Conecte-se conosco

Grupo de palmeirenses critica presença de Bolsonaro em festa do decacampeonato

Publicadoo

em

Carta aberta contra a presença de Jair Bolsonaro na festa do decacampeonato do Palmeiras

São Paulo, 5 de dezembro de 2018

O grupo USParmera, coletivo de torcedores da Sociedade Esportiva Palmeiras formado por alunos, ex-alunos, funcionários e professores da Universidade de São Paulo, vem a público manifestar o nosso repúdio à presença de Jair Bolsonaro durante a cerimônia de entrega da taça do Campeonato Brasileiro 2018 aos atletas do Palmeiras no estádio Allianz Parque.

Por meio desta, solicitamos ainda a imediata investigação da conduta do presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras, Maurício Precivalle Galiotte, dentro das instâncias internas do clube por utilizar a imagem da instituição como veículo para manifestar suas posições político-partidárias pessoais e por convidar para erguer a taça desta conquista histórica uma figura que jamais demonstrou ser palmeirense de fato.

As imagens da tarde de 2 de dezembro de 2018 entrarão para a história da Sociedade Esportiva Palmeiras como um momento de infâmia. Ocasião em que o clube, por meio da diretoria comandada pelo presidente Maurício Galiotte, se curvou diante de um dos mais nocivos políticos da história republicana brasileira. O dia em que a Sociedade Esportiva Palmeiras desrespeitou sua história e ofendeu milhões de seus torcedores.

Jair Bolsonaro comemora decacampeonato do Palmeiras (Reprodução Facebook)

A Sociedade Esportiva Palmeiras é uma instituição centenária composta por mais de 16 milhões de torcedores de diferentes raças, credos, etnias e ideologias. Uma instituição historicamente apartidária e que defende os valores democráticos e humanos desde a sua fundação em 1914.

Aqui não está em questão o cargo que Jair Bolsonaro ocupará a partir de 2019, mas sim o que ele representa. Ao longo de toda a sua trajetória política, Bolsonaro destila um discurso de ódio e reiteradamente ofende mulheres, negros, a comunidade LGBT e partidários da esquerda – muitos destes palmeirenses -, pregando até mesmo a prisão e o exílio de seus opositores.

Ao convidar Bolsonaro para o camarote do clube e para a festa do histórico decacampeonato em campo, Maurício Galiotte não apenas concedeu a maior honraria de um clube de futebol – erguer a taça de um campeonato e dar a volta olímpica – a um dos políticos mais autoritários e retrógrados do país, como também ofendeu uma enorme parte de sua torcida, associando indelevelmente a imagem desta conquista e do clube aos valores preconceituosos e antidemocráticos que Jair Bolsonaro prega. Um ideário incompatível com a origem e a história da Sociedade Esportiva Palmeiras.

Para tanto, vamos relembrar algumas frases do – segundo o presidente Maurício Galiotte – “grande palmeirense” Jair Bolsonaro:

– “O erro da ditadura foi torturar e não matar” (entrevista à rádio Jovem Pan, junho de 2016).

– “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre” (comício em Rio Branco, setembro de 2018).

– “Eu fui num quilombo em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais” (palestra no Clube Hebraica, abril de 2017).

– “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.” (entrevista à revista Playboy, 2011)

– “Eu não empregaria (uma mulher) com o mesmo salário (entrevista à TV, 2011)

– “Jamais iria estuprar você, porque você não merece” (à deputada Maria do Rosário que também foi chamada de “vagabunda”, 2003)

– “A escória do mundo está chegando ao Brasil” (sobre a vinda de imigrantes e refugiados haitianos, senegaleses e bolivianos ao país, entrevista ao Jornal Opção, setembro de 2015)

– “As minorias têm que se curvar para as maiorias” (encontro na Paraíba, fevereiro de 2017).

Pois bem, senhor Maurício Galiotte. A Sociedade Esportiva Palmeiras já foi uma minoria. Seus torcedores já foram considerados a “escória do mundo”. Ao ser fundado em 1914, o então Palestra Itália era um clube de futebol formado por operários e imigrantes italianos, minorias que tiveram de enfrentar os preconceitos da época para criar uma agremiação esportiva que os acolhesse. Um clube que, posteriormente, foi obrigado a mudar de nome por um governo de caráter fascista e cujos torcedores foram acusados pela imprensa paulista e por torcedores rivais de serem traidores da pátria.

Mas nós não nos curvamos às maiorias. Pelo contrário. Com lutas e sacrifícios, nos transformamos numa instituição centenária que se estende por todo o país e que abraça todos os brasileiros independentemente de suas origens, crenças ou ideologias.

Desta forma, ao ver Jair Bolsonaro erguendo a taça histórica do decacampeonato, milhões de torcedores do Palmeiras, que não elegeram esse político e já foram sistematicamente ofendidos e agredidos por suas palavras, se sentiram não apenas decepcionados, mas traídos pelo time de coração. Nem mesmo os atletas passaram incólumes a essa vergonha. Fernando Prass, um dos maiores ídolos recentes da história do Palmeiras, estava visivelmente desconfortável com a presença do capitão reformado na cerimônia de entrega da taça.

Nos últimos dias, temos presenciado milhares de depoimentos nas redes sociais de torcedores revoltados com a atitude da atual diretoria da SEP. Muitos cancelaram o Avanti e não se sentem mais bem-vindos ao estádio Allianz Parque. Outros não se veem mais representados pelos valores do clube ou tem receio de sair às ruas com a camisa do Palmeiras e serem associados às ideias racistas e homofóbicas de Jair Bolsonaro. Alguns falam até em deixar de torcer para o time que aprenderam a amar desde crianças.

Porque um clube de futebol é mais do que títulos, taças, ídolos, glórias e sua história. É também um conjunto de princípios. Um ideário com o qual o torcedor aprendeu a se identificar. E no Palmeiras estes valores sempre foram humanos e democráticos. E se não somos mais um clube que acolhe todos os seus torcedores sem divisões ou distinções, então não somos nada. Não somos uma sociedade esportiva. Seremos apenas um clube de futebol movido pelo discurso de ódio e governado por interesses subterrâneos.

A atitude inconsequente do presidente Maurício Galiotte teve ainda a capacidade de criar a divisão e a cizânia entre os torcedores do próprio clube. Porque se é verdade que muitos no estádio aplaudiram Jair Bolsonaro, outros milhares o vaiaram. E estes foram ameaçados de agressões pela outra parte da torcida, tornando a nossa casa um ambiente inseguro para aqueles que repudiam a figura de Jair Bolsonaro.

Este é o grande legado da ação irresponsável de Maurício Galiotte. Dividir a sua torcida e fazer o palmeirense sentir vergonha e repensar o amor que sente pelo seu clube de coração.

Ademais, o que credenciou o capitão reformado a levantar a taça do decacampeonato? O fato de ser um “grande palmeirense”, como apregoa o mandatário Maurício Galiotte?

Não conhecemos grandes palmeirenses que vestem as camisas de Vasco, Flamengo, Botafogo, Sport ou qualquer outro time de acordo com sua conveniência política. Não reconhecemos torcedor do Palmeiras que entoa cântico de apoio ao seu maior rival. Palmeirense que se preze, presidente Galiotte, não grita “vai, Corinthians”.

Aliás, onde estava Bolsonaro quando o clube disputava a série B ou lutava contra o rebaixamento? Ou mesmo nos jogos do time no Rio de Janeiro, cidade onde o ex-capitão reside? Não, Bolsonaro não é um “grande palmeirense”, mas apenas um político oportunista que só aparece quando o clube vence e tenta roubar para si suas glórias.

Grupo USParmera

Por fim, conclamamos os conselheiros da Sociedade Esportiva Palmeiras que se levantem contra este vergonhoso episódio e abram uma imediata investigação para apurar a conduta do presidente Maurício Precivalle Galiotte dentro das instâncias do clube.
Dizer que a presença em campo do capitão reformado foi obra da CBF é jogar uma cortina de fumaça sobre o fato de que foi o próprio presidente Maurício Galiotte quem convidou o político para o seu camarote e, posteriormente, o chamou para erguer consigo a taça do Campeonato Brasileiro de 2018 e para dar a volta olímpica ao lado dos atletas.

De nossa parte, não vemos mais condições para Maurício Precivalle Galiotte ocupar a presidência da Sociedade Esportiva Palmeiras. Trata-se de outro político oportunista que não compreende a liturgia do cargo que ocupa e coloca suas preferências pessoais e partidárias acima dos torcedores e dos interesses da instituição que comanda. Um dirigente que não zela pela história do clube e manchou para sempre as imagens da comemoração do nosso décimo título do Campeonato Brasileiro. O presidente do Palmeiras deve governar para todos os seus torcedores e não apenas para alguns.

E a todos os palmeirenses que se sentiram envergonhados e ultrajados pelo episódio de 2 de dezembro de 2018. Não nos deixemos curvar diante desta mácula em nossa história. O Palmeiras jamais será plataforma para políticos oportunistas, muito menos para aqueles que desrespeitam a nossa história e agridem a nossa torcida. Não permitiremos que o nosso clube seja sequestrado pelos valores nocivos defendidos por Jair Bolsonaro e pela atual diretoria do clube. O Palmeiras é maior do que todos eles. O Palmeiras é de todos nós.

Grupo USParmera

Continue Lendo
Click para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

Publicadoo

em

Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

Continue Lendo

Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

Publicadoo

em

O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

Continue Lendo

Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Publicadoo

em

O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

Continue Lendo

Trending