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O carnaval dos tiranos

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Será que nunca faremos senão confirmar

a incompetência da América católica,

que sempre precisará de ridículos tiranos?

Caetano Veloso

Historicamente, argumenta Aristóteles, as tiranias se caracterizam por governos nos quais um monarca possui poderes desmesurados sobre todas as pessoas e toma suas decisões sem respeitar lei alguma (1995, p. 299). A tirania surge de formas extremas de corrupção em governos democráticos ou oligárquicos (Ibidem, p. 391). Por vezes, os tiranos valem-se da demagogia e do ódio que o povo nutre pelos ricos para obterem respaldo popular (Ibidem, p. 360). Não por acaso, Aristóteles define a cidadania como sendo a capacidade de comandar e de ser comandado (Ibidem, p. 186). A princípio, uma sociedade de cidadãos plenos não acolheria voluntariamente um governo tirânico que lhes vetasse todo e qualquer exercício do poder.

Os antigos associavam a tirania ao despotismo. A etimologia da palavra grega týrannos é incerta (CHANTRAINE, 1968, p. 1146). Para Vidal-Naquet, essa palavra refere-se àquele que se torna rei por acaso (1999, p. 279). Já o termo grego despótes remonta à palavra sânscrita dámpati [pátir (chefe) + dán (casa)] (CHANTRAINE, 1968, p. 266). Nesses termos, pode-se afirmar que o tirano governa como se fosse o chefe da família e o senhor dos escravos. Em suas análises, Chaui sustenta que, assumindo uma forma de poder própria ao espaço privado, o tirano acaba se tornando um usurpador de tudo o que possa fazer parte do espaço público (1992, p. 358).

Provavelmente, o tirano mais conhecido da literatura seja o Édipo de Sófocles. Na interpretação de Vernant, a tirania edipiana possui uma série de semelhanças com o papel desempenhado pelo pharmakós: o bode expiatório que precisa ser sacrificado para que se retome a fecundidade das terras, dos rebanhos e das mulheres (1999, p. 85). Antigo ritual de purificação, quando uma calamidade se abatia sobre uma cidade, o que sinalizava a cólera dos deuses, explica Derrida, o povo escolhia uma pessoa para ser, ao mesmo tempo, seu veneno e seu remédio (2005, p. 80-4).

No início da tragédia de Sófocles, o povo de Tebas manifesta sua confiança de que Édipo possa purificar e salvar a cidade do miasma, da desgraça que lhe assola (Édipo rei, vv. 20-30). O tirano é tomado, portanto, como um médico, e não como um veneno que deva ser expelido. Mais ainda, o povo delega a Édipo o poder de identificar, perseguir e expulsar quem possa estar contaminando a cidade. Além disso, os tebanos consideram Édipo um sábio com as qualidades de um deus e, na tradição do pharmakós, o bode expiatório é, geralmente, alguém que a cidade despreza.

Segundo Vernant, as ambiguidades fazem parte dessa tragédia. A mesma sociedade ateniense que sacrifica, anualmente, pessoas pobres e degradadas no ritual do pharmakós, manda para o exílio, com a prática do ostracismo, pessoas admiradas na cidade (1999, p. 88-93). A maior parte dos punidos eram políticos ou generais, mas, alguns artistas e intelectuais influentes, como Dámon, Fídias e Tucídites, também foram condenados ao exílio. Por outro lado, no pharmakós, a pessoa eleita pelo povo para ser o bode expiatório era tratada como um rei até o momento do sacrifício.

Para reforçar essa ideia, Vernant aproxima o pharmakós dos gregos às Saturnalia dos romanos, festas nas quais uma pessoa, designada para ser um anti-rei, é expulsa ou condenada à morte (Ibidem, p. 92). As Saturnalia fizeram parte do calendário de festas populares dos romanos por muito tempo. Elas tinham o objetivo de homenagear Saturno, deus relacionado à agricultura. No curto e próspero reinado de Saturno, conhecido como Idade do Ouro, esclarece Frazer, a escravidão e a propriedade privada não existiam, e as pessoas compartilhavam todas as coisas (1990, p. 583).

Alguns traços do reinado mitológico de Saturno marcam as Saturnalia romanas. Durante os 7 dias de festas, de 17 a 23 de dezembro, a distinção entre classes livres e servis era temporariamente abolida e os escravos podiam dividir a mesa de refeições com os seus senhores e injuriá-los (Ibidem, p. 583). Para Toboso, esses ritos de inversão e de transgressão social evocam uma hipotética libertação de Saturno, que foi mandado para o exílio após perder o poder (2002, p. 382). Na mitologia grega, o deus Cronos, que corresponde ao deus romano, foi aprisionado por seu filho no mundo subterrâneo (Ibidem, p. 382). Tendo o próspero reinado do monarca como modelo, nas Saturnalia, todos podiam comer, beber e namorar sem nenhum comedimento (Ibidem, p. 399).

Uma das práticas comuns nas Saturnalia era a troca de presentes entre homens livres e escravos. No âmbito dessas doações, o sacrifício de uma pessoa era oferecido ao deus Saturno (Ibidem, p. 392). Durante a festa, assinala Frazer, era instituída uma espécie de república teatral, comandada por um rei fictício, encarregado de expedir mandatos divertidos e cômicos, tais como: que os súditos bebam, cantem, dancem ou que façam discursos contra si mesmos (1990, p. 584). No quarto século da era cristã, algumas Saturnalia passam a associar o ritual de sacrifício à pessoa indicada para ser o rei fictício. Nesse caso, após seu breve reinado, o próprio soberano era degolado ao término da festa (Ibidem, p. 584).

Influenciadas pelos folclores locais, ressalta Bakhtin, as Saturnalia atravessaram a Idade Média (1987, p. 71). Aos poucos, a Igreja Católica procurou substituir ou incorporar essas festas populares (Ibidem, p. 68). Nos primeiros séculos do cristianismo, surge a “festa dos loucos”, na qual eram nomeados bispos e papas fictícios do riso, mantendo, assim, a inversão social das Saturnalia (Ibidem, p. 70). No Renascimento, a pessoa destacada pelo povo para reger as festas pagãs se apresenta como um rei bufão, escarnecido, espancado e injuriado por esse mesmo povo quando termina seu reinado; atualmente, em alguns países europeus e latino-americanos, um boneco carnavalesco é aviltado, despedaçado e queimado nas festas de fim de ano (Ibidem, p. 172).

Além de ter se tornado uma obra atemporal, Édipo rei, ou, mais precisamente, Édipo týrannos, foi um protesto contra as leis e os costumes da sua época. Ao aproximar o ostracismo do pharmakós, Sófocles parece sugerir que, em ambos os casos, trata-se, apenas, de encontrar um bode expiatório. A escolha popular não se dá, portanto, a partir das qualidades ou da falta de qualidades morais ou políticas daquele que deve ser expulso ou sacrificado. Nessa mesma perspectiva, a principal função dos reis tiranos eleitos para comandar as festas nas Saturnalia e nos carnavais é expiar as mais variadas culpas acumuladas pelos cidadãos. Curiosamente, muitos tiranos indicados pelo povo para efetivamente exercer o poder, enfrentaram destinos semelhantes.

Bibliografia:

ARISTÓTELES. La politique. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 2005.

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec/Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1987.

CHANTRAINE, Pierre. Dictionnaire étymologique de la langue grecque. Paris: Éditions Klincksiek, 1968.

CHAUI, Marilena. Público, privado, despotismo. In. NOVAES, Adauto (org.). Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 345-390.

DERRIDA, Jacques. A farmácia de Platão. São Paulo: Iluminuras, 2005.

FRAZER, James. The Golden bough: a study in magic and religion. Nova Iorque: Palgrave Macmilla, 1990.

SÓFOCLES. Édipo rei. São Paulo: Perspectiva, 2005.

TOBOSO, Juan. La participación de los escravos en las fiestas del calendario romano. 2002. 541f. Tese (Doutorado em História Antiga). Facultad de Geografia e Historia. Universidad Complutense de Madrid, Madrid, 2002.

VERNANT, Jean-Pierre. Ambiguidade e reviravolta. Sobre a estrutura enigmática de Édipo-Rei. In. VERNANT, Jean-Pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e tragédia na Grécia antiga. São Paulo: Perspectiva, 1999. p. 73-99.

VIDAL-NAQUET, Pierre. Édipo em Atenas. In. VERNANT, Jean-Pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e tragédia na Grécia antiga. São Paulo: Perspectiva, 1999. p. 267-285.

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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