Hoje eu quase fui agredida por um homem dentro do ônibus

Por Helena Zelic, colaboração para os Jornalistas Livres

Estava indo para o trabalho. Sentei na parte da frente para ter mais tempo no bilhete único. Um senhor já idoso estava conversando com a cobradora, e falava já várias coisas ofensivas para mulheres: falava mal de ruivas, de loiras, falava que não existe mulher feia depois de umas doses de álcool (e que foi assim que suportou beijar uma “negrinha”). A certa altura, defendendo a intervenção internacional no Brasil (!!), chamou a Dilma de vagabunda. Eu me levantei para girar a catraca e disse bem calma:

“Senhor, não chame a Dilma de vagabunda. Nenhuma mulher, nem mesmo a presidenta, deve ser chamada de vagabunda porque esse xingamento ofende todas as mulheres. O transporte é público e você não tem o direito de falar essas coisas aqui.”

Ele ficou puto, se levantou e pulou sobre mim, ficou muito perto mesmo, questão de milímetros. Disse, aos berros, que eu não entendia nada, que ele só estava falando da vagabunda da Dilma e não de todas as mulheres, que ele tinha sido preso na ditadura e tinha o direito de agir como quisesse e me ameaçou. Ali, com o corpo a milímetros do meu, disse que se eu falasse mais alguma coisa, ELE IRIA ME ENFORCAR DENTRO DO ÔNIBUS.

Eu dizia que ele não iria encostar a mão em mim; ele vinha mais pra cima, morrendo de ódio. Qualquer coisa horrível podia ter acontecido se uma mulher (claro, uma mulher!) não tivesse entrado no meio, parado ele, gritando para ele me deixar em paz, e reforçando que chamar a Dilma e qualquer outra mulher de vagabunda é errado sim. Ela me protegeu enquanto eu passava a catraca e ele, do outro lado, gritava para o ônibus inteiro ouvir que eu, se defendo a Dilma, sou vagabunda também, que sou uma cretina, que sou loira (!!!) e que falo tanta merda que deveria enfiar um penico na cabeça. Isso tudo depois de ter me ameaçado enforcamento. Eu ia respondendo como dava, sem xingamentos, sem apelação, com algumas mulheres ao meu redor.

Ele desceu no ponto seguinte e a sorte é que o ônibus estava cheio de mulheres, que então passaram o resto do caminho falando que sim, ele estava ofendendo as mulheres há muito tempo, que era um homem muito violento, que não se deve chamar de vagabunda porque nos ofende sim, e ainda rindo muito porque ele me xingou de loira. Uma delas disse “se meu marido estivesse aqui, já teria acabado com ele”, e eu respondi que não precisava, que as mulheres juntas davam seus jeitos.

Ainda aproveitei e falei “tá vendo, gente, é por isso que a gente precisa do feminismo”. As mulheres do meu lado falaram que sim, precisamos mesmo.

O ódio misógino assusta e não tenho vergonha de dizer que tremi muito de medo. Mas quando tem mulheres por perto pra nos proteger, garantir que a gente não vá se machucar, fica bem mais fácil. Fica bem mais fácil não se manter em silêncio quando outras mulheres estão por perto.

É por essas e outras que a gente costuma dizer que seguiremos em marcha até que todas sejamos livres. Porque esse mundo, com homens violentos assim, não dá para nenhuma mulher. E precisa mudar.

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