PAULO FREIRE ERA DE ESQUERDA

Paulo Freire continuará gigante, imenso, com o prestígio intocado, e todos os ataques que sofre serão apenas mais um dado que enobrece sua já extensa biografia

ARTIGO

ALEXANDRE SANTOS DE MORAES, professor do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense

O governo Bolsonaro é ambicioso na escolha de seus inimigos. Arriscaria dizer que é culpa da inocência, mas não posso negar a ignorância ou a absoluta falta de opção. Prova disso foi ter escolhido Paulo Freire como adversário. Os ataques são compreensíveis e coerentes, já que o Patrono da Educação Brasileira foi o perfeito oposto de tudo aquilo que eles são ou poderão ser: inteligente, trabalhador, humanista e mundialmente prestigiado. Não menos importante, Paulo Freire foi de esquerda e sempre defendeu a democracia. Essas duas variáveis não são acidentes do destino ou feliz coincidência pra quem luta contra o autoritarismo e a ganância, mas o alicerce de toda sua genialidade. Nesse 15 de outubro, dia das Professoras e Professores, é fundamental recordá-lo como homenagem e como símbolo de luta contra o atraso.

            Ao longo de sua vida, Paulo Freire escreveu dezenas de livros e artigos. Trata-se do intelectual brasileiro mais lido e conhecido da história. Sua principal obra, a Pedagogia do Oprimido, é a terceira mais citada nas Ciências Humanas do mundo, superando clássicos como Vigiar e Punir, de Michel Foucault, e O Capital, de Karl Marx. A inteligência de Freire rendeu inúmeras homenagens e prêmios no Brasil, Europa, África e Estados Unidos: foram pelo menos 35 títulos de Doutor Honoris Causa ao longo de sua vida ou in memoriam. Foi filiado ao Partido dos Trabalhadores e atuou como Secretário de Educação de Luíza Erundina durante seu mandato na Prefeitura de São Paulo (1989-1991). Dedicou-se, sobretudo, à alfabetização, sempre atento à necessidade de ensinar a ler não só a língua, mas também o mundo. Além de refletir a respeito, Freire praticou a Educação, pois a prática é o critério da verdade. 

            A paranoia obscurantista que tenta a todo custo demonizar seu legado intelectual só pode ser explicada pelos seus próprios textos. Contra o ódio daqueles que defendem, por exemplo, o projeto Escola sem Partido, Paulo Freire responde que ensinar exige respeito à liberdade do ser do educando: “O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”. Contra a lógica cada vez mais perniciosa de uma educação técnica, voltada exclusivamente para a formação de mão de obra, Freire defendia uma pedagogia humanista, que ensinasse não apenas conteúdos, mas a pensar o lugar que cada um de nós ocupa no mundo: “Percebe-se, assim, a importância do papel do educador, o mérito da paz com que viva a certeza de que faz parte de sua tarefa docente não apenas ensinar os conteúdos mas também ensinar a pensar certo”.

            Contra o que chamava de “educação bancária”, que sepulta a criatividade de educandos e educadores, Paulo Freire defendia a necessidade de manter vivo nos estudantes o gosto da rebeldia, que aguça a curiosidade e estimula a capacidade de se arriscar e se aventurar.

            Outra grande lição de Paulo Freire, seguida por milhares de profissionais do magistério hoje homenageados, é que a Educação não é um processo unilateral, verticalizado, ao gosto daquilo que militares gostariam de ver em escolas militarizadas. Ensinar e aprender são anverso e reverso da mesma moeda: aprendemos enquanto ensinamos e ensinamos enquanto aprendemos. Os estudantes não são, na pedagogia de Freire, objetos passivos que devem se subordinar com disciplina aos professores e ao mundo. Mas, sobretudo, Freire sempre defendeu uma educação popular, emancipadora, que fosse capaz de libertar simultaneamente o oprimido e o opressor, capaz de recuperar a liberdade deles roubada e a humanidade que um mundo centrado na lógica da acumulação e na manutenção das desigualdades insiste em recusar. Por isso Paulo Freire foi de esquerda, como todos aqueles que prezam pela autonomia e que lutam contra as opressões.

            Vê-se com clareza a inocente ambição de Bolsonaro e seus ministros da Educação. Em breve, eles passarão. O futuro lhes reserva apenas a nota de rodapé da História. Paulo Freire, por sua vez, continuará gigante, imenso, com o prestígio intocado, e todos os ataques que sofre serão apenas mais um dado que enobrece sua já extensa biografia. O mesmo vale para nós, professores e professoras que seguimos conscientes da necessidade de educar para a liberdade e democracia, contra tudo e contra todos, sempre amparados no imperativo ético que nos fez escolher e permanecer nessa profissão cada vez mais difícil.

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