Movimento Indígena e Índios em Movimento

Por Ailton Krenak, em entrevista concedida ao Projeto Xingu

Foto: Helio Carlos Mello

minha geração aprendeu que a gente só pode chamar de movimento alguma coisa que tenha potência. Imagine a maré e as ondas do mar. Imagine o movimento das águas ou o vento na floresta. Imagine uma escuridão num acampamento no escuro, durante a noite, quando dá um raio todo mundo se enxerga. Às vezes esse raio dura dez anos, às vezes cinco anos. Eu penso que, e de certa maneira a minha geração compartilha essa visão, o movimento indígena teve duração, ele teve a duração desse raio, foi quando a gente foi capaz de intervir, de se reconhecer e ser reconhecido em diferentes instâncias.

Quando virou a década de 90 penso que aquilo que era a potência desse movimento foi refluindo para seus lugares de origem, foi lidar com realidades locais, foi cuidar de suas terras que estavam demarcadas ou sendo demarcadas. Foram fazer seus programas e projetos na área de desenvolvimento sustentável, gestão ambiental, foram mexer com coisas que demandavam serviços dessas pessoas em suas comunidades. Inclusive alguns foram administrar programas e ações de saúde que estavam começando a ser contratados, e uma boa parte das associações indígenas e lideranças se formaram na década de 90, eles se habilitaram para fazer isso, para virarem gestores de contratos e convênios de projetos em suas comunidades. Mesmo os que não estavam vinculados diretamente a esses projetos, eles tinham algum tipo de demandas em suas comunidades locais. Foi como se todos tivessem voltados para casa.

Eu sinto que a grande riqueza intrínseca do povo indígena é sua diferença.Os Krenak falam krenak, os Guarani falam guarani, os Xavante falam xavante. Todos tem seus mitos de origem, suas histórias de origem, o conhecimento de sua medicina, tem as suas próprias práticas, os próprios rituais. Serem capazes de recriarem o mundo para si. Isso é uma riqueza incalculável.

Eu inclusive fico meio grilado quando vejo essas tentativas, meio artificiais, de as pessoas dizerem que há um novo movimento indígena. O meu amigo Daniel Munduruku falou que não tem movimento indígena, e sim índios em movimento. Eu acho mais interessante ter índios em movimento do que movimento indígena. Índios em movimento é uma possibilidade de, cada vez que der um raio, os que estiverem acordados se manifestem. Cada vez que der um raio, os que estiverem acordados, invadem o Congresso, fecham estradas, aprontam alguma.

Isso é índio em movimento.

Categorias
ÍndiosMeio Ambiente
Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta