Luta à sombra de um pão com mortadela

Durante ato da Frente Povo Sem Medo, depoimentos desmitificam a “compra” de manifestantes. A prática tornou-se argumento para diminuir a legitimidade de atos da esquerda

Foto: Sato do Brasil para os Jornalistas Livres

Cinquenta reais ou um pão com mortadela. Esses são alguns dos “pagamentos” que os manifestantes de esquerda foram mais uma vez acusados de receber para, em troca, participarem do ato realizado na Avenida Paulista no último dia 18, contra o golpe e a favor da democracia. Os comentários surgiram com a veiculação de matérias antigas na internet – publicadas originalmente em 2015 e 2013 – que falavam de pessoas que transitavam com bolos de dinheiro nas mãos e distribuíam entre os presentes.

Nesta quinta-feira (24), a Frente Povo Sem Medo liderou mais uma marcha que partiu do Largo da Batata, em Pinheiros, rumo à frente da TV Globo, nas proximidades do Brooklin. Cerca de 30 mil pessoas compareceram. Os Jornalistas Livres entrevistaram várias delas, de movimentos diferentes, para saber o real motivo que as levara até ali e para mostrar, também, a diferença entre receber dinheiro e ter um apoio do movimento para poder participar do ato.

Foto: Mauro Lopes para os Jornalistas Livres

Foto: Mauro Lopes para os Jornalistas Livres

Vim do Parque Independência, no Capão Redondo, de Metrô e ônibus. Não teve benefício nenhum. Nós, de movimentos sociais, vimos por vontade própria. É condição do nosso bolso. Ninguém nos obriga a nada. Se é bom para nós, vimos pra dar apoio. Não existe esse negócio de pão com mortadela. Vem quem quer. Não tem ônibus fretado. Vimos a pé quando não tem transporte, pedimos carona”, explicou Simone de Santos Mota, que é faxineira e integrante do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) desde 2007.

Mais adiante no curso da marcha, conversamos com Edson Gordiano da Silva, pedreiro e coordenador da Ocupação Vila Soma, considerada a maior da América Latina e que recentemente teve um pedido de reintegração de posse suspenso pelo Supremo Tribunal Federal. A comunidade fica na cidade de Sumaré, a uma hora e quarenta minutos de viagem de São Paulo.

Edson explicou que ele e outros ocupantes vieram de caravana, em um ônibus fretado pelo movimento. Algum problema nisso? Não para ele. “A gente vem porque ‘tamo’ na luta”. Perguntamos o que ele acha do pensamento de que os manifestantes participam do ato somente porque o ônibus é “de graça”, e também se ele teria disposição de viajar quase duas horas em troca de um lanche. “Jamais, jamais, jamais. Saio por luta, para lutar pelos nossos direitos. Por conta própria. A pessoa [que diz isso] não sabe o que é a luta, porque é uma pessoa de berço. A gente que luta desde criança, batalha pra ter o seu espaço, sabe qual que é a realidade. Não estamos aqui pra lutar por pedaço de pão com mortadela. A gente tá lutando pelo nosso direito, que é a democracia”, salientou.

Também moradora da Vila Soma e partilhando da mesma opinião, Rosemeire Costa, que representa o MTST e a CUT (Central Única dos Trabalhadores), veio com a família e uma amiga. Ela conversou com a reportagem enquanto descansava da caminhada de quase oito quilômetros, comendo alguns biscoitos para recuperar as energias. “Trouxemos tudo de casa. Refrigerante, tudo”. A amiga complementou: “Comemos em casa”.

Foto: Sato do Brasil para os Jornalistas Livres

Foto: Sato do Brasil para os Jornalistas Livres

Nilton França, ajudante de pedreiro, veio da Ocupação Palestina, no bairro do Jangadeiro, próximo ao Jardim Ângela. Cearense, Nilton vive no estado de São Paulo há quase 30 anos e fez questão de comparecer para ajudar o movimento sem terra, que na opinião dele recebeu mais atenção nos governos da presidente Dilma e do ex-presidente Lula. “Só voto no PT, porque é o partido melhor que tem. Hoje não tá muito bom, mas melhor que se fossem os outros. Com os outros não podíamos comprar nada”. Para estar ali e provar a sua convicção política, ele pegou ônibus e Metrô, tudo pago por ele próprio. “Nunca tive auxílio nenhum do movimento. Tô aqui porque eu quero. É o povo mais ‘coisado’ que fala isso [sobre o pão com mortadela], né? Acham que fazemos isso por troco de pão, porque somos pobres. Nunca recebi. Paguei a passagem e vou pagar a de volta”.

Até mesmo as lideranças do movimento relataram a mesma iniciativa para participar do ato. Gabriel Simeone, professor e coordenador do MTST, nos indagou. “Se eu te falar que mal tenho dinheiro pra voltar pra casa você vai acreditar? É isso. Quando acabar [o ato], dá uma olhada na quantidade de gente que vai andar de volta até Pinheiros porque só tem dinheiro pra pegar o ônibus intermunicipal até a região de Taboão da Serra, e não consegue pagar o municipal. Você vai ver que as pessoas que estão aqui tão porque o projeto [de governo] que vai entrar vai contra o interesse popular e dos trabalhadores [referindo-se ao ajuste fiscal, uma das causas da manifestação]”.

Foto: Eduardo Nascimento para os Jornalistas Livres

Gabriel complementou explicando que, da parte do MTST, seria inviável qualquer tipo de “financiamento”. “É só você olhar pro padrão de vida das lideranças de todo mundo que é do movimento. Vai pagar como? Vai pagar o que? Vai pagar de onde? Não tem como pagar nada, estamos aqui tirando do bolso”. Quando questionado se já vira alguma vez – ao longo dos seus dez anos de militância – o “distribuidor de dinheiro das manifestações” que abordamos no início da reportagem, Gabriel reagiu com sarcasmo: “Queria muito ver (risos). Tô esperando. Procuro ansiosamente por esse maluco ai. Quando eu achar ele eu vou ser um cara mais feliz”, ressaltou.

Outro movimento presente em bom número no ato era a Intersindical. Conversamos com um dos seus representantes, Everton Vieira, que também é presidente do Psol (Partido Socialismo e Liberdade) do Guarujá, que fez uma análise semântica da expressão “pão com mortadela”. “A fala expressa o mais puro ódio de classes. Para eles [que usam a expressão], a classe trabalhadora não pode se organizar, não pode ter consciência de classes e lutar pelos seus direitos. Acham que esse direito é deles. Quando eles dizem que vimos até aqui por um pão com mortadela, querem dizer que recebemos algum dinheiro pra estar aqui, querem dizer que somos burros, que não estudamos e não temos condições de analisar a situação de lutar por nossos direitos”, detalhou.

Sobre a existência de auxílio financeiro, Everton foi enfático: “Não existe nenhum tipo de auxílio. Quem vem, vem por vontade própria. As centrais sindicais e a classe trabalhadora organizada juntam-se e racham todas as despesas. Vimos pra poder lutar, ninguém recebe diária ou cachê, nenhum dinheiro”. Perguntamos se poderíamos comprovar essa informação com outros membros da Intersindical e ele concordou: “Com certeza, fica à vontade. A resposta vai ser a mesma”, finalizou, retornando à frente da faixa do sindicato.

Seguimos com a missão. Primeiro, conversamos com Antonio Cordeiro, advogado e membro da Intersindical. “Tô aqui de livre e espontânea vontade para estar junto com os trabalhadores. Venho de Carapicuíba, de trem e Metrô, sozinho. Paguei meu transporte. Não conheço ninguém aqui que tenha recebido um centavo. Todos que estão aqui ao meu lado estão por livre e espontânea vontade. Nunca vi isso. Sou militante há mais de 30 anos. No campo da esquerda nunca vi esse tipo de procedimento, é um expediente usado pelo campo da direita em campanha”, pontuou.

Foto: Sato do Brasil para os Jornalistas Livres

Foto: Sato do Brasil para os Jornalistas Livres

É um expediente usado pelo campo da direita em campanha”. Praticamente com as mesmas palavras, Charles Marinho de Sousa, do Sindicato dos Químicos – filiado à Intersindical­ – opinou sobre a questão. Seu depoimento corroborou a versão da liderança da legenda de que não há ajuda financeira, mas sim – e tão somente – o uso do dinheiro do caixa do sindicato para pagar o ônibus vindo da cidade de Sumaré e também para ajudar na alimentação dos manifestantes. O que, na opinião dele, não representa qualquer problema nem pode ser confundido com a “compra” da presença das pessoas.

Milito desde a época do PT. Ajudei na fundação do PSOL em Sumaré. Vim de ônibus fretado do sindicato pra trazer a militância. O dinheiro vem do caixa do sindicato. Entendemos que o dinheiro é do trabalhador e precisa ser usado a favor dos trabalhadores, para luta. Temos isso aprovado em nosso congresso da classe trabalhadora. Não vejo problema nenhum. Como o militante vem pra cá e não pode tomar uma água, comer um lanche? Aliás, achamos injusto ele ter que tirar esse dinheiro do bolso, pois ele já é penalizado com transporte caro, salário baixo. Não tem nenhum dinheiro [na mão]. As pessoas vêm porque acreditam na luta”, concluiu.

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2 comentários:
  • Luta à sombra de um pão com morta…
    26 março 2016 at 6:25
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    […] Cinquenta reais ou um pão com mortadela. Esses são alguns dos “pagamentos” que os manifestantes de esquerda foram mais uma vez acusados de receber para, em troca, participarem do ato realizado na Avenida Paulista no último dia 18, contra o golpe e a favor da democracia. Os comentários surgiram com a veiculação de matérias antigas na internet – publicadas originalmente em 2015 e 2013 – que falavam de pessoas que transitavam com bolos de dinheiro nas mãos e distribuíam entre os presentes. Nesta quinta-feira (24), a Frente Povo Sem Medo liderou mais uma marcha que partiu do Largo da Batata, em Pinheiros, rumo à frente da TV Globo, nas proximidades do Brooklin. Cerca de 30 mil pessoas compareceram. Os Jornalistas …  […]

  • Marta ribeiro
    30 março 2016 at 14:56
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    Lamentável ouvir comentários que essas pessoas têm preço. Na verdade, achamos do outro aquilo que percebemos em nós, dizer isso é cruel, desumano. Não apoiar a igualdade social é um desvio de personalidade.. um estudo de caso!

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