Por que comemorar o Dia das Mulheres?

Saiba a história real do 8 de Março

O Dia Internacional das Mulheres, conhecido também como “8 de Março”, é considerado uma data de resistência e luta feminista pela emancipação feminina e pela garantia dos direitos das mulheres. Mas, você sabe a origem da data? Conheça mais sobre a história do “8 de Março”.
Fonte: As Origens do Dia Internacional das Mulheres de Ana Isabel Álvarez Gonzáles
Texto:Fernanda Maria Caldeira
Fotos: Isis Medeiros

Vamos entender melhor o que aconteceu naquela época?

Muitas pessoas acreditam que as comemorações do dia das mulheres se iniciou em homenagem às trabalhadoras que morreram em um incêndio numa fábrica dos Estados Unidos. Mas, na verdade esse é um dos maiores mitos difundidos na história.

De fato, houve um incêndio em uma fábrica têxtil; a Triangle shirtwaist Company, em Nova York no dia 25 de março de 1911, onde 146 operárias/os foram mortos/as, sendo a brutal maioria de mulheres. No entanto, o Dia da Mulher – Woman Day’s – já era comemorado nos EUA desde 1908, no último domingo de fevereiro – três anos antes do famoso incêndio.

No final do Século 19 e início do Século 20 efervesciam as discussões e mobilizações sobre o Sufrágio feminino. Nessa época, as mulheres ainda não tinham uma série de direitos como o de estudar, de trabalhar e ter igual salário, de se divorciar, e também o direito político de votar. Esse período de intensa organização feminina por direitos com foco na luta pelo sufrágio, é conhecido na história como a 1ª onda do feminismo.

Geralmente, quando pesquisamos sobre a 1ª onda, os olhares se voltam às movimentações que ocorreram nos EUA e Inglaterra. Todavia, na Alemanha existia um poderoso movimento de mulheres trabalhadoras, desenvolvido a partir da forte organização das lutas operárias apoiadas por sindicatos e pelo Partido Social-Democrata (PSD), de orientação socialista, o único que reivindicava em seu programa a luta das mulheres.

A frente do movimento estava Clara Zetkin. Clara se tornou uma excelente oradora, muitas vezes subiu em tribunas para falar à uma plateia hegemonizada por homens, confrontando a noção do papel das mulheres naquela época. Ficou conhecida internacionalmente pela sua atuação no Congresso da Segunda Internacional (ou Internacional Socialista) em 1889, onde foi uma das 8 mulheres delgadas dos 400 que se somavam de 19 países. Sua ação ao longo dos anos seguintes, foi organizar as mulheres para torna-las fortes e conquistar direitos para transformar a sociedade através de uma revolução, abolindo as classes sociais e a opressão das mulheres.

Em 1910, aconteceu em Copenhague a 2ª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas. Nos debates, Clara Zetkin propôs organizar a celebração de um Dia Internacional das Mulheres, inspirado no “ Woman’s Day ” Americano. É importante dizer que o Dia da Mulher passou a ser comemorado nos EUA a partir de 1908, após uma resolução da Segunda Internacional (proposta pela própria Clara Zetkin no Congresso de 1907), segundo a qual todos os partidos socialistas membros deveriam promover em seus países um dia de reivindicação do direito de voto das mulheres.

O Woman’s Day foi um sucesso, sobretudo em 1910 na cidade de Nova York, devido à greve geral de 13 semanas do setor têxtil, conhecido como “O Levante das 20 mil”. Resistindo aos empresários, policiais e juízes, a greve reivindicava melhores condições de trabalho e melhores salários. A greve se encerrou 12 dias antes das comemorações do Dia da Mulher (todo último domingo de fevereiro), e contou com a participação das operárias grevistas da fábrica Triangle Shirtwaist Company, dando o caráter da classe trabalhadora às reivindicações pelo direito do Sufrágio Universal. Um ano depois, no dia 25 de março, a maioria delas foram mortas no incêndio, por imprudência dos patrões que trancavam os portões das saídas de emergência para evitar furtos por parte das trabalhadoras.

Por fim, devido ao êxito das comemorações americanas e da deliberação do congresso das mulheres, internacionalizou-se o “Women’s Day“ – Dia das Mulheres -, no plural, abarcando as diversas nacionalidades das mulheres trabalhadoras. Portanto, foi definido que haveria um dia específico para a reivindicação das mulheres, embora não tenha sido definido o dia exato para as celebrações.

Então porque 8 de março?

Se na Alemanha Clara Zetkin tinha papel fundamental na organização das mulheres trabalhadoras, na Rússia era Alexandra Kollontai quem estava à frente do movimento. Alexandra iniciou sua vida política ao participar dos protestos que culminaram no episódio conhecido “Domingo Sangrento” de 1905, quando o Tsar mandou matar a população que se manifestava. Kollontai, começou a frequentar círculos de estudos marxistas em São Petersburgo, onde conheceu a camarada Nádia Krupskaya – que posteriormente veio a ser a primeira mulher que escreveu uma obra marxista sobre as questões das mulheres na Rússia. As duas se integraram ao Partido Social-Democrata Russo e posteriormente foram para a ala Bolchevique, onde desenvolveram um vasto trabalho com as operárias e camponesas.

Foto: Isis Medeiros | Nádia Krupskaya, interpretada por Ana Júlia para o projeto Mulheres Cabulosas da História.

Kollontai era integrante do Secretariado Internacional de Mulheres junto a sua parceira e amiga, a alemã Clara Zetkin, ao lado da qual, na 2ª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, defendeu a necessidade do Dia Internacional das Mulheres. No entanto, as comemorações não ocorreram na Rússia até 1913, quando foi organizado um encontro no edifício da bolsa de São Petersburgo, no dia 23 de fevereiro do antigo calendário Russo – 8 de março, no calendário ocidental. No mesmo dia, atividades da luta das mulheres aconteceram em outras cidades como Kiev, Samara e Tíflis. Mas os encontros foram dissolvidos pela polícia do Tsar, pois na época eram proibidos encontros com a participação das mulheres.

Nos anos seguintes, impulsionado pelo Partido Bolchevique, o dia 23 de fevereiro (no calendário Russo/Juliano) foi comemorado na Rússia como Dia Internacional da Mulher. Em 1916, apesar de ter sido uma comemoração mais discreta, o Dia da Mulher foi dedicado a protestar contra a Primeira Guerra Mundial. Um ano depois, o dia 23 de fevereiro deu início ao que o mundo veio a conhecer como Revolução Russa. De acordo a historiadora Ana Isabel Ávarez Gonzáles;

“ Segundo todas as fontes, os fatos começaram no dia anterior, quando os operários da fábrica de armamentos de Putilov a encontraram fechada no momento em que tentaram entrar para começar sua jornada de trabalho. As mulheres de Petrogado, que tinham se convertido em chefes de família enquanto os homens estavam na frente de guerra, cansadas da escassez e dos altos preços dos alimentos, saíram às ruas”.

Ao longo do protesto, as donas de casa que ficavam por horas nas filas para buscar o pão se uniram as operárias, e no dia seguinte somaram 190 mil mulheres que cantavam a palavra de ordem: “Pão! Nossos filhos estão morrendo de fome!”. O motim iniciado pelas operárias no dia 23 de fevereiro de 1917 impulsionou grandes manifestações nos dias seguintes, que culminaram na derrubada do Tsar e colocaram em marcha o processo revolucionário de tomada do poder pelas trabalhadoras e trabalhadores, em outubro do mesmo ano, sintetizado no mote “Todo poder aos sovietes”.Após a conquista do poder, em 1919 foi fundado a Terceira Internacional Comunista (ou Komintern), e seu congresso foi realizado em Moscou, contando com a participação de 82 delegadas vindas de 21 países diferentes. Em conjunto ocorreu a 1ª Conferência Internacional de Mulheres Comunistas. Na conferência foi apresentada uma resolução com a proposta de celebrar oficialmente o Dia Internacional das Mulheres no dia 8 de março, em memória ao 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário russo), motivado pelo papel que mulheres russas tiveram na revolução.

 
Nas palavras de Alexandra Kollontai, que se tornou Ministra e a 1ª mulher no mundo a ser embaixadora:
“O Dia das Mulheres de 1917 tornou-se memorável na história. Nesse dia as mulheres russas ergueram a tocha da revolução proletária e incendiaram todo o mundo. A revolução de fevereiro se iniciou a partir desse dia.”O 8 de março na Rússia (23 de fevereiro de 1917 no calendário juliano) marca o início do processo revolucionário impulsionado pelas mulheres, ao mesmo tempo era a data que as Russas celebravam o Dia das Mulheres Trabalhadoras.
Essa data tão simbólica para a vida das mulheres foi estabelecida para que a comemoração do Dia Internacional das Mulheres fixasse no 8 de março em todo o mundo.
“As imagens foram retiradas do livro “Mulher, Estado e Revolução” de Wendy Goldman”

Visualizando histórias

Foto: Isis Medeiros | Clara Zetkin, interpretada por Beatriz Simas.

Foto: Isis Medeiros |Rosa Luxemburgo, interpretada por Andressa Pestilli.

Foto: Isis Medeiros  | Alexandra Kollontai, interpretada por Letícia Proença.

Conhecer a história do Dia das Mulheres, é tão importante quanto conhecer a história delas. Desde 2016, o projeto fotográfico “Mulheres Cabulosas da História”, idealizado pelas mulheres do Levante Popular da Juventude, vem resgatando através da fotografia nomes e histórias de mulheres que foram importantes, mas são ignoradas historicamente nas páginas da história. Clara Zetkin, Alexandra Kollontai e Rosa Luxemburgo são alguns dos nomes retratados pelos projeto, que agora em 2018 vira um livro de 100 mulheres.

Acompanhe o projeto no facebook e no instagram @mulherescabulosasdahistoria!

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