Liberdade de imprensa? Onde?

Noam Chomsky fala sobre temas interditos ao falar, ao pensar, ao publicar

foto por Lina Marinelli

Sob o título “Os bispos brasileiros apoiam o plano para democratizar a mídia”, uma revista sul-americana ligada à igreja descreve uma proposta em debate na assembleia constituinte que “abriria a mídia poderosa e altamente concentrada do Brasil para a participação do cidadão”.
Noam Chomsky, em Necessary Illusions (1989)

Nessa palestra com a mídia alternativa, o professor Noam Chomsky abordou as características dos meios de comunicação hegemônicos dos países desenvolvidos, especialmente dos EUA e da Inglaterra, para, em seguida, deter-se sobre a imprensa da América Latina.
Ele contou que cerca de 30 anos após a publicação do livro a Revolução dos Bichos, de George Orwell, foi divulgada a introdução que esse autor tinha escrito, mas que tinha sido suprimida das publicações originais.
O livro é uma sátira ao inimigo totalitário, mas a introdução deixava um recado claro de que as pessoas livres da Inglaterra não deviam se vangloriar sobre a liberdade de imprensa, porque na Inglaterra ideias impopulares podiam ser suprimidas sem o uso da força.
Vejamos o parágrafo da introdução em que Orwell critica a imprensa inglesa:

Ideias impopulares podem ser silenciadas, e fatos inconvenientes mantidos obscuros, sem a necessidade de qualquer proibição oficial.
Qualquer um que tenha vivido muito tempo em um país estrangeiro saberá de casos de notícias sensacionalistas – coisas que por seus próprios méritos receberiam grandes manchetes – sendo mantidas fora da imprensa britânica, não porque o governo interveio, mas por causa de um acordo tácito geral que “não seria apropriado” mencionar esse fato em particular.
No que diz respeito aos jornais diários, isso é fácil de entender. A imprensa britânica é extremamente centralizada e a maior parte pertence a homens ricos que têm todos os motivos para serem desonestos em certos tópicos importantes.
Mas o mesmo tipo de censura velada também opera em livros e periódicos, bem como em peças de teatro, filmes e rádio.
A todo momento, há uma ortodoxia, um corpo de ideias,  que é assumido, todas as pessoas que pensam corretamente aceitarão sem questionar.
Não é exatamente proibido dizer isto, isso ou aquilo, mas não é “apropriado” dizê-lo, assim como nos tempos vitorianos não era “apropriado” mencionar calças na presença de uma dama.
Qualquer um que desafie a ortodoxia predominante se encontrará silenciado com surpreendente eficácia.
Uma opinião genuinamente fora de moda quase nunca recebe uma audiência justa, seja na imprensa popular ou nos periódicos intelectuais.

foto por Lina Marinelli

O professor Chomsky complementa Orwell:

Se olharmos de perto os meios de comunicação das sociedades livres, como os EUA, descobrimos que os pontos de Orwell são bastante bem evidenciados (…)
A grande mídia é composta por grandes empresas, frequentemente possuídas por corporações ainda maiores, que como outros negócios, têm um produto que vendem no mercado. O mercado é os anunciantes, ou seja, outras empresas. O produto é você. As pessoas que leem, que assistem na televisão. Então, a estrutura dos meios de comunicação é grandes empresas vendendo pessoas, consumidores, para outras empresas, anunciantes.
Bem, os vendedores e os compradores têm essencialmente os mesmos interesses. Bem óbvio quais interesses são. E desse ponto pode-se tirar algumas conclusões sobre o provável enquadramento de assuntos, escolha de assuntos e conteúdo da mídia (…)
Na verdade, devemos ir um passo adiante de Orwell. Você aprende, você internaliza o entendimento que há certas coisas que não é apropriado pensar, não somente dizer. Coisas que não devem nem passar pela sua cabeça. Isso é o que Gramsci chama de senso comum hegemônico.

Ele busca exemplos, no comportamento dos meios de comunicação nas invasões do Vietnã e do Iraque, que vão reforçar esse entendimento. Para ele, os dois piores crimes, cometidos após o final da Segunda Guerra Mundial, foram a invasão americana e a destruição da Indochina e a invasão americana e inglesa do Iraque.
As opiniões publicadas se dividiam, no final da guerra do Vietnã em 1975, entre aqueles, à direita, que julgavam que os EUA teriam ganho a guerra se tivessem usado mais força e lutado mais duramente e outros que consideravam justificada a entrada na guerra, “para fazer o bem”, mas que os EUA falharam.
Anthony Lewis, à esquerda, citado por Chomsky, afirmou em sua coluna de 1 de maio de 1975 no New York Times que a guerra estava terminada e que:

As primeiras decisões americanas sobre a Indochina podem ser consideradas como tentativas erradas de fazer o bem. Mas em 1969 ficou claro para a maior parte do mundo – e para a maioria dos americanos – que a intervenção fora um erro desastroso. Em vez de encarar essa verdade, Kissinger tentou evitá-la ampliando a guerra e depois retirando as forças de combate americanas sob a ilusão de que a “estabilidade” havia sido alcançada.

A interpretação do que afirma Lewis é que se os EUA tomaram a decisão de invadir o Vietnã era para fazer o bem. Por definição. É impossível pensar de outro modo. Ao mesmo tempo, a grande maioria da opinião pública, revelada por estudos sérios, julgava a guerra errada e imoral e não um erro. E isso nunca foi publicado. O professor Chomsky julga que esse resultado é marcante pois a opinião pública nunca leu ou ouviu da imprensa que a guerra era imoral. As pessoas chegaram a essa conclusão por si mesmos.
“Esse assunto nunca foi publicamente discutido. Exceto por pessoas bem à margem, como eu, que não chegam à mídia hegemônica”, afirma ele.

foto por Lina Marinelli

A invasão ao Iraque obteve enorme apoio no princípio, mas, quando as coisas se revelaram mais complicadas, as críticas começaram. Por exemplo com as críticas de Obama que do mesmo modo que o jornalista do New York Times aponta um erro estratégico e não uma ação errada e imoral:

Ao contrário do senador John McCain, opus-me à guerra no Iraque antes de começar e a terminaria como presidente. Eu acreditava que era um erro grave permitirmos nos distrair da luta contra a Al Qaeda e o Talibã ao invadir um país que não representava uma ameaça iminente e não tinha nada a ver com os ataques de 11 de setembro.

Passando à América Latina, Chomsky conta que foi chamado à Nicarágua para estudar um jornal local chamado La Prensa que era abertamente contra o governo sandinista e fazia campanha, sem nenhum escrúpulo, a favor dos ‘contra” apoiados pelo governo dos EUA. “Em qualquer país do ocidente, tal jornal seria, não somente eliminado, mas seus editores teriam sorte de ir para a prisão, pois mais provavelmente seriam colocados em frente a um pelotão de fuzilamento”. Em seu livro, Ilusões Necessárias de 1989, ele diz:

Nos anos 80, a Nicarágua tem sido bastante incomum na abertura de sua sociedade em tempos de crise. Jornalistas hostis, que não são mais do que agentes da grande potência que ataca a Nicarágua, viajam e fazem suas reportagens livremente por todo o país.
Autoridades amargamente anti-sandinistas dos EUA e outros defensores do ataque terrorista americano podem entrar e proferir discursos públicos e coletivas de imprensa, conclamando à derrubada do governo, e para se encontrar com a oposição política financiada pelos EUA, segmentos que declaram os mesmos objetivos e mal escondem seu apoio aos contras.
Os meios de comunicação nacionais que se identificam com o ataque contra a Nicarágua e servem a seus propósitos, e são financiados pela potência estrangeira que ataca o país, foram sujeitos a assédio, censura e suspensão periódica; mas nem eles, seus editores e funcionários, nem figuras da oposição com os mesmos compromissos enfrentaram qualquer coisa remotamente parecida com a repressão da mídia e dos dissidentes nas “democracias novatas” apoiadas pelos EUA.

Do mesmo modo, Chavez foi muito duramente condenado por ter reduzido o alcance da RCTV que apoiou o golpe militar em 2002. Questionado sobre crítica à Chavez, em 2007, Chomsky ponderou:

No entanto, permita-me dizer que concordo com a crítica ocidental em um aspecto crucial. Quando eles dizem que nada como isso poderia acontecer aqui, isso é correto.
Mas a razão, que não é declarada, é que se houvesse algo como a RCTV nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na Europa Ocidental, os donos e os gerentes teriam sido levados a julgamento e executados – nos Estados Unidos executados, na Europa enviados para a prisão permanentemente, em 2002.
Você não pode imaginar o New York Times ou a CBS News apoiando um golpe militar que derrubou o governo mesmo que por um dia.
A reação seria “enviá-los para um pelotão de fuzilamento”. Então, sim, não teria acontecido no ocidente porque nunca teria chegado tão longe.

Chomsky terminou seu encontro com a mídia alternativa apontando uma tendência geral de leniência dos governos de esquerda moderada com o golpismo da imprensa latino americana:

Em geral, todos os governos moderadamente de esquerda da América Latina permitiram o funcionamento da imprensa, o funcionamento da mídia. E a mídia é universalmente muito hostil a esse governos. Houve até mesmo casos em que a mídia apoiou ataques diretos contra o país, apoiou golpes militares e continuou a ser publicada sem ser extinta. Isso é um problema, claro, pois o que o governo fizer estará sob severo ataque universal no espectro permitido. No Ocidente isto nunca seria permitido. Isso é inconcebível nos países livres.

O Instituto Gallup, em 2013, resolveu perguntar qual era o país que mais ameaçava a país mundial, assinala Chomsky. O resultado da pesquisa nos EUA cravou Irã, Coréia e Rússia. Para pesquisados dos outros países os EUA eram a maior ameaça à paz mundial. Esse tema não foi discutido na grande imprensa do mundo desenvolvido. Tampouco por aqui.

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