Podemos —  Ação nas ruas e nas redes pela democracia plena e contra os golpes financeiros internacionais

por Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá — www.mediaquatro.com — especial para os Jornalistas Livres

por Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá — www.mediaquatro.com — especial para os Jornalistas Livres

O modelo atual das democracias representativas está em cheque. Em vários países, os partidos tradicionais entregaram o poder real ao sistema financeiro internacional. O exemplo mais gritante dessa realidade é a Grécia, onde a Troika (título dado à entidade, sem existência legal e nem submissão a qualquer legislação internacional, formada pelo Fundo Monetário, Banco Central Europeu e Comissão Europeia) acaba de obrigar o atual governo a aceitar um novo acordo recessivo mesmo com a oposição clara da população firmada por um plebiscito. Mas não é o único. Os povos da Espanha, Portugal, Irlanda e também Brasil ouvem diariamente, em quase todos os meios de comunicação, a ladainha de que não existe alternativa à política de austeridade e recessão que leva ao aumento do desemprego, da desigualdade social, da violência e dos lucros dos bancos. “O Podemos, um partido político nascido dos movimentos sociais e da resistência democrática popular à Troika, surgiu do grito: Sí, se puede”, explica Rafael Mayoral, advogado e secretário de relações com a sociedade civil e os movimentos sociais do partido.

“Lutamos contra a cultura do medo, da desesperança e do pensamento e discurso único de que não é possível fazer as coisas de outra maneira”

Em visita de quatro dias ao Brasil, Mayoral deu essa semana uma coletiva de imprensa no Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Paulo. E como não podia deixar de ser, a imprensa foi um dos focos da conversa. “A hegemonia da mídia é inquestionável. A TV estatal tem perdido audiência porque tem uma baixa qualidade e basicamente transmite a mensagem do Partido Popular. Já na imprensa escrita, há uma posição muito próxima do regime, mas temos de reconhecer o trabalho de alguns jornalistas que tentam fazer com que a informação chegue apesar das diferentes linhas editorias. Os meios audiovisuais são monopolizados por um par de grupos econômicos”, explica. “Nós enfrentamos essa situação afetando a realidade e ao mesmo tempo tentando modifica-la. Outra coisa importante é que as empresas privadas precisam vender seu produto e num momento de crise social o discurso político vende, porque as pessoas estão procurando referências políticas. É aí que conseguimos alguma penetração. É como um “cavalo de Troia”. Eles são obrigados a falar de nós, não necessariamente bem. De qualquer forma, cada vez mais falam de nossas propostas. Mas entendemos que temos uma necessidade de impulsionar uma maior democratização dos meios públicos que hoje são pequenos por causa de imposições legais, com mecanismos que garantam a pluralidade de ideias e participação social”.

O Podemos, contudo, não se limita aos meios tradicionais. “Utilizamos todas as forma de comunicação que podemos, mesmo ferramentas como Twitter e Facebook, que não foram pensadas para comunicação política. Em 2008, por exemplo, convocamos uma eleição por SMS”, diz Mayoral. “O que fazemos é uma reapropriação dessas redes pelo povo. Apostamos muito também na transmissão de vídeos por streaming (ao vivo via internet) para conseguirmos, em assembleias decisórias sobre a organização do partido, a participação no pico de 50 a 60 mil pessoas”. As redes digitais também são essencial para a estratégia de financiamento do Podemos, concentrada em microcréditos e Crowdfunding (exatamente como os Jornalistas Livres). “Todos os partidos espanhóis possuem dívidas enormes com os bancos e portanto não podem agir contra seus interesses”, afirma. “Procuramos sempre formas de participação política direta, numa alternativa ao regime. É por isso também que temos uma grande preocupação com o acesso e a neutralidade da Internet”.

“É um escândalo a Lei da Mordaça e os primeiros que deveriam se revoltar contra isso são os jornalistas, que podem sofrer graves punições por seu trabalho de cobertura”

Filho das grandes manifestações dos Indignados e do chamado 15M, de 15 de maio de 2011, o Podemos segue apoiando-se num diálogo permanente com os movimentos sociais e com um pé nas ruas. “Quem quiser entender, que entenda. Não estamos nem à direita nem à esquerda. Viemos de baixo. O ator que devemos construir não é um partido, mas o próprio povo, para que as pessoas consigam assegurar seus direitos humanos, sociais, financeiros. Isso só é possível conversando sempre com todos os movimentos sociais, sejam sindicais, por moradia, aposentados etc. O objetivo não é construir um programa do Podemos, mas um programa da maioria da população. Por isso, apesar de podermos indicar todos os candidatos de nossas listas de votação, incluímos muitos nomes que não fazem parte do partido”, explica Mayoral. “Nesse sentido, é um escândalo a Lei da Mordaça, que proíbe reuniões políticas nas ruas com mais de 20 pessoas e os primeiros que deveriam se revoltar contra isso são os jornalistas, que podem sofrer graves punições por seu trabalho de cobertura. O objetivo é paralisar os movimentos sociais pelo medo de sanções. Mas continuamos nas ruas e temos conseguido vitórias contra as sanções nos tribunais. Lutando contra o medo e a paralisia”.

O Podemos não pretende, também, ser modelo para nenhum partido ou movimento. E da mesma forma não se espelha em paradigmas europeus datados ou novos sul-americanos. Apenas observa e tenta aprender com as experiências dos demais e se solidariza com as lutas dos povos. “Assim como nós, a Irlanda e Portugal, a Grécia, por exemplo, faz parte de um sul político sob achaque. O que está sendo imposto aos gregos é uma violação dos direitos humanos. Temos de recuperar nossa soberania e nossa democracia. Assim, temos de reconhecer que a Grécia rompeu o consenso midiático e político europeu perguntando ao povo o que ele queria. Com isso, derrubou a falsa máscara de interesse pelo desenvolvimento da Troika, mas saiu derrotada na guerra do terrorismo econômico”, analisa.

“Eles foram derrotados porque não tiveram apoio de nenhum dos governos europeus vendidos aos bancos e à Alemanha e porque não tinham um plano factível. Contudo, acho tremendamente injustas as críticas, principalmente dos partidos de esquerda que não combateram a Troika, a quem lutou com tudo que pode e perdeu. Na Espanha, em 2011, a Troika promoveu um verdadeiro golpe de Estado financeiro, impondo uma modificação constitucional que impedia qualquer gasto social até o pagamento da dívida e o bipartidismo que dominava o país apoiou esse golpe, nos transformando em colônia e raptando nossa soberania”. Com o fim da hipocrisia econômica da falsa democracia, Mayoral acredita hoje tudo é possível na Espanha. “Estamos sofrendo todo tipo de pressão, mas vamos lutar até o fim para vencer. Tudo está mudando!”

Veja aqui a íntegra da coletiva, transmitida pela Pós-TV.

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