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Não basta parecer, é preciso ser

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Por Jorge Branco*

Nessa madrugada de 14 de julho de 2019, o site The Intercept Brasil, em conjunto com o jornal Folha de São Paulo, desnudaram mais um aspecto do grande processo conspiratório em curso no Brasil, que tem na Operação Lava Jato sua ponta-de-lança.

As reportagens, até aqui publicadas, já haviam exposto a ruptura do sistema jurídico brasileiro, a partir dos diálogos onde acusador e julgador combinam a estratégia de condenação. Essa combinação, foi revelado logo a seguir, envolveu também o julgador do recurso, um desembargador do TRF4, e ministros da corte constitucional. Aqui, essa aliança de jornalismo investigativo, já havia nos permitido perceber a agressão ao princípio do julgamento justo, da presunção de isenção dos julgadores. Os julgamentos das ações da Lava Jato abandonaram os princípios do Estado de direito moderno, fundados com a revolução Francesa no século XVIII para retroceder à Idade Média, onde os julgamentos já estavam definidos antes mesmo do “crime” acontecer, bastava saber a procedência de classe do envolvido, se aristocrata ou servo.

Na sequência, as reportagens nos demonstraram que não só os julgamentos eram fraudulentos como a própria investigação também o era. O conluio entre julgador, acusador e investigador, para manobrar as sentenças, apelações e prazos até que os investigados aceitassem registrar a delação mais conveniente para a tese da acusação, fere de morte o Estado democrático de direito, mesmo que este seja apenas norma jurídica. Os envolvidos no conluio, na combinação ilegal, reconheciam a insuficiência de provas e trataram de fabricá-las com o instrumento das delações premiadas, através de uma manipulação ilegal desse expediente, premia-se com impressionante abrandamento de pena os que contribuíram para forjar as provas requeridas pela Força-Tarefa da Lava Jato e pune-se, pesadamente, os que não quiserem ou não puderem contribuir com essa intenção.

Mais uma vez, a operação Lava Jato retrocedeu do Estado moderno para o Estado medieval, agora sob inspiração dos julgamentos da inquisição religiosa onde o suspeito era torturado até o desenlace final, ou morria na tortura por não ter confessado o crime que a ele estava destinado ou morria por ter confessado o crime que, já era esperado, tinha cometido.

A operação Lava Jato foi a ponta-de-lança de uma conspiração político-eleitoral. Uma série de reportagens demonstrou a racionalidade política da operação, primeiro nos vazamentos intencionais e seletivos sobre as investigações, o que contribuiu para o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, e após inviabilizando a candidatura do Lula, através da aceleração do julgamento no TRF4, afim de materializar sua condenação e o cumprimento de pena, como também impedindo que desse entrevistas em favor do candidato de seu partido.

Agora, a reportagem mais atual descortina outra faceta complementar dessa ‘biografia” que vai sendo montada sobre esta que, tudo leva a crer, seja a maior conspiração, antidemocrática e anticonstitucional, da história do Brasil. Os diálogos entre acusadores da operação Lava Jato demonstram uma ação racional para amealhar dinheiro a partir da fama que eles obtiveram, nas suas palavras “nosso networking e visibilidade”. Trata-se de, como diz o TIB, “um plano de negócios para lucrar com eventos e palestras na esteira da fama e dos contratos conseguidos durante a operação”. Combinações sobre a criação de uma empresa com diretoras laranjas para agenciar cachês, utilização de servidores públicos em horário e meios de serviço para secretaria-los nesse empreendimento privado, convites a outros burocratas para fazerem o mesmo no claro intuito de legitimar essa conduta antiética e imoral, inundam as trocas de mensagem publicadas.

O estarrecedor é que, apesar dessa conduta antiética já visível desde o início da operação, os burocratas da Lava Jato foram protegidos ora com a omissão, ora com a legitimação por parte da próprio MPF. O Conselho do Ministério Público, que deveria zelar pelos princípios da Constituição Federal, chancelou esse desvio de conduta e muitos dos demais procuradores silenciaram, talvez por que tenham aderido a esse mainstream. Mas pode ser que nem todos tenham aderido, então porque silenciaram?

Na resposta à essa pergunta, talvez, esteja o mais fundamental das razões e motivações dos burocratas da Lava Jato, porque diz das razões desse desvio de conduta e dessas possíveis ilicitudes que a operação tenha cometido. Houve silêncio e omissão por que a operação Lava Jato foi blindada por uma ampla coalização político-empresarial que criou uma “atmosfera”, onde a simples dúvida sobre sua legitimidade era criminalizada a partir de uma operação de propaganda muito eficiente, por que disfarçada de jornalismo, levada a cabo pelo oligopólio das empresas privadas de comunicação.

Esse apoio das grandes redes de comunicação não seu deu por adesão ética ao combate à corrupção, a corrupção não foi o centro da operação e por isso ela continua campeando nas relações empresariais brasileiras. Tampouco foi por respeitar ao devido processo legal, pois isso não levaria à condenação da cúpula do Lulismo e, em especial, do Presidente Lula. O apoio das grandes redes privadas de comunicação à operação Lava-Jato era essencial para que essa aliança empresarial pudesse ter as condições políticas suficientes para consolidar a maioria no Congresso Nacional e remover do governo uma coalizão de centro-esquerda que pudesse ser um empecilho, ainda que parcial, para a nova fase, mais agressiva, de exploração do trabalho e do país. O grande capital em crise, que nunca perdeu o controle sobre o Estado, decidiu ter o controle absoluto sobre o governo especificamente, para o que que a antiga coalização de forças não contribuía, e a Lava Jato fez o serviço.

O conluio entre acusadores e julgadores, com a sustentação do oligopólio das empesas de comunicação, condenou os brasileiros à reforma trabalhista e à reforma da previdência e o Brasil à perda de controle de seus ativos estratégicos, como o petróleo. Jogou o país em uma aventura retrógrada e antidemocrática.

As pontas se unem quando os burocratas decidem aproveitar o networking e a visibilidade. Ao fim e ao cabo a ideologia se funde com a conta bancária. As gratificações pelos serviços jurídicos não republicanos prestados pelos componentes da Lava Jato, expostos pela reportagem, é o mercado quem dá. O mercado aparece aqui com a alcunha de “networking”, e a transação se completa. O mercado de palestras os contrata não só para falar do “combate à corrupção” mas também para falar do que “as faculdades não ensinam”: empreendedorismo, a ideologia da prosperidade, os valores do sucesso individual e a sobre a utopia capitalista do enriquecimento e da meritocracia. De servidores públicos de carreira jurídica de Estado se transformaram em ‘coaching” do MBL. O problema é que, nas mensagens expostas, não aparece nenhuma disposição de alertar aos jovens que a grande maioria, se não a totalidade, não realizará essa utopia em função da dinâmica monopolista do capitalismo e pela origem de classe.

Não há como não relacionar essa disposição de complementação financeira com a, quase, consecução da fundação privada com o dinheiro público recolhido nos EUA em função dos acordos judiciais de empresas brasileiras naquele país. Seria o “crime perfeito”, prestação de serviços ao capitalismo com gratificações sem controle público e questionamentos quanto a sua legitimidade. Mas crimes perfeitos não existem e a operação Fundação Lava Jato não deu certo.

As investigações jornalísticas lideradas pelo TIB descortinaram a trama conspiratória internacional que é a Lava Jato, demonstrada pelo “vamos articular com os americanos”. Mas toda grande trama, incluindo-se aqui as conspirações políticas, tem o sentido histórico moldado pelos interesses econômicos das classes dominante mas são feitas por partidos e intelectuais orgânicos. O papel de partido foi assumido pelo oligopólio de comunicação e o de intelectuais orgânicos pela alta burocracia do sistema jurídico.

Obviamente, não esperaria que os paradigmas desses componentes da alta burocracia estatal fossem Vladimir Lênin, Ernesto Guevara, Rosa Luxemburgo, Anita Garibaldi ou Simon Bolívar, isto seria uma opção ideológica e ética além das expectativas. Mas que ao menos fossem Maximilien de Robespierre, Georges Jacques Danton, Winston Churchill, Frankilin Roosevelt, Teotônio Vilela ou Dom Hélder Câmara. O que resta, de maneira estarrecedora, é que a ingênua utopia da Constituição pós autoritária de 1988 deu guarida a uma burocracia que tem na parede, como autorretrato, ao invés daqueles, Fulgêncio Batista, Antonio Salazar, Garrastazu Médici e Nelson Rockefeller.

Não é mais possível que a maioria da sociedade brasileira sustente essa farsa que serviu para lhe tirar direitos básicos, o que ainda não está concluído haja visto a “arminha” apontada para a educação e a saúde públicas.

A Lava Jato está desmascarada. Seus efeitos jurídicos devem ser revistos sob a luz da Constituição Federal e seus efeitos políticos e econômicos devem ser, igualmente, barrados sob pena da destruição do país e da ultra exploração física da classe trabalhadora. Para um sistema de justiça não basta parecer ser justo e honesto, é preciso que ele efetivamente o seja, assim como a um regime político não basta parecer ser democrático e buscar a igualdade, é preciso que ele o seja e o faça.

 

*Jorge Branco é Sociólogo e Mestre em Ciência Política

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  1. Edson del Valle

    14/07/19 at 23:44

    Um texto forte, que marca o fim de uma farsa. A partir de agora, ninguém mais, poderá alegar desconhecimento ou que foi enganado. Chega! Ou nos lançamos a luta, ou seremos escravos, para sempre, desses canalhas.

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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