Polícia Militar de Belo Horizonte agride e ameaça pessoas que participavam de festival de fanfarras

A ação covarde da PM aconteceu na noite do dia 27, após o Festival Honk

O relato a seguir é de um dos agredidos pela Polícia Militar de Minas Gerais.

O vídeo acima aconteceu em Belo Horizonte, na sexta-feira dia 27 de setembro de 2019, no festival de fanfarras Honk. Eu sou o rapaz alto, magro, com o sax na mão e gorro do Lula Molusco. Ao terminar esse vídeo, o mesmo policial (Marconi Ramos) que bate no rapaz que filmava, bateu com seu cacetete na minha namorada e em seguida durante quase cem metros desferiu porrada atrás de porrada machucando todo o meu braço direito e quebrando meu instrumento (sax alto).

Nem tudo são flores ou espingardas, algumas coisas são apenas nossas. Tocar na rua é algo muito importante no equilíbrio da minha vida, que se divide entre o serviço público federal, pesquisa acadêmica em economia e a música amadora de rua. Esse meu lado mais brasileiro, por assim dizer, o da rua, é uma mistura de Corisco, o vingador de Lampião, Lula Molusco, o amigo de Bob Esponja, e Macunaíma. Já realizei cortejos, com este mesmo sax, agora ferido, nas ruas de Kazan – Rússia, antes e depois da seleção brasileira ser desclassificada pelos belgas, frente uma das polícias mais opressoras do mundo e na capital dos tártaros, cultura famosa pela via de fato (soco na cara). Nunca, jamais, nem de longe fui agredido ou até mesmo insultado enquanto tocava.  Interrompido, algumas vezes, tocando no carnaval do Rio ou em Olinda ou nos cortejos que realizamos nos encontro da arte nas ruas pelo Brasil.

Do caos a lama: pegar um avião numa sexta feira abarrotada para tocar na capital mineira, encontrar grandes amigos de passados e futuros carnavais, fazer uma bela apresentação, tomar bomba de gás e spray de pimenta… opa pera lá! O primeiro choque foi quando uma pessoa muito amada e querida foi brutalmente atacada pelo policial (supracitado) com o bastão, levando-a ao chão. Eu já estava a correr, vaza que o bicho pegou, mas quando vi aquela cena inaceitável, violência gratuita, lá no fundo todo mundo sabe que deve voltar e ajudar. A indignação tomou conta de todos que viram, alguns mais exaltados, até passaram a confrontar a polícia com gritos, natural, o fato era grave, a vida e a dignidade estavam em risco e iria piorar…

Corisco Molusco dos Santos, o saco de pancadas: para, por favor, para de me bater! Eu não sou daqui, estou com minha namorada, estava tocando! Para, por favor. Veja bem, estou fantasiado, sou servidor público (não parecia mas era gente); “você é servidor? Agora vai apanhar mais!”; pelo amor me prende, pega meu documento mas me deixa em paz.

Macunaíma: me deixou em paz, nem sequer pegou meu documento, quebrou meu querido sax. Nem sequer sabe meu nome, talvez nem sequer me viu. Olhava com um olho tão fundo e negro que eu jurava que não devia me ver. Em alguns momentos de súplica, ele parava para respirar, acreditava que poderia ter tomado consciência, em seguida voltava a deferir porradas. Sobrevivi, com muitas sequelas insuperáveis.

Primeira sequela, qual sentido econômico de tudo isso? Estava consumindo, aluguei um quarto de hotel em Belo Horizonte, estava tocando, levando música, arte e cultura de graça para a cidade de Belo Horizonte. Por outro lado, a polícia militar deslocou um efetivo imenso, uma grana preta em horas de trabalho por policial, jogou bombas de gás que são caras, spray de pimenta, destruíram instrumentos musicais, causaram lesões físicas. Quem ganhou com isso, economicamente falando? APENAS A INDÚSTRIA ARMAMENTISTA, que produz bomba de gás, spray de pimenta, bala de borracha, pois caso contrário não seria necessário todo esse equipamento. Quem perdeu: todos, principalmente os cidadãos diretamente prejudicados e o Estado de Minas Gerais que  atravessa uma crise fiscal inacreditável e gastou pagando o salário de todos os trabalhadores, pagou todas as bombas e recursos usados e ainda pode pagar pelas ações civis de danos morais e materiais.  

Segunda sequela, quando um criminoso rouba, bate, derruba a si ou  um amigo seu, ou você apenas presencia o fato, o sentimento é muito claro e simples, você tenta se defender, defender os outros, tem o direito de legítima defesa. No entanto, quando um policial desviando de sua conduta e dever bate, derruba, agride, até mesmo rouba ou suborna? O que fazer? Como proteger e garantir a nossa vida e dignidade?

Não sei responder essas perguntas. Ao contrário das dores físicas que paulatinamente se apequenam e amenizam, a sequela 1 e 2 crescem como um rabo de foguete, alimentada por todo ódio social da polarização pós 2013 e o atual discurso de excludente de ilicitude policial. Parem de nos bater, parem de nos matar.  “

Pedro Navarrete ou Nem Corisco dos Santos Macunaima

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