Lula e as Cartas

Por Henrique Nunes

Assim como o fax, o telefone fixo e a tevê de tubo, as cartas escritas a punho agonizam diante da implacável transformação do mundo. Símbolo máximo da comunicação durante séculos, as mensagens de papel e tinta serviam aos mais variados anseios: um simples recado direcionado a alguém que nunca a recebeu, um tratado de paz assinado com as letras ainda trêmulas, uma desesperada súplica para reatar um caso desfeito.

Havia um certo tempo que não tínhamos notícias de cartas que estremecessem a vida de um povo. Mas, ao contrário do fax, do telefone fixo e da tevê de tubo, as cartas tiveram a sorte de contar com um improvável defensor, ironicamente um homem que tem na fala espontânea e certeira a sua maior arma para cativar as massas: Luiz Inácio Lula da Silva.

Como tudo na vida do homem que negligenciou os prognósticos e ousou chegar ao cargo máximo de uma nação, as cartas de Lula estão superando a razão que o levou ao cárcere político: silenciá-lo.

Pobre dos que acreditaram que um punhado de tijolo e concreto seria capaz de impedir um comunicador da estirpe de Lula de dialogar com o outro lado dos muros. Apenas um dia após ser conduzido ao isolamento, um bilhete direto e de poucas palavras mostrava a verdade que agora é incontestável: jamais iriam calar o presidente de maior aprovação popular que o Brasil já teve.

365 dias depois, o poder de Lula de se comunicar segue inabalável. De carta em carta, deu o seu parecer sobre futebol, a situação do país, os ataques sistemáticos contra ele e sua família, mandou abraços, consolou tragédias e, mais do que tudo, agradeceu o apoio incondicional dos milhões de Lulas que ainda podem usar a voz para defendê-lo nas ruas.

A nós, leitores indignados, fica a sensação de que Lula deveria agradecer por ainda poder escrever cartas. Mas a história certamente provará que são as cartas é que deveriam agradecer a Lula.

Que a próxima carta seja sobre a aguardada e merecida despedida do cárcere.

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Leia algumas cartas e bilhetes enviado por Lula:

Carta lida por Gleisi Hoffmann no acampamento Lula Livre, nove dias após sua prisão

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