Hoje devia ser feriado nacional

Por Luiz Weis, especial para Jornalistas Livres

Foto: Luis Macedo/ Câmara dos Deputados

Os motivos que levam um parlamentar a votar a favor ou contra um projeto — quando o comando da bancada não “fecha questão” em torno da matéria, deixando os seus membros livres para decidir como queiram — geralmente se resumem a uma mistura de convicções, fidelidade a acordos políticos e interesses.

Para o público, essa última palavra é a Geni do sistema. O interesse é tido por definição como espúrio, ilegítimo, imoral — suprema traição do eleito aos seus eleitores. Mas isso não é necessariamente verdadeiro. Como não é verdade que os interesses que nos movem a todos em todas as esferas da vida sejam indignos e ofensivos ao ideal da integridade que deve pautar os atos dos seres decentes.

De mais a mais, condenar os políticos à lapidação por violação contumaz da ética pode ser conveniente para ocultar os nossos próprios cadáveres — os pecadilhos que vamos acumulando ao longo do tempo por força do que os romanos chamavam com sabedoria e resignação ipsa humana natura.

Só que o desprezo e a repulsa que muita gente, em quase toda parte, sente pelos que, em vez de representar quem os elegeu, servem aos interesses entrelaçados com o seu sucesso, é tão fútil como tentar ler jornal contra o vento.

É assim que a democracia parlamentar funciona — misturando sujeira e limpeza em proporções difíceis de determinar de antemão.

Mas tem o raro dia em que o interesse dos políticos e o interesse da sociedade convergem. Foi o que aconteceu na terça à noite no plenário da Câmara, quando 267 deputados (ante 210) abateram a escabrosa proposta concebida pelo vice de Dilma, Michel Temer, e apoiada com entusiasmo pelo presidente da Casa, o até então invicto Eduardo Cunha, do PMDB do Rio: o chamado “distritão” para a eleição de deputados e vereadores.

O projeto equipararia essas votações àquelas para prefeito, governador e presidente, em que o voto dado a um candidato de nada valeria se não ajudasse a elegê-lo. No sistema proporcional em vigor no país desde 1946, o voto individual serve também para ajudar o partido ou a coligação do dito cujo a conquistar assentos nas câmaras e assembleias — mesmo que ele pessoalmente não chegue lá.

O sistema tem um defeito grave. Permite que o voto dado ao candidato A do partido X acabe elegendo o candidato B do partido Y a ele coligado. É o que dá sobrevida aos nanicos, que vendem aos maiores o tempo de que dispõem no horário eleitoral — pouco, mas nem por isso menos precioso — em troca de lugares na chapa comum.

Perto do distritão, porém, é uma beleza. Na perversão da democracia imaginada pela dupla Temer&Cunha, as 70 vagas para a Câmara federal a que o Estado de São Paulo tem direito, seriam preenchidas pelos 70 candidatos mais votados, fossem quais fossem as siglas a que estivessem filiados. E estas seriam induzidas a “contratar” radialistas, celebridades e outras figuras de destaque na chamada cultura de massa para entrar com presumível vantagem nas disputas distrito a distrito.

Eduardo Cunha Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Não há notícia de que algum cientista político brasileiro tenha manifestado apoio à enormidade. Ao contrário, os mais respeitados entre eles assinaram um documento de alerta para o desastre que representaria a sua adoção.

Quem quiser encontrar um motivo para explicar cada um dos 267 votos que salvaram o país do que seria o maior retrocesso político desde a ditadura militar de 1964–1985 vai acabar encontrando mais motivos do que é capaz de segurar nas mãos.

Mas o que decidiu a parada, pode-se apostar, foi o interesse da maioria de suas excelências. Políticos são essencialmente seres que calculam. A cada votação importante, se não forem tolhidos pelo “fechamento da questão” pesam os pros e contras para as suas carreiras se a proposta na ordem do dia prevalecer ou cair no processo.

No caso do distritão, a maioria entendeu que a aprovação do monstrengo seria ruim para os partidos pelos quais se elegeram e para suas chances pessoais de longevidade política.

E assim se deu que o que eles entenderam ser vantajoso para si mesmos coincidiu com que é vantajoso para o país. Isso é tão bom e tão infrequente que hoje devia ser feriado nacional.

Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Luiz Weis é jornalista

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