Ó padroeiro, abençoai a Tuiuti

Carnaval Rio 2018 - Desfile na Sapucaí - Paraíso do Tuiuti - Grupo Especial - Gabriel Nascimento | Riotur

Meu Deus! Meu Deus!
Se eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação

(Tuiuti 2018)

 

Respondendo a “quem não gosta de samba, bom sujeito não é”, acho que sou bom sujeito. Gosto de samba. Muito! O ritmo se mistura com os batimentos do coração. O tummm dos surdos faz tremer as carnes todas, dos braços às pernas, dos pelos ao peito. Nem sempre suas letras estão à altura da alegria, do axé de seu ritmo, acho eu e relevo. Tamborins, pandeiros, cuícas, ganzás e agogôs escondem letras, às vezes, medíocres, machistas, racistas. Relevo, não sei bem por quê. Talvez tenha sido inoculado por uma alegria estrangeira aos sangues europeus que por aqui aportaram.

Cada tum, tá, tum, tá faz vibrar cada celulinha. O surdão é meu instrumento de raiz. Entro em alfa, sei lá, tocando ou ouvindo.

Mas de repente, quando tem uma letra junto, ai meu Deus, que fala da injustiça, da luta de todos nós por uma sociedade mais humana, mais justa, mais unida, a emoção vai aos céus. As lágrimas vertem de alegria. Alegria de saber que não estou só na busca da liberdade de todos, na busca da igualdade. Na alegria de um samba, na vadiagem de um samba nos sabemos iguais.

Assim foi com o samba da Beija-Flor de 1989. A igreja resolveu proibir o Cristo Redentor no mesmo carro com o lixo da pobreza. Foram à Justiça (essa mesma)! O Cristo teve de sair coberto por sacos plásticos (a lei é para todos, não é?). E esse samba da Beija-Flor e sua rebeldia não mais me deixaram.

Sai do lixo a nobreza
Euforia que consome
Se ficar o rato pega
Se cair urubu come

Vibra meu povo
Embala o corpo
A loucura é geral (é geral)
Larguem minha fantasia, que agonia
Deixem-me mostrar meu Carnaval

(Beija-Flor 1989)

A pergunta da Paraíso do Tuiuti em 2018 é: Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão? O desfile responde:

Como será com a Beija-Flor 2018?

Meu canto é resistência
No ecoar de um tambor
Vêm ver brilhar
Mais um menino que você abandonou

 

Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na Beija-flor

 

(Beija-Flor 2018)

Ainda não memorizei o samba da Paraíso do Tuiuti. Mas no próximo samba com os amigos terei três sambas de enredo pra cantar: da Beija-Flor de 1989, da Paraíso do Tuiuti de 2018 e da Beija-Flor de 2018. Por rebeldia, por memória, por uma luta que só perderemos quando arriarmos os braços.

Seguem as letras e os links para as músicas.

Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?

G.R.E.S Paraíso do Tuiuti 2018

Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado
Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz

Eu fui mandiga, cambinda, haussá
Fui um Rei Egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se plantava gente

Ê Calunga, ê! Ê Calunga!
Preto velho me contou, preto velho me contou
Onde mora a senhora liberdade
Não tem ferro nem feitor

Amparo do Rosário ao negro benedito
Um grito feito pele do tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor

E assim quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

 

Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia

G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis (RJ) 1989

Leba – larô – ô ô ô ô
Ébo – lebará – laiá – laiá – ô

Reluziu… É ouro ou lata
Formou a grande confusão
Qual areia na farofa
É o luxo e a pobreza
No meu mundo de ilusão
Xepá, de lá pra cá xepei
Sou na vida um mendigo
Da folia eu sou rei

Sai do lixo a nobreza
Euforia que consome
Se ficar o rato pega
Se cair urubu come

Vibra meu povo
Embala o corpo
A loucura é geral (é geral)
Larguem minha fantasia, que agonia
Deixem-me mostrar meu Carnaval

Firme… Belo perfil
Alegria e manifestação
Eis a Beija-flor tão linda
Derramando na avenida
Frutos de uma imaginação

Leba – larô – ô ô ô ô
Ébo – lebará – laiá – laiá – ô

Monstro É Aquele Que Não Sabe Amar (Os Filhos Abandonados da Pátria Que Os Pariu)

G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis (RJ) – 2018

Sou eu
Espelho da lendária criatura
Um monstro
Carente de amor e de ternura
O alvo na mira do desprezo e da segregação
Do pai que renegou a criação
Refém da intolerância dessa gente
Retalhos do meu próprio criador
Julgado pela força da ambição
Sigo carregando a minha cruz
A procura de uma luz, a salvação!

Estenda a mão meu senhor
Pois não entendo tua fé
Se ofereces com amor
Me alimento de axé
Me chamas tanto de irmão
E me abandonas ao léu
Troca um pedaço de pão
Por um pedaço de céu

Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, Brasil!
Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora
Feito um arrastão de alegria e emoção o pranto rola
Meu canto é resistência
No ecoar de um tambor
Vêm ver brilhar
Mais um menino que você abandonou

Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na Beija-flor

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