O ódio político está a expulsar brasileiros do seu país

Portugal é um dos destinos que mais recebe brasileiros que se dizem perseguidos pelas suas ideias políticas, num país em que a polarização parece não ceder um milímetro. O PÚBLICO foi conhecer quem já cá está, quem já cá esteve e voltou, e quem está a chegar.

Elisangela e Renat Foto o Rocha queriam um futuro melhor para a filha Andreia Gomes Carvalho/PÚBLICO

Por João Ruela Ribeiro, para Publico.pt . Foto de capa de Andreia Gomes Carvalho / PUBLICO

Elisangela Rocha abre a porta de sua casa, na Ameixoeira, com um sorriso e ostenta orgulhosa uma camisola em que se pode ler “Mulheres contra o fascismo”. No hall de entrada está pendurada uma bandeira com as cores do arco-íris, símbolo do movimento LGBTI+. Mais tarde irá confidenciar que usa aquela camisola durante a entrevista com o PÚBLICO propositadamente, por ser algo que não poderia fazer no Brasil, país onde vivia até há três meses.

Há cada vez mais brasileiros a abandonarem o seu país indicando razões políticas. Denunciam a instalação de uma “ditadura” alicerçada num ambiente de medo e insegurança instigado abertamente pelo Presidente da República, Jair Bolsonaro. Os alvos são activistas de defesa dos direitos humanos, feministas, negros, homossexuais, índios, ou simplesmente quem defenda posições políticas que contrariem o Governo e os seus apoiantes – e isso pode significar apenas sair à rua com uma Tshirt vermelha, a cor do Partido dos Trabalhadores (PT).

Este tipo de imigração combina as causas tradicionais – como o estado da economia ou o aumento da violência urbana – mas é o ambiente político no Brasil o factor determinante para a decisão de sair do país. Por outro lado, a militância dos brasileiros tem-se intensificado fora de portas. Há pouco mais de um mês, a Mídia Ninja abriu uma casa em Lisboa, onde organiza debates, conferências, concertos e exibições de filmes. Este fimde-semana, Berlim recebe um encontro de organizações políticas de brasileiros no estrangeiro, que conta com a participação de alguns dos primeiros exilados políticos do Brasil de
Bolsonaro, como o ex-deputado Jean Willys ou a filósofa Márcia Tiburi.

A camisola proibida de Elisangela [A camisa da Marcha Mundial das Mulheres em destaque na foto]

Elisangela e o marido, Renato, recebem o PÚBLICO na sala de estar, mas cedo nos apercebemos de que este é território da filha de quatro anos, Clarice, que tem montado um pequeno espaço de pintura. Não tem sido fácil a adaptação da criança, que só pode frequentar o infantário a partir de Setembro e, por isso, quase não fez amigos. Mas foi a pensar nela que os pais resolveram deixar a vida que tinham no Paraná por um país onde não conheciam ninguém.

O Brasil tornou-se um país violento, especialmente para mulheres negras e das classes mais baixas, diz Renato, recordando que esse é o perfil da filha. “A Clarice adulta em Portugal ou noutro país europeu e a Clarice adulta no Brasil são duas pessoas diferentes. Uma vai ter
oportunidades um pouco melhores, no sentido de poder ser a pessoa que quiser; no Brasil terá muitos mais obstáculos”, explica o pai.

A família não planeia regressar brevemente. Renato diz que há uma “normalização da violência” no Brasil, depois de anos de intensa polarização política que só parece aumentar com Bolsonaro no poder. “Esse nível de normalização da violência vai demorar mais de uma geração para melhorar. O Brasil ainda vai piorar muito antes de melhorar”, diz o engenheiro informáticode 40 anos.

O casal esteve bastante reticente quanto a mudar-se para Portugal. Renato recusou duas propostas para vir trabalhar para empresas portuguesas, e só à terceira aceitou fazer uma entrevista, há cerca de um ano, ainda antes da eleição de Bolsonaro. “Sentimos que não dava mais. Eu já sentia que muitas pessoas próximas de nós estavam a ir nesse caminho da intolerância.” Veio sozinho inicialmente, e Elisangela resistiu ao máximo até o acompanhar. No início deste ano preparava-se para iniciar um pós doutoramento na Universidade Estadual do Oeste do Paraná e continuar a sua carreira académica.

Mas deparou-se com um “clima de pessimismo assustador” entre os colegas da academia. As universidades federais têm sido um dos alvos do Governo de Bolsonaro, que anunciou um corte no início do ano, aludindo a recursos mal gastos em “actividades com viés ideológico”. Elisangela ouvia relatos de bolsas congeladas, projectos recusados por não respeitarem certos critérios ideológicos e um ambiente de perseguição. Conta a história de uma professora que viu uma aula interrompida pela polícia, que a questionou por que razão estava a falar de Marx aos alunos.

A área de especialização de Elisangela é a Literatura Africana e também isso é problemático. “Trabalho com questões que foram escolhidas como foco de combate do Governo Bolsonaro, como a questão racial, ou a história e cultura afro-brasileira”, explica. É então que decide juntar-se ao marido em Portugal, sem saber se poderá continuar a sua carreira.

Apesar de concordar com Renato que muito dificilmente irá regressar ao seu país, a académica manifesta alguma esperança. “Gostaria muito de poder voltar a ser livre, ser uma professora que possa falar de preconceito, de feminismo, de me vestir nas aulas como quiser”,afirma.

O exílio repetido de Norma

Norma Marzola e o marido viram-se impedidos de dar aulas em universidades públicas pelo Governo e, por isso, foram obrigados a exilar-se em Portugal. Mas isto aconteceu nos anos 1970, quando o Brasil vivia sob uma ditadura militar que perseguia os seus adversários políticos. Mais de três décadas depois, Norma, hoje com 78 anos, voltou a Lisboa por razões muito idênticas.

Mora em Belém (Lisboa) com a prima, Lúcia Medeiros, de 66 anos, depois de há cerca de dois anos terem deixado Porto Alegre. Ambas são professoras universitárias reformadas e militantes do PT, e assim que começaram a estalar as investigações judiciais do Mensalão e da Lava-Jato, que tiveram o partido como alvo principal, pensaram em abandonar o país. Defendem que os casos de corrupção que levaram o ex Presidente Lula da Silva são apenas pretextos para tirar o PT do poder, a que juntam destituição (que qualificam como golpe) de Dilma Rousseff. E foi nesse momento que decidiram atravessar o Atlântico.

Para Norma, a situação era um déjà-vu. Entre 1974 e 1980 viveu em Lisboa, numa época em que centenas de exilados brasileiros convergiram em Portugal, que recentemente saíra de uma ditadura. Norma era militante do Partido Comunista Brasileiro, mas em Lisboa conheceu Leonel Brizola, um destacado líder da oposição à ditadura, e foi uma das subscritoras da “Carta de Lisboa”, o documento fundador do Partido Democrático Trabalhista (PDT), de cariz social-democrata, e apoiado por Mário Soares. Em 1980, Norma regressa ao Brasil e assiste à redemocratização do país, filia-se no PT e vê a esquerda no poder durante mais de uma década.

Desta vez, Norma e Lúcia não acreditam que venham a regressar. “O jeito de Bolsonaro deu aval para que as pessoas começassem a dizer o que antes não se permitiam dizer, voltar a pôr isso na caixa preta é muito difícil”, diz Lúcia. Deixaram de conseguir debater política, até mesmo com a família. Norma diz ter uma prima, uma irmã e um sobrinho com quem praticamente não consegue falar. “Eles são absolutamente intoleráveis, só me falam para dizer desaforos.

”As duas mantêm uma militância activa em Portugal. Participam nas acções do Coletivo Andorinha e do Núcleo do PT em Lisboa – depois de falarem com o PÚBLICO seguiram para uma manifestação na Praça Luís de Camões contra os cortes na educação no Brasil. Um dos objectivos é mostrar aos companheiros a milhares de quilómetros “que não estão sozinhos”, diz Lúcia. “Queremos chegar aos brasileiros no Brasil, e também aumentar o eco da ajuda internacional nesse momento de crise civilizacional”, explica.

Contam que já observaram reacções adversas da parte de brasileiros em Lisboa, e dão o exemplo de um homem que atirou cerveja sobre uma bandeira que levavam consigo durante uma manifestação. “É incrível o ódio e o fanatismo”, desabafa Norma.

Ambas dizem que o Brasil vive uma nova ditadura e não consideram abusivo comparar as duas épocas, embora notem “subtilezas”. “O dispositivo de repressão é fragmentado: os indígenas são destruídos como indígenas, os ‘sem terra’ são destruídos como ‘sem terra’. O Estado já não é aquela coisa monolítica que atravessa tudo”, afirma Lúcia.

Apesar da falta de esperança, garantem que nunca vão baixar os braços, mesmo tão longe. “Não cansa, mas fica-se triste, tu choras, deprimes”, diz Lúcia, sem esconder a emoção. “Há gente a morrer de fome, sem a menor necessidade, num país riquíssimo. Não dá para ter consciência disso e ficar a vaguear.”

Tales, um encrenqueiro do Whatsapp

Para Tales Duarte, morar fora do Brasil não é novidade. Já passou temporadas no México, de onde a mulher é natural, e em Itália. Mas nunca saiu do país com intenção de ficar tanto tempo como quando deixou Belo Horizonte em Setembro do ano passado. “O gatilho para sair foi a questão política”, diz o engenheiro informático, por telefone.

TFales está acostumado a viv oto er fora do Brasil, mas pela primeira vez está decidido a ficar mais tempo. Foto: Nuno Ferreira Santos

Saiu do país um pouco antes das eleições, quando já se desenhava a vantagem de Bolsonaro, mas disse a si próprio que se o candidato do PT, Fernando Haddad, vencesse, iria regressar. Não foi o que aconteceu, e desde então Tales vive em Lisboa, onde a mulher e o filho de quatro anos chegaram quatro meses depois.

O seu principal receio era vir a “sofrer alguma retaliação” por causa da sua actividade política nas redes sociais, onde partilha frequentemente publicações de esquerda e contra Bolsonaro. Para além disso, antecipou que o ambiente social se iria tornar ainda mais tóxico após as eleições.

Na sua nova vida, Tales está a começar a envolver-se com organizações com a Mídia Ninja e nota que Lisboa se está a tornar “num núcleo de resistência”. “Se as pessoas no Brasil virem que há um grupo questionando com uma visão mais limpa, tendo outras experiências, conhecendo outro país, e mostrando que o Brasil está a passar por um regime ditatorial, isso irá inspirar muita gente a tomar atitudes lá”, espera o informático de 42 anos.

Tales diz que é conhecido por “criar problemas” nos grupos de Whatsapp onde está inserido. O meio corporativo onde se move é composto maioritariamente por “coxinhas”, a classe alta e conservadora que sempre olhou com desconfiança para o PT. Na empresa onde trabalha, Tales diz que existem outros 15 brasileiros e praticamente todos são apoiantes de Bolsonaro. Acabou por ser excluído do grupo de Whatsapp que os reunia. O brasileiro admite que existe algum conflito entre os colegas de trabalho, mostrando que as ondas de choque da polarização que domina o Brasil se fazem sentir bem longe. “Se eu sei que ele apoia o Bolsonaro, não vou marcar uma cerveja à noite. Eu deixo bem claro para evitar que eles se confundam”, explica.

A angústia de Samara

Muitas vezes, os encontros entre brasileiros que partilham a mesma visão sobre a política são encarados como uma espécie de terapia. Ao stress do eterno confronto, por vezes violento, em que a política brasileira se transformou, juntase a angústia de estar num país diferente, muitas vezes sem conhecer mais ninguém. Foi o que aconteceu a Samara Azevedo, de 32 anos, que há dois anos ajudou a fundar o Coletivo Andorinha, um grupo que tem organizado várias acções de rua que marcam acontecimentos relevantes no Brasil.

Os primeiros actos serviram para defender o Governo de Dilma Rousseff, numa altura em que as movimentações para a sua destituição já estavam a todo o vapor. Samara não gostava da ideia generalizada de que Dilma estava sem apoio popular e, por isso, quis apresentar uma “contra narrativa”. “Surgiu a necessidade de dizer aos portugueses que os media não eram um desses apoios e, por isso, não contavam essa parte da história”.

A natureza do grupo foi evoluindo conforme os desenvolvimentos políticos no Brasil e se inicialmente era composto quase apenas por estudantes, hoje já tem um segmento importante de trabalhadores. Para além de marcar a agenda contestatária brasileira, como as grandes manifestações do “Ele Não” durante a campanha, o Coletivo Andorinha também começou a servir para que se discutam temas como as condições da imigração brasileira em Portugal e o discurso colonialista português, “que ainda é muito antiquado”, observa Samara, actualmente a tirar um doutoramento na Faculdade de Belas Artes.

Samara está a tirar um doutoramento na Faculdade de Belas Artes, em Lisboa. Foto: Nuno Ferreira

Angústia é a palavra que escolhe para definir o sentimento que dominava os primeiros tempos do Coletivo Andorinha. “Depois de algum tempo, conseguimos trabalhar essa angústia e transformá-la em acção efectiva”, conta.

Uma forma mais tradicional de militância é feita pelo Núcleo do PT em Lisboa – a única representação de um partido brasileiro em Portugal – fundado em 1993. Actualmente tem 70 militantes inscritos, embora apenas entre 15 a 20 sejam activos, diz Evonês Santos.

A coordenadora diz conhecer vários casos de “petistas” que chegam a Portugal por serem perseguidos no Brasil, mas acabam por não integrar de imediato o núcleo. “Penso que já vêm com um cansaço tão grande da perseguição, de não ter liberdade, que preferem ter um tempo de férias de militância”, observa.

Gabriela faz as malas

Gabriela Moreno, de 36 anos, está prestes a engrossar as fileiras destes auto exilados do Brasil contemporâneo. Deverá aterrar em Portugal no próximo mês de Setembro para frequentar o doutoramento em Políticas Públicas na Universidade de Aveiro. Foi a forma que encontrou para se manter próxima da sua área profissional, depois de ter trabalhado vários anos para a autarquia do Rio de Janeiro.

Recentemente viu as portas da sua área serem fechadas. Diz ter algumas “suspeitas” em relação ao processo do seu afastamento da Câmara Municipal do Rio, uma vez que nunca lhe deram explicações. Diz que até este ano continuou a receber propostas de
trabalho para órgãos públicos, incluindo em Brasília num dos ministérios do Governo de Michel Temer. Este ano ficou a saber de outro lugar num ministério para o qual o seu perfil era adequado, mas disseram-lhe que não valia a pena candidatar-se, já que “não passaria na peneira ideológica”, conta.

Sob pretexto de estar a acabar com o “aparelhamento” do Estado feito pelo PT, o Governo de Bolsonaro tem afastado quadros técnicos em vários organismos e ministérios, quase sem olhar a critérios como a competência ou a experiência. No caso de Gabriela, a sua militância no movimento negro e feminista terão prejudicado a continuação da sua carreira.

A consultora também refere a intensificação do clima de insegurança no Rio de Janeiro, que atribui à onda conservadora que pôs Bolsonaro em Brasília e Wilson Witzel, um juiz que defende execuções extrajudiciais para combater o crime, como governador do estado. “Existe um discurso de exaltação à violência e, principalmente, do uso de armas hoje no Brasil. Qualquer briga de trânsito hoje vem acompanhada da ameaça de que um dos envolvidos poderá estar armado”, explica Gabriela.

Categorias
DestaquesGeralInternacionalPolítica
Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta