Número de inscrições no ENEM é o menor desde 2010

Nossos jovens estão parando de sonhar?

(Foto: Alexandre Durão/G1)

O número oficial dos inscritos no ENEM foi divulgado na terça-feira (28) e confirmou aquilo que já vinha se desenhando: o número de inscrições caiu novamente. É o mais baixo desde 2010.

Segundo dados divulgados pelo MEC, foram exatamente 5.095.308 inscritos. Esse número vem seguindo uma série de quedas desde 2016, ano da derrubada da presidenta Dilma (PT), em que se inscreveram 8.627.371. Ou seja, em três anos houve uma queda de mais de 40% na quantidade de inscrições.

Para os que atuam na área da educação, é possível notar que a partir dos anos 2000, com a ampliação das vagas nas universidades, estudantes do ensino fundamental passaram a almejar o ingresso também no ensino superior.

Após a incrementação de políticas públicas nesta área, o ingresso no ensino superior aumentou: em 1998 tínhamos 2,1 milhões de alunos frequentando um curso de graduação, já em 2007 tínhamos 5.302.322 matrículas. Mas, mesmo com a valorização e crescimento do ensino superior, em 2018 tínhamos 18% dos jovens de 18 a 24 anos estudando em uma instituição de ensino superior, número que ainda está bem abaixo da média dos nossos vizinhos como Argentina, Chile e Uruguai.

Ocorre um processo de desvalorização da educação, que sempre foi uma luta e desejo universal, agora é repudiado por setores da direita. Chegaram ao ponto de arrancarem um cartaz em defesa da educação em Curitiba, nos protestos a favor do governo do dia 26/05.

Espalham argumentos tendenciosos dizendo que o Brasil gasta proporcionalmente mais que países desenvolvidos (gastamos 6% do PIB). Citam os EUA como exemplo, que  gasta 5,4% do PIB mas esquecem de levar em conta que o PIB dele é quase 10 vezes maior que o do Brasil. Ou citam a Coreia do Sul que tem um PIB equivalente a 75% do brasileiro, mas possui uma população que equivale à 25% da população brasileira. É inegável: o gasto por aluno no ensino superior brasileiro – de pouco mais de 10 mil dólares – é menor do que a média de países da OCDE, que ultrapassa 15 mil dólares por estudante.

A queda dos números de inscrições no ENEM é o triste diagnóstico de que os nossos jovens estão sonhando menos. E o mais chocante é não estarem apenas parando de sonhar, mas vivendo o pesadelo distópico em que, mesmo que o investimento brasileiro esteja abaixo da média dos países desenvolvidos, pessoas ligadas ao governo e apoiadores manipulam dados para divulgar inverdades como a de que já investimos muito em educação.

Como o sonho se tornou um pesadelo?

  • David Felipe da Silva. Graduando de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP). É Coordenador Geral da União Estudantil de Embu das Artes e também coordena o Cursinho Popular João Batista de Freitas.
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