamente compõe um recorte lógico do ponto de vista da comunicação.

Nesse recorte disputamos com a direita relativamente bem. Se não ganhamos também não perdemos, uma metrópole momentaneamente mais favorável compensa uma momentaneamente desfavorável. Grosso modo é um campo em disputa. Nossa narrativa, centrada no identitarismo, na valorização da democracia e do estado de direito, na defesa dos regimes socialistas históricos e contemporâneos, no enaltecimento das sociais democracias avançadas  e na defesa da revolução socialista/comunista (se algumas chaves são contraditórias é porque estou juntando o campo progressista de esquerda em sua totalidade, abarcando os diferentes seguimentos) é permeável a setores relevantes dessas populações.

Mas vamos avaliar agora regionalmente para além das metrópoles, onde há certa homogeneização, causada pela cultura de massas internacional, e pelo modo de vida urbano replicado  em todo o mundo. Separando (repito; de forma bastante grosseira) o país por macro regiões com maior integração histórica e cultural a ponto de poderem-se perceber determinadas especificidades regionais suficientemente coesas entre si para recortarmos (e explorar discursivamente) essas populações umas das outras: A franja litorânea do norte nordeste, a grande bacia do amazonas, o sertão do nordeste e norte de Minas, a grande área de cultura caipira, pantaneira e sertaneja do centro-oeste, sudeste e norte do Paraná, a franja litorânea caiçara do sudeste até partes do sul e, finalmente, o  interior da região sul de influencia europeia e castelhana.

Temos nesse enorme conjunto, num único país, diferenças socioculturais maiores do que entre populações étnicas semelhantes que ocupam países diferentes, como os bascos da França e Espanha, por exemplo…

Por essa diversidade as chaves discursivas e slogans de nossa narrativa precisam ser pensados de forma não apenas a angariar simpatias de determinadas populações como também de não causar repulsa a outras.

Das regiões citadas anteriormente, com exceção das regiões que graças a um desenvolvimento muito acelerado e excepcional no ciclo do governo de coalizão petista de 03-16 em relação ao seu desenvolvimento histórico (sendo, portanto difícil analisar por fatores socioculturais, tendo o ganho econômico sido “avassalador”, o posicionamento político) do litoral e sertão nordestino e mineiro e parte da bacia do amazonas, todas as outras regiões e – muito notadamente – a enorme, poderosa economicamente e demograficamente pesada região de cultura caipira-sertaneja-pantaneira do centro-oeste/sudeste são Irredutivelmente refratárias aos discursos e narrativas da esquerda.

Os geniais estrategistas da extrema-direita que possuem em Jair Bolsonaro seu fantoche no Brasil analisaram com maestria a realidade e os – usando o termo da moda – afetos de tais populações.

Bolsonaro carrega forçosamente no sotaque, toca berrante, usa chapelão de caubói, bota e cinto, anda a cavalo e pilota trator para dialogar com essa grande população de cultura caipira a qual a esquerda simplesmente parece que não consegue enxergar a existência. Ganha apoio de massas e de elites regionais. Damares parece uma professora aposentada de Pindamonhangaba porém, gostemos ou não do visual dela, numa parte enorme do Brasil (e não cabe aqui o surrado termo “Brasil profundo”, não estamos falando de lugares esquecidos ou sem relevância política) desperta simpatia. Érika Malunguinho, sua antítese, horror. Sabemos que essa é uma impressão avessa e torcida da realidade em relação a essas duas mulheres políticas, mas é a impressão que existe em grande parte do Brasil.

A esquerda investe discursivamente no MST e na agricultura familiar (sim, maravilhosos, sim importantíssimos), mas aos olhos da grande massa dessas referidas regiões o MST representa (de novo) a baderna e a agricultura familiar o atraso. Se não conseguirmos ampliar ou ajustar nosso discurso para seduzir essa gigantesca fatia do Brasil… Será impossível deter a extrema-direita nos próximos anos (quiçá décadas), Bolsonaro nada sozinho e de braçada no Brasil caipira… E o que a lógica militarista da extrema-direita faz agora? Depois de dominar os territórios deles partem para o ataque do território inimigo. Tome Bolsonaro de piloto de Jegue, chapéu de couro e comendo acarajé. A estratégia é primária, mas boostada por milhões e milhões de reais, funciona.

Charge: Bacellar

Essas táticas discursivas e semióticas são a grande aposta da extrema direita para seguir operando os desejos do grande capital transnacional no Brasil. O risco é enorme. Paulo Guedes é a quintessência do cientista econômico maluco. Sabemos que o Chile, onde Guedes foi funcionário do ditador Pinochet, foi um grande laboratório para o neoliberalismo dos anos 90. Guedes agora faz experiências no Brasil… O que acontece num país sem direitos sociais, totalmente desregulamentado, escancarado ao capital estrangeiro especulativo e com suas forças políticas de oposição caladas na ponta da baioneta? Veremos. Se o laboratório explodir Guedes toma um avião pra NY e viverá por lá, muito bem obrigado, com todas as mordomias de um funcionário que prestou lucrativos serviços. Mas e o Brasil como fica?

O campo progressista não pode se dar ao luxo de não possuir um discurso unitário e claro para a população. Não podemos continuar caindo nas cascas de banana da extrema-direita. Vestindo as caricatas carapuças que nos atiram. A alt-right internacional, que direta ou indiretamente desenha todas as estratégias da extrema-direita brasileira tem análise de big data, pensadores de extrema inteligência e pouquíssimo ou nenhum limite ético e capital ilimitado a sua disposição. É um adversário de respeito. Não podemos seguir no autoengano de que estamos enfrentando um idiota que deu sorte e sua prole de patetas.

Vejam a perfeição do slogan de bolsonaro: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Curto, direto e que dialoga com brasileiros de todas as regiões, nas metrópoles, centros urbanos ou áreas rurais. Dialóga  com todos os estratos sociais e que toca em 2 chaves de entendimento básicas e sagradas para a esmagadora maioria da população brasileira: A crença em Deus e o nacionalismo. Gaucho, sertanejo, caipira, caiçara, ribeirinho, suburbano: pense em qualquer recorte, esse slogan dialoga.

Melhor que isso em termos de percepção de target e momentum só mesmo o slogan de Donald Trump em 2016: “Make America great again”. 4 palavras. 4 conceitos chave ideiais para a posição de Trump e para o eleitorado pós crise do subprime. “make”, um chamado direto à ação num país de voto facultativo em que levar o eleitor à urna é um dos pontos mais importantes da campanha, um convite ao eleitor para que faça parte de algo. “America”; um chamado ao nacionalismo. “Great”; a promessa de futuro, a recompensa da ação. “Again”; o chamado ao passado idílico (típico do fascismo), a alfinetada à administração vigente, a esperança de retorno de tempos melhores para a America arrasada pela crise econômica. Uma perfeição.

Trump e Bolsonaro uma vez no poder seguem o mesmo modus operandi de fugir do debate minimamente profundo e repetir chaves discursivas simples e populares incessantemente, mesmo quando se tratam de mentiras ou bobagens óbvias. Em condições normais de pressão e temperatura já teriam sido enquadradas em sua farsa por seus contrapesos políticos, notadamente grande imprensa e instituições jurídicas. Porem em tempos de redes sociais (abertas e fechadas) tirando o monopólio informativo do cartel da grande imprensa  (Redes estas operadas com interesses obscuros com objetivos nebulosos). E tempos onde o sistema jurídico, seja por compra direta, seja por doutrinação ideológica, seja por chantagem (ah, os dossiês, valem um texto a parte), seja por intimidação mafiosa, parece impedido de desempenhar o seu papel.

O ultra-neoliberalismo econômico casado ao totalitarismo político segue galopando. A extrema-direita e os financistas não estão de brincadeira. E nós, “campo progressista”, estamos? Delenda Washington. Campos progressistas do Mundo: Uni-vos!

Democracia ou morte!

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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