O povo é um intruso no Parque do Povo

Por Paulo Henrique Fernandes Silveira (USP), especial para os Jornalistas Livres

Quem fizer uma pesquisa na internet à procura de imagens do Parque do Povo, um parque da prefeitura de São Paulo localizado no bairro do Itaim Bibi, uma região nobre de escritórios, comércio e residências da cidade, encontrará fotos de ciclistas, skatistas, corredores, crianças se divertindo nos brinquedos, cachorros correndo pelos gramados, pessoas praticando yoga e propagandas em inglês de academias particulares de ginástica que atendem seus clientes naquele espaço. No entanto, terá dificuldade de encontrar alguma foto das centenas de trabalhadoras e trabalhadores que diariamente tentam atravessar o parque em direção aos pontos de ônibus ou à estação de trem.

Portão fecham cinco horas antes do restante do parque, para dificultar acesso de trabalhadores que saem do serviço

O transporte público liga a região nobre do parque às periferias, onde reside a maior parte das pessoas que trabalham no seu entorno. Mesmo os que não trabalham no bairro, precisam atravessar ou circundar o parque para fazer a baldeação entre os ônibus e os trens. Um dos portões que lhes permitiriam fazer a travessia é fechado às 17 horas, cinco horas antes do parque encerrar suas atividades. Durante a semana, o gramado principal, que oferece o trajeto mais belo e curto entre os pontos de ônibus e a estação de trem, ganha uma cerca móvel que impede a passagem das pessoas. Nos fins de semana e feriados, quando o parque é frequentado prioritariamente pelos moradores da região, a cerca é retirada.

As trabalhadoras e trabalhadores não são impedidos de entrar no parque pelo portão principal, tampouco são impedidos de atravessá-lo em direção à estação de trem pelos caminhos pavimentados. No entanto, o portão fechado, justamente, no horário de maior movimento da estação e as cercas móveis do gramado principal parecem indicar que eles são tomados como intrusos naquele espaço público, parecem indicar que o povo é tomado como um intruso no Parque do Povo.

Tendo sido criado nos anos 30, o Parque do Povo já foi um espaço mais popular (SCIFONI, 2013). Como em outros lugares da cidade, o parque possuía vários campos de futebol de várzea, administrados por diferentes clubes e agremiações. Após as obras de retificação (1938-1958), o parque passou da margem esquerda à margem direita do Rio Pinheiros. Encostadas ao parque surgiram algumas favelas. Os clubes ofereciam escolinhas de futebol, tanto para os meninos que moravam nessas favelas, quanto para os que moravam nos prédios luxuosos do bairro.

Com o processo de redemocratização, os prefeitos da cidade assumiram posições muito diferentes a respeito das favelas e do parque. Na prefeitura de Mário Covas (1983-1985), o secretário da cultura e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri autorizou a instalação no parque do Circo-Escola Picadeiro e do Teatro Vento Forte (ABREU, 2009). Além de formarem inúmeros artistas e professores, e de estimular a criação de várias companhias, o circo e o teatro também desenvolveram escolas para as crianças das favelas da região (CALVINATO, 2003). Em 1987, numa parceria com o governo do Estado, o Circo-Escola Picadeiro ajudou a criar o Projeto Enturmando, que levou escolas de circo para diversas comunidades da periferia (MATHEUS, 2016).

Na prefeitura de Jânio Quadros (1986-1988), colocou-se em prática um plano de “desfavelamento” que, ao fim e ao cabo, apenas promoveu a remoção de algumas favelas que ficavam na região do Parque do Povo (FRANÇA, p. 2009). Em novembro de 1986, as 70 famílias da Favela da Cidade Jardim foram levadas para um conjunto habitacional na Estrada do Campo Limpo; em maio de 1988, foi a vez das 800 famílias da Favela Juscelino Kubitschek serem encaminhadas para conjuntos habitacionais localizados na Rodovia Raposo Tavares e na periferia da Zona Leste.

Atentos às pressões das empresas de construção civil junto ao poder público, em 1987, um conjunto de intelectuais, de artistas, de moradores e de representantes dos clubes de futebol de várzea, do circo e do teatro fundaram a Associação Amigos do Parque do Povo (SCIFONI, 2013). Havia um projeto da construtora Mendes Júnior de construir um shopping center no local do parque. Em 1994, referendando um detalhado estudo que destacava a importância social e cultural das atividades realizadas no Parque do Povo, o CONDEPHAAT aprovou o seu tombamento.

Em 2001, durante a prefeitura de Marta Suplicy (2001-2004), após onerosas batalhas judiciais dirigidas individualmente aos clubes de futebol de várzea, ao circo e ao teatro, a Associação dos Amigos do Itaim Bibi (SAIB) conseguiu a interdição das entradas do parque. O argumento sustentado foi que as atividades daquelas entidades estavam se desviando das suas finalidades esportivas e culturais e degradando as dependências do Parque do Povo (SCIFONI, 2013). Nesse sentido, essas entidades não estariam cumprindo os termos do tombamento. Em 2006, mesmo sem ter a autorização do CONDEPHAT, a prefeitura de Gilberto Kassab (2006-2012) apresentou um projeto de reformulação do parque que seria financiado por empresas da construção civil. Em outubro de 2007, ocorreu o despejo dos clubes de futebol de várzea, do Circo-Escola Picadeiro e das 42 famílias que residiam no local (PAGNAN, 2007). Graças à intervenção do Ministério da Cultura, o Teatro Vento Forte conseguiu manter suas instalações no Parque do Povo (SCIFONI, 2013).

Numa reflexão sobre a palavra povo, o filósofo Giorgio Agamben (2014) argumenta que, em português e em outras línguas europeias modernas, povo significa o sujeito político ou o conjunto das pessoas que têm o direito de participar da política, pelo menos numa democracia e, também, a classe dos sujeitos pobres e deserdados que estão excluídos do campo das decisões políticas. Quanto menos os pobres dividirem espaço com os não-excluídos, menos as palavras povo e democracia irão expor suas contradições no interior de uma sociedade de classes. Com a estratégia de mostrar ao povo que ele é um intruso, o Parque do Povo parece pretender retirar das trabalhadoras e trabalhadores a vontade de promover uma nova partilha do sensível naquele lugar.

 

Bibliografia:

ABREU, Ieda. Ilo Krugli: poesia rasgada. São Paulo Imprensa Oficial, 2009.

AGAMBEN, Giorgio. O que é um povo? Análise de uma fratura biopolítica. In. FOLHA DE S.PAULO, 16 de novembro de 2014.

CALVINATO, Andrea. Uma experiência em teatro e educação: a história do menino navegador Ilo Krugli e seu indomável Ventoforte. Dissertação (Mestrado em Artes) – Universidade de São Paulo, 2003.

FRANÇA, Elisabete. Favelas em São Paulo (1980-2008). Das propostas de desfavelamento aos projetos de urbanização: a experiência do Programa Guarapiranga. Tese (Doutorado em arquitetura e urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2009. 

PAGNAN, Rogério. Prefeitura inicia despejo no Parque do Povo, In. FOLHA DE S.PAULO, 16 de outubro de 2007.

SCIFONI, Simone. Parque do Povo: um patrimônio do futebol de várzea de São Paulo. Anais do Museu Paulista, v. 21, n. 2. jul-dez. 2013.

MATHEUS, Rodrigo. As produções circenses dos ex-alunos das escolas de circo de São Paulo, na década de 1980 e a constituição do circo mínimo. Dissertação (Mestrado em Artes) – Universidade Estadual Paulista, 2016.

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