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Pochmann defende convergência da esquerda que inviabilize projeto neoliberal

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Por Paula Zarth Padilha, com fotos de Leandro Taques

O economista Marcio Pochmann, professor da Unicamp e presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) de 2007 a 2012, esteve em Curitiba nos dias 17 e 18 de março e concedeu entrevista ao Terra Sem Males e aos Jornalistas Livres. Ele falou sobre a necessidade de um caminho de convergência necessário para a esquerda diante do cenário atual de retrocessos.

Pochmann alerta para a possibilidade de não ocorrerem eleições em 2018 e questiona: a quem interessa a destruição das empreiteiras, da exploração do petróleo e gás e da indústria de alimentos, que eram redutos brasileiros que ainda não tinham sido ocupados por empresas estrangeiras?

Para ele, Dilma caiu porque promoveu a recessão e porque seu governo foi enfraquecido politicamente por uma sequência de erros, ao mesmo tempo em que a direita se fortaleceu com o resultado apertado das eleições presidenciais de 2014.

Confira:

Historicamente, os economistas defendem que os ciclos de crise do capitalismo levam a caminhos de retomada, e que estaríamos na terceira grande crise do capitalismo mundial. Que caminhos possíveis de retomada existem atualmente na conjuntura brasileira?

Marcio Pochmann: Primeiro reconhecer que há caminhos. Agora, qualquer caminho serve quando você não sabe onde quer ir. Nosso problema é que não conseguimos ter uma maioria que tenha uma direção para onde ir. Então qualquer caminho pode servir, até porque esse retrocesso que estamos vivendo agora poderá ser muito satisfatório para criar uma nova convergência.

O projeto neoliberal foi interrompido a partir de 2003, mas ficou sempre sendo colocado que o Brasil teria dificuldades de se desenvolver sem ter completado o projeto neoliberal. Se a gente não tivesse tido o governo do presidente Lula, possivelmente as reformas (privatistas) estariam sendo já inauguradas. Privatizações como a do Banco do Brasil e da Petrobrás, entre outras, poderiam ter sido consagradas. Então houve uma interrupção e agora nós estamos tendo de uma forma muito contundente a retomada dessas reformas, cujos resultados estão muito evidentes, levando várias pessoas a se posicionarem com postura muito mais crítica com relação a essas reformas.

Vejo como uma possibilidade a gente recuperar o terreno perdido a partir de uma derrota desse projeto neoliberal dado a circunstância que ele coloca que não oferece futuro. A não ser, notícias piores para as pessoas. Se houver essa capacidade de criar essa maioria, essa convergência sob o ponto de vista da esquerda, que inviabilize por muito tempo esse projeto neoliberal. O jogo não terminou, o que está acontecendo no Brasil pode ser uma página virada, depende de nossa capacidade de responder, de não ficarmos no lamento.

Temos posições muito interessantes do que ocorreu na semana passada (manifestações do 15 de março). Essa mobilização nacional que não se deu apenas num estado ou numa cidade, foi algo bastante importante da capacidade que nós temos de reagir. Então eu vejo como um momento que não tem nada definitivo.

O importante é ter um projeto de unidade para a gente seguir executando os próximos passos. A dificuldade é não ter um projeto para onde a gente quer ir. A não ser lembrar que nós éramos melhores anteriormente, mas isso é insuficiente. Porque senão o Brasil pode ser um país que tenha como futuro um grande passado. E temos que ter como futuro o novo que precisa ser construído.

Foto: Leandro Taques

Essa reação popular pode despertar no governo a inviabilização da eleição em 2018?

Marcio Pochmann: O jogo está sendo jogado. É obvio que eles não querer e vão fazer de tudo o possível para evitar qualquer retorno de um governo que seja diferente desse daí. E a força de Temer é ao mesmo tempo sua própria fraqueza. O que dá ao Temer uma pujança em termos de base de apoio no legislativo é justamente porque ele segue oferecendo para grande parte dos parlamentares uma segurança em relação ao avanço das operações da Lava Jato. À medida que a Lava Jato continue prosseguindo, Temer deve perder o apoio. Então ele tem que oferecer a inviabilização da exposição da corrupção que consome parte importante dos parlamentares, tanto no Senado quanto na Câmara.

A mesma coisa está relacionada à base que ele tem do ponto de vista do capital, dos empresários, dos meios de comunicação. Ele tem uma base de apoio enquanto ele oferecer indicação de que tem capacidade de fazer reformas que são de interesse desses setores. Se eles não conseguirem fazer essas reformas, ele perde esse apoio.  Temer está lá para fazer as reformas, se ele não fizer, ele cai.

À medida em que a população tem uma reação contundente a essas reformas, torna mais difícil o governo Temer. E uma solução não democrática é uma possibilidade. Mas eu tenho dúvida. Temos que entender que a democracia no Brasil sempre é uma exceção, nunca uma regra, o Brasil acumulou períodos autoritários. Temos 500 anos de história e mal temos 50 de período democrático. E essa experiência que estamos vivendo de 1985 para cá é a mais longeva.

Ao que parece nós acumulamos alguma institucionalidade para evitar mais uma medida drástica, mas ela não é impossível de ocorrer, que nós tenhamos penalidades muito maiores com relação à democracia, até mesmo de não ocorrer as eleições de 2018.

Podemos estar vivendo, guardadas as devidas proporções, algo parecido com o que ocorreu em 1964. Vários democratas apoiaram o golpe. Não foi só a imprensa ou os empresários. Juscelino Kubistchek apoiou o golpe, Ulisses Guimarães apoiou o golpe, entre outros. Porque era de certa maneira oportuno para eles apoiar o golpe. Houve um apoio de democratas ao golpe de 1964, na expectativa de que houvesse um processo pontual e quem em 1966 as eleições voltassem a ser realizadas e aí que daria chance a esses nomes que pleiteavam o governo. Mas em 1966 não teve eleição.

Foto: Leandro Taques

Você acredita que o golpe de 2016 poderia ter sido evitado?

Marcio Pochmann: A tentativa de interromper ou inviabilizar o governo de esquerda no Brasil já ocorre desde 2003. Eu acredito que a razão do golpe se viabilizar foi a perda da base política da presidenta Dilma. E ela perdeu essa base política quando optou pela recessão. O que significa dizer que se não tivéssemos tido recessão, talvez não tivesse tido o golpe.

O golpe é uma tentativa de tirar o PT do governo. Acontece que a direita fez uma operação de alto risco. Eles se deram conta que com a vitória apertada de 2014, depois de Dilma viria o Lula, que ficaria mais oito anos, e eles não teriam mais oportunidade de ser governo e de aplicar as medidas neoliberais. Eles tentaram em todas as eleições o receituário neoliberal e a população não aceitou. Então a única possibilidade deles era o terceiro turno.

Eles mudaram a postura. Não aceitaram o resultado, questionaram o resultado no Tribunal Superior Eleitoral, alegaram que tinha problemas na contagem de votos, mobilizaram as massas. Quem desmobilizou foi quem ganhou a eleição. Achando que o outro lado ia aceitar o resultado e ele não aceitou o resultado. Então o golpe já começou a ser pleiteado a partir do resultado eleitoral.

Vários erros políticos foram feitos pelo governo, como a presidência da Câmara. Então isso culminou (no golpe). Quando (Dilma) enfraqueceu e perdeu base, eles aproveitaram a oportunidade. Ter colocado Michel Temer como ministro de relações institucionais também foi outro erro. Ela fez o presidente do PMDB perceber a fragilidade da base (de apoio ao governo) e ele reorganizou aquela base e ele mesmo assumiu o governo. O problema é que o governo se fragilizou quando eles se fortaleceram. Então, o golpe poderia ter sido evitado. Assim como podemos sair do golpe muito melhores do que entramos.

Foto: Leandro Taques

Qual sua avaliação das operações que afetaram primeiro as empreiteiras e agora os frigoríficos?

Marcio Pochmann: As instituições devem exercer as atividades para a qual foram constituídas e dentro dessas atividades é coibir o mau uso do recurso público então eu acredito que estão na função necessária a elas. O que eu gostaria de ressaltar é que parece que essas instituições não estão sabendo diferenciar o mau uso do recurso público feito por pessoas, por decisões pessoais nas instituições as quais elas fazem parte. E num momento de acirramento da competição das grandes empresas no mundo, é bastante estranho que justamente nos setores que o Brasil teve protagonismo mundial, que são os setores de petróleo e gás, fundamentalmente através da Petrobrás, as grandes empreiteiras brasileiras que têm papel gigantesco na construção da engenharia nacional e na sua presença fora do Brasil, são competidores em obras públicas em outros países, praticamente na América Latina toda essas empresas tinham alguma presença.

E agora a questão dos frigoríficos que é outro setor que o Brasil domina já há algum tempo, então é estranho que esses setores estão sendo objeto de averiguação e constatação de mau uso de recurso público, misturando pessoas com a empresa.

Temos vários casos de situações parecidas ocorridas em outros países, um dos exemplos é a Volkswagen que manipulou regras de produção de automóvel, ela foi autuada, os dirigentes foram penalizados, mas a empresa segue sua tarefa.

O que está ocorrendo no Brasil é que ao se misturar instituição com personalidade, nós estamos na verdade destruindo a engenharia nacional, destruindo o setor de petróleo e gás, e agora vamos averiguar o que vai acontecer com os frigoríficos, isso vai retirando as poucas possibilidades que o Brasil teria de seguir atuando interna e externamente. Obviamente esse vazio deixado pelo petróleo e gás está sendo ocupado hoje por empresas estrangeiras. As empreiteiras nacionais se tornaram inviáveis, estão tendo que se desfazer de seus ativos e até mesmo vender parte do que possuem para empresas estrangeiras. E não sabemos o que vai acontecer com o setor de frigoríficos mas temos que questionar até que ponto esse papel sério de investigar o uso do recurso público deve ser feito dessa maneira que parece equivocada quando não separa pessoas de instituições. O que está ocorrendo no Brasil é uma destruição das empresas nacionais.

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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