Missa da terra sem males

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Recebo a notícia num vagão do metrô, num túnel escuro, a cidade sobre a cabeça. Coincidência ou não, ouvia um texto musicado a tocar na rádio, Missa da Terra Sem Males, na voz de Diana Pequeno: Eu sou América, sou o Povo da Terra, da Terra-sem-males, o Povo dos Andes, o Povo das Selvas, o Povo dos Pampas, o Povo do Mar… Do Colorado, de Tenochtitlan, do Machu-Pichu, da Patagônia, do Amazonas, dos Sete Povos do Rio Grande…

Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra, na década de 80, já chorando nossos mortos, nossos índios. A arte e a fé sempre em protesto, forte como deve ser numa terra fraca de direitos.

A mancha que há em nosso ser não cessa, cresce a cada ano no tecido que veste a nação há cinco séculos: o assassinato dos indígenas destrói toda fantasia de país.

No final de semana, as cidades conviveram com a notícia de sangue da Amazônia distante, tão dentro de nós,  do assassinato de um cacique dos índios Wajãpi por garimpeiros. 

Muitos artistas se manifestaram, imediatamente, quando a notícia rompeu o isolamento da floresta na terra livre da arte. Com perfurações matam o índio, homens em busca do ouro e pedras preciosas, que, um dia, embarcará pelos aeroportos do país, para terras mais distantes ainda. Nosso rio de ouro e diamantes a nutrir as veias de bancos e mercados do mundo. 

Para nós, restará a terra devastada.

Protesto dos povos indígenas diante do Congresso Nacional, durante o Acampamento Terra Livre, 2017.

Um corpo caído no chão, seu espírito livre entre a mata, agora. Partiu e não voltará mais. 

O índio Wajãpi sempre me lembrou beija flor, talvez aquele pano vermelho caído sobre a nudez, a linda coroa de finas plumas, a lembrar o martírio sutil de um povo, seus corpos pequenos, uma leveza no falar.

A Amazônia insiste em nos mostrar seus mortos, que serão tantos. Um inferno verde virá a expor nossa cara, a conquista tardia do ocidente.

imagens por Helio Carlos mello©

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