Conecte-se conosco

Marcia Tiburi: impressões de um primeiro debate

Publicadoo

em

Por Marcia Tiburi

O primeiro debate entre os candidatos para o governo do estado do Rio de Janeiro em 2018 foi, também, o meu primeiro debate eleitoral. Para quem acredita na política como um instrumento de libertação do medo, do individualismo, da barbárie e, sobretudo, para quem, como eu, considera a verdade uma condição de possibilidade da própria existência, esse debate foi uma experiência esclarecedora sobre o funcionamento do jogo político. Há algo de constrangedor naquele formato e, confesso, é preciso paciência.

Tudo é feito para distanciar o povo da política. As estratégias de despolitização estão presentes já nas regras do debate, que impedem a reflexão séria e o desenvolvimento de pensamentos mais complexos. As pessoas são levadas a acreditar que problemas extremamente complexos podem ser resolvidos com fórmulas mágicas apresentadas em um minuto e meio, o tempo destinado às respostas dos candidatos. Esse “um minuto é meio” pode ser a metáfora do empobrecimento da política e da impossibilidade do ser-com (Mitsein), do apresentar-se autenticamente ao outro. Vale lembrar que a pobreza do mundo é também efeito da apropriação do tempo por uma lógica que leva tudo e todos a serem tratados como objetos negociáveis e substituíveis.

Mas, não é só. Cada candidato é apresentado e se apresenta como uma mercadoria, como se fossem meras positividades. A complexidade da pessoa real, o autêntico, a dialética entre o positivo e o negativo em cada um, desaparece. O candidato vira um robô.

De um lado, aqueles que relatavam o que já tinham feito, em um exercício de memória bastante seletivo, esquecendo-se, por exemplo, da cota de responsabilidade de cada um no caos em que se encontra o estado do Rio e o país. Os golpistas, e eram vários, não ousaram defender explicitamente o projeto político a que servem e foi responsável pela destruição de direitos sociais, o fim de postos de trabalho e a entrega do país a interesses estrangeiros, tudo com evidentes reflexos no estado do Rio. A economia da desigualdade que eles promovem, com graves consequências nas questões da segurança e da fome, foi esquecida, ao mesmo tempo em que o mantra de que tudo é uma questão de “gestão” foi repetido.

De outro lado, aqueles que procuravam apontar que são a solução, igualmente fácil, para os problemas criados pelos outros. Com respostas prontas e argumentos pré-fabricados procuravam ser didáticos a partir da crença de que o povo é ignorante. Usavam o “um minuto e meio” para apresentar respostas mágicas ditas com a convicção, a didática e a segurança que apenas aqueles que ignoram a gravidade do quadro social e econômico no estado possuem. Fraudulentamente, omitem que os graves problemas presentes não serão resolvidos com frases de efeito, fantasias ou apenas boa vontade.

O meu objetivo no debate era viver a experiência de encontrar com a diversidade a partir de quem eu sou, com minhas qualidades e defeitos. Não preparei respostas, nem fingi ser possível apresentar soluções complexas em “um minuto e meio”. Não atendi às regras que costumam ser ditadas por marqueteiros e especialistas em debates por uma razão: sempre procuro reagir à transformação da política em espetáculo. A profissionalização dos debates, importada dos EUA, acaba por empobrecer a política. Comunicação artificial, em que cada fala é produzida para adular a audiência, não me agrada.

Procurei, dentro dos limites formais do debate, ser quem eu sou, refletir e pensar antes de perguntar ou responder. Alguns podem dizer que é uma estratégia equivocada de alguém que não é da “política”. Na realidade, tentei mostrar que é possível fazer política de uma forma diferente, sem discursos prontos, agressões ou promessas vazias. Mostrar que um outro Rio de Janeiro é possível. Temos o melhor programa de governo e um compromisso com a verdade: coisas que tornam a nossa candidatura um experimento único.

Continue Lendo
7 Comments

7 Comments

  1. Jeannine Sester

    17/08/18 at 20:30

    Marcia Tiburi: Noblesse politique!

  2. Wilne Moraes

    18/08/18 at 16:48

    Não assisti ao debate e não sou moradora do Rio de Janeiro mas onde moro não é diferente , guardadas as devidas proporções, creio que a experiência da Márcia Tiburi nessa disputa governamental será entre outras coisas, didática para os eleitores como nunca antes visto e vivido. Já é possível prever o que será a diferença entre quem realmente consegue entender o que é o fazer política com boa qualidade , no sentido de ser verdadeiro consigo e com os problemas sociais e como abrir caminhos possíveis para minimizar as deficiências em alguns casos e em outros, simplesmente a aceitação do que não será possível fazer, mas apontar estratégias para iniciar um repensar sobre o que está “normalizado” na politica e nao muda por isso mesmo. Nao muda nem pelos candidatos, nem pelos eleitores. Creio que ela terá essa função. A de dar uma sacudida na maneira distorcida de se pensar política . Por isso já valeu a pena a Marcia ter entrado no” jogo”.

  3. Victor Rodrigues

    18/08/18 at 17:15

    Realmente, esse formato restringe muito o debate. Já pra outros candidatos, é tempo demais até.

    Márcia Tiburi, torço aí pelo teu poder de síntese, mira las câmeras e vamo pas cabeças!

  4. Ricardo Ramalho Silveira

    19/08/18 at 6:38

    Longa, profunda e profícua vida aos Jornalistas Livres!

    Longa, profunda vida à consagrada intelectual e transformadora candidata ao governo do Estado do Rio de Janeiro, Márcia Tiburi!

  5. Vinícius Krausz

    19/08/18 at 13:04

    Tudo bem, eu até acho esses argumentos interessantes. Acompanho a trajetória intelectual da Marcia desde 2012 – muito antes de ela se filiar ao PT ou ao PSOL. Conheço seus posicionamentos sobre a industria cultural, assisti todas as suas palestras, já comprei 4 livros para ler, sou entusiasta da PartidA e foi por isso que depositei grandes expectativa sobre sua candidatura, enquanto boa parte dos meus colegas – inclusive alguns petistas – a desacreditavam, embora não admitam isso publicamente. Mas já que, segundo ela, a candidatura tem o melhor programa, eu gostaria que os detalhes desse programa pudessem ser apresentados no debate, justamente para que eu – e o restante do eleitorado – possamos avaliar se o programa é de fato o melhor ou não. Acho que isso não tem a ver apenas com espetacularização da política, que de fato merece ser criticada, mas também com preparo e compromisso com o eleitor. Preparo implica não apenas bons princípios, mas também capacidade de demonstrar que tem competência para fazer aquilo que se propõe. Espero sinceramente que o partido não esteja usando sua candidatura apenas para eleger seus deputados ou pior, apoiando outro candidato ao governo. Nesse caso, o espetáculo estaria se elevando ao patamar de simulacro. Não faço julgamento moral, caso essa seja a estrategia, apenas gostaria de estar ciente disso de forma transparente. Até eu então eu vinha defendendo sua candidatura das críticas, mas está difícil de continuar defendendo.

  6. Aurora

    19/08/18 at 20:50

    Infelizmente há que se adaptar a essa realidade, Márcia. Era nítido seu desconforto com o formato, mas se aceitou se candidatar, deve, a quem deseja ver o PT no governo, tentar, pele menos, jogar conforme as regras. Via-se que vc, Márcia, não se preparou para essa batalha! Ainda há tempo de vencer a guerra se vc usar sua inegável inteligência para mostrar que a esperteza não pode ganhar e o mau-caratismo não tem como sobreviver frente a um verdadeiro compromisso com o bem comum.

  7. Jeferson Santos

    20/08/18 at 16:30

    Márcia

    Suas reflexões ficaram de bom tamanho e dentro do que esperávamos.

    O único porém que queremos destacar é que você terá de reduzir um pouco esse seu lado “filosófico” porque esse tipo de retórica já se mostrou ineficaz em eleições passadas entre aqueles que certamente você precisa atingir.

    Isso não quer dizer que você tenha de empobrecer sua linguagem, mas sim ter uma dialética mais próxima do povo que certamente está disposta a votar em Lula, por exemplo. Porque mesmo que você seja a candidata do PT, o partido do citado, o fato é que praticamente ninguém te conhece e não conseguira “se enxergar” em você como “se enxerga” em Lula. É o tipo de candidata que precisaria fazer, por exemplo, exatamente o que ele fez em termos de Brasil: pegar um ônibus e rodar o Estado inteiro pra que as pessoas possam conhecê-la, porque nem todas acompanharão debates televisivos e mesmo assim terão dificuldades em reconhecê-la, já que nesse momento você é uma “ilustre desconhecida”.

    Fora isso, a análise é bem por aí, com apenas uma ressalva (que tem a ver com o que apontamos): quando você se põe como alguém que acredita ser “possível fazer política de uma forma diferente, sem discursos prontos, agressões ou promessas vazias”, deixe claro que não se trata de ser uma outsider no pior sentido do termo (isto é, que tem como maior virtude não ser uma “pessoa da política”), pois é muito provável que alguns se lembrem de outros que se puseram assim (e que naufragaram em suas próprias idéias) e outros que conseguiram se eleger e nada acrescentaram, só se queimaram (caso de João Dória, o outsider-símbolo das eleições municipais de 2016).

    No mais, boa sorte em sua campanha e esperamos que seja um grande aprendizado pra ti. Abraços fraternos!

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

Publicadoo

em

Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

Continue Lendo

Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

Publicadoo

em

O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

Continue Lendo

Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Publicadoo

em

O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

Continue Lendo

Trending