Haddad deixa de escrever para Folha de São Paulo

E no momento que finalmente se abre a porta para a justiça se restabelecer para Lula e restaurar os seus direitos políticos, que o jornal age da maneira que agiu. E um aviso das movimentações subterrâneas contra a volta de Lula. E bom que as ilusões com a velha mídia diminuam e a esquerda aposte mais nas mídias alternativas.
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Haddad se despedindo da Folha de São Paulo mostra os limites da esquerda dentro da velha mídia. A grande mídia é controlada pelos rentistas e estes impõem a eles a sua pauta como o golpe de 2016 e conseqüente destruição de direitos  através da  ditas “reformas”  trabalhista e  da previdência. Mas no que se refere à liberdade e restituição dos direitos políticos de Lula, apóiam a manutenção da injustiça contra um homem o que ameaça a milhares de brasileiro(a)s.

A trajetória do autoritarismo e da lava Jato mostrou que ontem foi contra Lula e amanhã será contra qualquer um que se opuser ao poder instituído. Um dos pilares da democracia é uma justiça séria e que não persiga as pessoas por suas opiniões e ideologias.

E no momento que finalmente se abre a porta para a justiça se restabelecer para Lula e restaurar os seus direitos políticos,  que o jornal age da maneira que agiu. E um aviso das movimentações subterrâneas contra a volta de Lula. E bom que as ilusões com a velha mídia diminuam e a esquerda aposte mais nas mídias alternativas.

Carta de Fernando Haddad despedindo da Folha de São Paulo onde tinha uma coluna semanal aos sábados

Despedida

O jornal tem méritos que não desconsidero, mas não vejo como manter uma colaboração permanente com este veículo

Agradeço ao leitor a consideração que me tenha dispensado. Procurei ser o mais zeloso possível ao ocupar este espaço, trazendo à sua consideração um ponto de vista menos paroquial sobre assuntos de interesse nacional.

Quando fui convidado para ser colunista da Folha, relutei em aceitar. Na época, me incomodava o posicionamento do jornal no segundo turno das eleições de 2018.

Pareceu-me uma falsificação inaceitável um órgão de imprensa que apoiou o golpe militar de 1964 equiparar, em editorial, um professor de teoria democrática a uma aberração saída dos porões da ditadura. Àquela altura, a Folha já sabia que a família Bolsonaro era autoritária e corrupta, mas entendia que a agenda econômica neoliberal de Paulo Guedes compensaria o risco. Teria sido mais correto assumir isso publicamente.

Aceitei o convite, no entanto, porque intuía que o governo Bolsonaro traria graves consequências ao país, o que exigia da parte de todos uma disposição ainda maior ao diálogo.

Na semana passada, ocorreu um episódio insólito. Uma jornalista sugeriu, em artigo publicado no Estadão, que o STF mantivesse a condenação de Lula e desconsiderasse as provas de parcialidade de Moro. E por quê? Para evitar que Lula seja candidato em 2022, o que, supostamente, favoreceria a candidatura de Bolsonaro. Reagi, nas redes sociais, afirmando que, diante de tanta infâmia e covardia, restava ao PT reafirmar os argumentos da defesa de Lula e relançá-lo à Presidência.

Em editorial, segunda-feira (4/1), este jornal resolveu me atacar de maneira rebaixada. Incapaz de perceber na minha atitude a defesa do Estado de Direito, interpretou-a como tentativa oportunista de eu próprio obter nova chance de disputar a eleição presidencial, ou seja, que seria um gesto motivado por interesse pessoal mesquinho. Simplesmente desconsiderou que, nos últimos dois anos, em todas as oportunidades, inclusive em entrevista recente ao jornal, defendi sempre a mesma posição, qual seja, a precedência da candidatura de Lula.

Ao me desqualificar mais uma vez, inclusive com expediente discursivo desrespeitoso, ao estilo bolsonarista, esta Folha demonstra pouca compreensão com gestos de aproximação e sacrifica as bases de urbanidade que o pluralismo exige. Infelizmente, constato que, nos momentos decisivos, a Folha, em lugar de discutir ideias, prefere agredir pessoas de forma estúpida.

O jornal tem méritos que não desconsidero, mas não vejo como manter uma colaboração permanente com este veículo.

Por fim, a julgar pelo histórico dos políticos que a Folha veladamente tem apoiado, penso que ela deveria redobrar os cuidados antes de pretender deslegitimar alguém.

Haddad em ato na Av. Paulista em 2019 Foto Lucas Martins / Jornalistas Livres

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