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Eu Sou A Próxima: como morrem as mulheres lésbicas no Brasil

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Por Martha Raquel Rodrigues e Marina Azambuja

Mulher preta, periférica, mãe e lésbica que não performava feminilidade – que não era feminina. Luana Barbosa era moradora da periferia de Ribeirão Preto, tinha 34 anos e seu assassinado foi o estopim para a criação de um grupo de mulheres em São Paulo. Em memória de todas as mulheres pretas e lésbicas mortas, a Coletiva Luana Barbosa se organiza realizando debates e atividades que discutam as especificidades de quem sofre racismo, lesbofobia e misoginia.

Em repúdio ao preconceito cotidiano da sociedade brasileira, nove jovens paulistanas produziram o documentário “Eu sou a Próxima”, que narra em primeira pessoa o ataque lesbofóbico contra algumas mulheres que morreram em 2016. Os fortes depoimentos também denunciam a negligência do Estado e da mídia que não se manifestam em defesa dessas vítimas, mas que adultera os fatos, colocando-as como culpadas de sua própria morte. O curta de aproximadamente 30 minutos foi lançado no dia 13 de abril de 2017, um ano após a morte de Luana Barbosa, no espaço Ação Educativa, em São Paulo.

“…nosso orçamento foi muita força de vontade, alguns pacotes de macarrão, molho de tomate e nenhum dinheiro.”

Qualquer mulher lésbica pode ser a próxima

A estréia contou com fortes declarações de violência do público presente. “Se você quer ser tratada como uma mulher, se vista como uma”, disse uma mulher ao relembrar o comportamento de um Policial Militar enquanto a revistava na frente de sua casa. “Hoje tenho uma cicatriz e essa marca será cobrada”, disse uma menina que se levantou para contar sobre a marca de uma mordida que sofreu no seio enquanto defendia sua namorada da intolerância machista na rua.

O grupo Levante Mulher, numa intervenção artística, cantou e representou a relação vivida por duas mulheres, destacando o preconceito e a violência sofrida por quem se recusa esconder o amor.

Nenhuma Luana a menos

Luana Barbosa dos Reis Santos foi espancada por três policiais militares, Douglas Luiz de Paula, Fábio Donizeti Pultz e André Donizeti Camilo. Enquanto levava o filho até a escola de informática, Luana e o garoto pararam em um bar, no mesmo bairro onde moravam, para cumprimentar alguns amigos. De repente, os três policiais desceram de uma viatura, revistaram Luana e, de maneira truculenta, a imobilizaram e despiram sua blusa. Ao perceber que seus direitos estavam sendo violados, a vítima disse que seria revistada, mas com a condição que fossem policiais femininas. A resposta veio em seguida: pancadas com o cassetete, chutes e socos machucaram o corpo e as ameaças de ter a família massacrada, inclusive seu filho, perturbaram a mente da jovem mãe preta, lésbica e periférica. O episódio cruel foi presenciado por toda a comunidade e por seus familiares que, desesperadamente, imploravam para que Luana fosse liberada, enquanto um PM atirava para o alto e a acusava de agressão.

Logo após a pancadaria, Luana foi levada para a Delegacia ao invés de um Pronto Socorro. Os hematomas que marcaram o rosto da vítima a acompanharam até o dia de sua morte – 5 dias depois. Quando finalmente conseguiu chegar ao Hospital, Luana foi tratada como a agressora da situação e não recebeu o atendimento médico digno durante que ficou internada na UTI. As  profundas lesões a levaram a morte por Esquemia Cerebral ocasionada pelo Traumatismo Craniano Encefálico que sofreu durante o espancamento.

Lesbofobia

As violências sofridas por mulheres lésbicas recebem o nome de Lesbofobia porque caracterizam a junção das violências sofridas por gênero e sexualidade. No Brasil não há nenhum levantamento sobre crimes lesbofobicos, primeiro porque não há uma diferenciação entre lesbofobia e homofobia, e segundo porque não existe uma tipificação para crimes de violência por sexualidade – estes crimes são tratados por “crime de ódio”.

Feminicídio e Racismo

Enquanto o índice de feminicídio diminuiu 9,8% entre as mulheres brancas em 10 anos, o de mulheres negras teve o incremento expressivo de 54,2%. Em 2003 foram 1.864 feminicídios de mulheres negras, 2.875, em 2013. Os dados são do Mapa da Violência 2015, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). Jurema Werneck, integrante da ONG Criola, médica e Doutora em Comunicação e Cultura pontua “Na morte a gente se iguala, mulher negra morta e mulher branca são iguaizinhas. Mas os processos são diferentes, o tamanho do desvalor que uma mulher negra experimenta, nenhuma mulher branca experimenta. As políticas não foram feitas de acordo com as nossas necessidades, os processos de prevenção e reparação não são iguais. Então, tirando o fato de estarmos iguais quando somos um corpo morto, em todo o resto é diferente.”

Segundo o balanço do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher de 2015, 58,86% das mulheres vítimas de violência doméstica são negras. O Caderno de Saúde Pública da Fiocruz de 2014 revela que mulheres negras são 65,9 % das vítimas de violência obstétrica e chegam a 53,6 das vítimas de mortalidade materna, segundo o Ministério da Saúde (2015). Mulheres negras têm duas vezes mais chances de serem assassinadas do que mulheres brancas e chegam a representar 68,8% das mulheres mortas por agressão, segundo o Ministério da Justiça (2015). Dados do Dossiê da Mulher RJ (isp/2015) também mostram que 56,8% das vítimas de estupros registrados no estado do Rio de Janeiro são mulheres negras.

PING-PONG: COLETIVA LUANA BARBOSA

Como surgiu a Coletiva?

A Coletiva Luana Barbosa nasceu de um Grupo de Trabalho (GT das Pretas) da Caminhada de mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo em 2016. Também em Abril de 2016 ocorreu a morte de Luana Barbosa dos Reis (negra, lésbica, periférica e mãe) nos deixando muito chocadas e sentidas. Após o acontecimento da caminhada decidimos formar uma coletiva por termos afinidades e semelhanças nas nossas vivências. Temos em comum a garra e a vontade de lutar, durante o processo de construção da caminhada realizamos atividades que aconteciam simultaneamente as ações promovidas pelo organizativo. Para que a Luana nunca seja esquecida demos o nome dela a Coletiva. Somos em nove mulheres, sendo 8 lésbicas e 1 bissexual. Todas negras e/ou indígenas. Todas periféricas e duas Mães. A coletiva realiza rodas de conversas temáticas sobre os mais diversos assuntos, tais como: relacionamento abusivos violência contra a mulher, redução de danos, solidão da mulher negra, saúde da mulher LB, etc, assim como outras atividades e todas possuem espaço para as crianças. O assunto se dá de acordo com a necessidade e demanda que vai surgindo. Produzimos uma festa chamada Sarrada no Brejo, que inicialmente foi uma proposta pensada para a caminhada. Atualmente a festa acontece apenas na grande São Paulo mas devido ao grande número de manas que se deslocam do interior, de outros estados e também pelos pedidos recebidos em nossa página, estamos sondando possibilidades de produzirmos a festa em outros estados, algumas negociações já estão sendo feitas para essa demanda. O ponto alto de nossos eventos é a Creche, essa ação proporciona que as mamães que frequentem tanto as festas quanto as outras atividades.

Fundadoras da Coletiva Luana Barbosa (arquivo pessoal)

Como surgiu a ideia do documentário? Quanto tempo levou pra ser feito?

No final de 2016, fizemos um levantamento de quantas mulheres foram assassinadas ou sofreram agressões devido a lesbofobia e sempre nos questionamos como nós, lésbicas, e nossas urgências são invisibilizadas inclusive no meio GBT. Como não queríamos que estas mortes caíssem no esquecimento, neste um ano de convivências, ouvindo outras mulheres nas nossas atividades, percebemos o quanto precisamos falar sobre lesbofobia em todos os espaços, e pensamos em fazer uma campanha na internet com vídeos curtos denunciando a Lesbofobia e suas consequência, quebrar o silêncio desta violência tão naturalizada. Mas quando vivos ele se tornou um documentário baseado principalmente em nossas vivências nossas dores e nossas pesquisas.  Durante estas pesquisas percebemos como não existem muitos registros da história da luta de mulheres lésbicas e esta constatação nos deu coragem para transformar uma simples ideia de conscientização em uma memória contundente, denunciando de forma realista a Lesbofobia e que nós lésbicas existimos e não queremos que mais nenhuma de nós morra. Tudo foi gravado em primeira pessoa.

Quantas pessoas estiveram envolvidas?

As pessoas envolvidas na produção deste documentário somos nós, da Coletiva Luana Barbosa, e a Fotógrafa e futura cineasta, Taynara Bruni, mulher negra lésbica. Sem a colaboração dela na parte técnica – como captar as imagens e editar – não seria possível tirar este sonho do papel. O roteiro e todo o trabalho se deu de forma colaborativa e nosso orçamento foi muita força de vontade, alguns pacotes de macarrão, molho de tomate e nenhum dinheiro.

O documentário estará disponível na internet?

Queremos mostrar o documentário e sentir de perto as reações a ele. Por enquanto esse é o plano. Além do lançamento do dia 13, no dia 15 o documentário foi exibido um evento Lésbofeminista no Rio de Janeiro.

 

 

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2 Comments

2 Comments

  1. Pingback: Eu Sou A Próxima: como morrem as mulheres lésbicas no Brasil | Jornalistas Livres | METAMORFASE

  2. JOSE OLIVER FAUSTINO BARREIRA

    09/08/18 at 21:39

    Por favor, onde encontro o documentário de vocês?

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Geral

Escudo das Américas

De Serra pelada ao narcogarimpo continental. Prometem combater o crime_ Mas quem fica no controle?

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Narcogarimpo. Já ouviu falar? Comércio de ouro, de fachada, pra lavar o dinheiro sujo do narcotráfico. O que pouca gente sabe, quase ninguém, é que o narcogarimpo começou em 1981, lá em Serra Pelada. Com gente chegando de tudo quanto era canto, o regime militar logo enviou um interventor federal pra botar ordem na bagunça, o famigerado Major Curió. E ele botou. Proibiu a entrada de crianças, mulheres, armas, bebidas. Na cava, naquele buracão aberto, o formigueiro humano. Não no Trinta, como ficou conhecido o vilarejo pra onde a balbúrdia toda migrou, lá do ladinho, criado só pra isso: institucionalizar a balbúrdia. Lá, aí sim, era tudo liberado. Criança, arma, cachorro, whisky falsificado, ouro ilegal, consumo e tráfico de cocaína, festinha do Vorcaro. O sucesso do narcogarimpo foi tão grande que o vilarejo acabou virando cidade e a cidade foi batizada em homenagem ao seu maior protetor e patrono: Curionópolis. Pois é. O narcogarimpo nasceu junto com a narcomilícia. Mas, hoje, eles juram de pés juntos que querem criar um Escudo das Américas pra te proteger. Confia.

Procura-se: Fabrício Queiroz. Lembra dele? Mais conhecido como o pivô assumido(1) do esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Tava caladinho até dia desses, e agora resolveu aparecer todo pimpão falando que “já se movimenta”, dando como certa a vitória do patrãozinho(2). Prefiro nem imaginar o Queiroz se movimentando, a tirar pelo Bolsonaro Pai fazendo flexão, Deus me livre. Mas será que ele tá se movimentando sozinho? Ou será que tá se movimentando com os mesmos cúmplices de sempre, só esperando pra transformar o país num narcorrachadão?

Adriano da Nóbrega, Ronnie Lessa, Peixe, tudo piaba, peixinho, não, nem tô falando desses, não. Tô falando de peixe grande tipo o Alessandro Pitombeira Carracena, que só anda com gente importante, só tubarão, gosta só de coisa chique, palavra chique. Tipo cúmplice. Bonito de falar, né, cúmplice. Cúmplice do Comando Vermelho, ele. Sabe? Aquele clubinho de biriba, domingo de sol no parque. O Carracena era secretário de Esportes e de Defesa do Consumidor do Cláudio Castro, com acesso a dados policiais ultra sigilosos, quando foi preso por vazar esses dados sobre operações da polícia na Maré, no Alemão(3). A Polícia Federal descreveu o Carracena como “verdadeiro integrante” do CV, que transcendeu os limites do exercício lícito da advocacia(4). Gente finíssima, da melhor qualidade, o Carracena. Grande biribeiro. E adivinha quem foi que indicou ele pro Cláudio Castro? O Queiroz, tu diz? Não, não foi o Queiroz, não. Foi o Flávio. Ele mesmo. O Bolsonaro(5).

Mas, calma, que ainda nem começou. O papel do Carracena nesse esquema com o Comando Vermelho(6) era só complementar, ele era o X9 da turma, quem entregava as cabeças dos policiais honestos, bucha de canhão, numa bandeja pros traficantes. Quem fazia a articulação política e financeira do esquema era o TH Joias. Era o Joias quem, segundo o Ministério Público do Rio, intermediava a compra de armamento pesado, drogas e dispositivos antidrones pros blindados do Comando Vermelho. Agora, adivinha de quem o TH Joias era aliado de primeira hora? Pois é. Do Flávio. Aquele. O Bolsonaro(7).

O contato direto do Joias dentro do CV, conforme foi descoberto na Operação Zargun, da Polícia Federal, era o Gabriel Dias de Oliveira, mais conhecido como Índio do Lixão, assessor parlamentar do TH(8) e com quem o Joias negociava o comércio de armas, maconha, cocaína, cinco milhões de reais convertidos em dólares pro CV(9). Olha que lindo esse videozinho que o Índio do Lixão recebeu do TH Joias, duzentos quilos de maconha(10). Faltou a selfie com joinha, tudo bem, mas um belo vídeo mesmo assim. Didático, parabéns. Uma pena não ter videozinho também dos cento e quarenta e oito quilos de cocaína que o TH teria negociado com o Pezão(11). Não, aquele Pezão, não. O Luciano Martiniano da Silva, esse Pezão(12). Quem tava acima de todo mundo no bando, “no topo da estrutura”, segundo o Ministério Público Federal.

Resumindo, pra ficar facinho de entender: o Carracena e o Joias formavam o “núcleo de liderança política” do esquema, beleza? E os dois tavam “sob a supervisão dele”, do Pezão(13). Entendeu? O cara que o Flávio, o Bolsonaro, indicou pra secretário do Castro e o aliado de primeira hora do Flávio, o Bolsonaro, eram subalternos do Pezão, o cara que traficava armas do Paraguai(14), drones e equipamento antidrone da China(15), cocaína do… Resumindo, pra ficar facinho de entender: o Carracena e o Joias formavam o “núcleo de liderança política” do esquema, beleza? E os dois tavam “sob a supervisão dele”, do Pezão. Entendeu? O cara que o Flávio, o Bolsonaro, indicou pra secretário do Castro e o aliado de primeira hora do Flávio, o Bolsonaro, eram subalternos do Pezão, o cara que traficava armas do Paraguai, drones e equipamento antidrone da China, cocaína do… do próprio TH. Então, assim, se era o Pezão que supervisionava o TH e o Carracena, me diz: quem era que supervisionava o Pezão?

Não sei. Mas olha só que coincidência: sabe quem também foi preso por suspeita de participar da organização criminosa, apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal como liderança do núcleo político do Comando Vermelho(16)? Você deve ter visto, né, nos jornais? O Rodrigo Bacellar, rapaz, ex-presidente da Alerj, o vice do Cláudio Castro. Uma balinha pro primeiro que adivinhar de quem o Bacellar era o preferido pra suceder o Castro como governador. Julinho, parabéns, acertou, toma balinha pra você. O filho do homem. Flávio. O Bolsonaro(17). Vai ter que se contentar com o Ruas, Flavinho. Ouvi dizer que tem bom currículo, ele, achei compatível com os empreendimentos do grupo(18).

A assessoria do Flávio, bom frisar, nega, evidente, qualquer relação. Claro que nega. Imagina assumir relação com cento e cinquenta quilos de cocaína a uma semana de tentar se eleger presidente – bate na madeira –, quando vai poder assumir relação, filho, enteado, sogra, sobrinho, sair do armário logo duma vez e assumir tudo, tudinho, inclusive o controle absoluto de quem deveria combater esse mesmo crime organizado que ele jura de pés juntos que vai combater. Eu também negaria. Aliado de primeira hora, indicado por mim, meu preferido pra governador, uns fofo, mas nem conheço. Nunca nem vi. Inteligência artificial, essas fotos aí. Não tenho barriga.

Até aí, novidade nenhuma. Geralmente, é o que costumam fazer mesmo. Negar a realidade. Coisa de dodói, vai entender. Vê o Trump, brother lá da familícia. Disse que tinha invadido a Venezuela pra combater o narcotráfico(19). Aí, capturou o Maduro e deixou os traficantes tudo lá. Colocou outra presidente no lugar pra “supervisionar” o trabalho da rapaziada, capaz. Cartel de Los Soles a pleno vapor(20). E quem você acha que tá no comando? Os EUA passaram a controlar o petróleo(21), querem as terras raras(22), a Venezuela toda, e justo o cartel de drogas que era o maior problema do país segue funcionando sem o comando dos EUA? Estranho, né? Só eu acho estranho?

De besta que eu sou. Porque o que não falta é exemplo de santo do pau oco nesse continente de meu Deus. Da Argentina a El Salvador. É, meu querido ancap, adianta sair de fininho, não, pode voltar, senta aí, e trata de ver até o final. Isso, assim, estrelinha na testa. Começo pelo Bukele ou pelo Milei? Milei, né? Visitou o Brasil, xingou todo mundo. Uma graça, ele. Amor de pessoa. Deve ter sido por isso que o Gastón Alberdi, ex-aliado próximo, revelou numa entrevista que o Milei tinha confessado pra ele já ter “assessorado narcotraficantes” como economista(23), e que o contato dele, o Federico Machado, tinha sido apresentado como “empresário”. Ia por acaso falar que era traficante? Não ia. Claro que não ia. Se falasse, o José Luis Espert, candidato do Milei à prefeitura de Buenos Aires em 2025, jamais teria recebido duzentos mil dólares do Machado nem admitido ter feito umas trinta e cinco viagens só nos aviões dele durante a campanha de 2019(24). Nunquinha. O Milei nega tudo, tudo coisa da oposição.

Que nem o presidente do Equador, o Daniel Noboa, um dos principais aliados de Trump na região, e teve sua família investigada por envolvimento no tráfico de cocaína pra Europa(25). A investigação revelou que pelo menos 26 milhões de euros em cocaína foram encontrados em contêineres de bananas da Noboa Trading Co., empresa da família do presidente… Naboa, com destino à Croácia e à Itália. Banana, cara. Toma aqui uma pra você, ó. Porque, apesar disso, o secretário de Estado lá dos Estados Unidos, o Marco Rubio, elogiou a cooperação do Noboa no combate ao narcotráfico(26). Quer um nariz de palhaço também? Tá de graça, pó pegar.

Aproveita e pega um pro papai, pra mamãe, pra titia, porque lá no Chile, agora, tem o José Antonio Kast como presidente. Bem apessoado, ele, nos trinques, gostei. Cara de compenetrado, tem. Mas ô dedinho podre. Tanta gente nesse mundo e o sujeito foi me escolher justo o Gustavo Villatoro como assessor? Conhece não? Rapaz, importou o cabra lá de El Salvador, ainda por cima, outro país, era ministro da Justiça do Nayib Bukele. Dizem – dizem, os jornais, não sou eu que tô dizendo – que esse Villatoro era “sócio de narcotraficantes” lá em El Salvador(27). Mas, pera, [apresentador], o Bukele não prendeu os meliantes tudo lá, os membros de gangue e tal, livrou o país da criminalidade? Foi, não?

Olha, justiça seja feita. Prendeu um monte, mesmo, quase tudo. O caboco se empenhou tanto que fez até pacto secreto, que de secreto não teve nada senão eu nem teria ficado sabendo, com o CJNG, o Cártel Jalisco Nueva Generação, lá do México, em 2023, pra que o cartel capturasse e entregasse o Crook, esse bonito aí, líder da Mara Salvatruga, a maior gangue de El Salvador. Não foi de graça, né, que esses belos olhos caídos não forram a mesa. Um milhãozinho só. De dólares. Mas o Bukele é tão burro que, no fim, descobriram que era tudo armação de um 171 pra cima dele(28). Quer dizer, armação o pacto com o cartel mexicano. Com os cartéis lá de El Salvador, não teve armação, não. Foi pra valer(29). De novo: não sou eu quem tá dizendo. Foi a imprensa. Discute lá com eles. Isso pra não falar dos três funcionários públicos salvadoreños, os três bem próximos do Bukele, incluindo seu chefe de gabinete, que foram apontados pelo Departamento de Estado dos EUA como corruptos e facilitadores do tráfico de drogas(30). Te contar, viu, se o Bukele por acaso tivesse qualquer tipo de vínculo oculto com o Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras condenado a quarenta e cinco anos por narcotráfico(31), daria até pra um com a mente mais suja imaginar que esse combate à criminalidade lá em El Salvador, no fim das contas, foi é tomada de território mesmo, acabar com a concorrência e ficar com o caminho livre pra assumir o controle da bandidagem em paz. Mas só se o Bukele tivesse vínculo oculto com algum condenado por narcotráfico, mesmo, senão… ah, diz que tem? Coincidência, né? Mais uma. [Corte do Flávio, dia desses, falando que não existe coincidência.] Só pode.

Por quê… sabe? Se a gente começar a pensar que tem alguma coisa a ver, isso tudo, foragido por tráfico que financia candidato do Milei, sócio de traficantes como assessor do Kast, pacto secreto entre cartel e o Bukele, e mais vínculo oculto com outro presidente narcotraficante – que mal tem, gente, ter vínculo com traficante, ser sócio, onde já se viu? que isso?, preconceito bobo, eu hein –, onde é que a gente vai parar? Vai pensar o que mais? Que o Trump tem alguma coisa a ver com isso?(32) Que o Trump tá controlando o Cartel de Los Soles agora? E que o Escudo das Américas é só uma desculpinha furada pra tomar o controle do narcotráfico em toda a América Latina? Sabe nem o que é Escudo das Américas? Já ouviu falar, sim. Aquela coalizão político-militar criada em março desse ano, liderada pelos Estados Unidos, pra “combater” o “narcoterrorismo” na América Latina e que conta com dezessete países da região, entre os quais… Argentina, Chile, El Salvador e Venezuela. Só Brasil e México ficaram de fora(33). Desfeita, na boa, nada a ver.

Se o Trump tivesse dado indulto pro Hernandez(34), sabe, ou se ele tivesse lucrado milhões e milhões de dólares lavando dinheiro do narcotráfico colombiano(35), ou tivesse, sei lá, feito acordo com o filho do El Chapo, lembra do El Chapo?, pra que dezessete familiares de líderes do Cartel de Sinaloa entrassem nos EUA(36), ou fosse aliado e entusiasta das bananas do Noboa, aquelas, eu até que pensaria mesmo coisa errada sobre ele. Daria até pra pensar que essas centenas de soldados(37) que ele tá enviando pra cá não é pra combater narcotráfico nada, coisa nenhuma, mas só pra ocupar o território mesmo e tomar o controle do cartel todo, que nem ele fez lá na Venezuela. Porque besta eu sou, mas nem tanto. Hein? Os EUA acabaram de revogar o visto do procurador-geral da Bolívia, o Roger Mariaca, aquele que liderava as investigações contra o aliado do Trump, o Luis Fernando Camacho, por lavagem de dinheiro e proteção a narcotraficantes, foi? Car#$%, mas esse por*# também não ajuda, né? Tá, me devolve um nariz de palhaço daqueles que o menino aqui tá querendo agora, mudou de ideia. Me dá dois logo que eu vou colocar outro também na testa. Camisinha de pensamento.

Porque o problema de ficar pensando nessas coisas, sabe, é acabar imaginando que o Flávio, o Bolsonaro, só quer virar presidente pro Brasil entrar nesse clubinho do narcotráfico do bem aí(38) e fazer que nem o Bukele lá em El Salvador: acabar com a concorrência e entregar o monopólio do narcotráfico de bandeja nas mãos do aliado, do preferido, do indicado, do Comando Vermelho e da narcomilícia toda duma vez. E é como dizem, né, porta de entrada. Começa com uma droguinha aqui, quando vê já tá fumando cocaína, fica doidão e logo já quer dar o ouro, as terras raras, as joias da coroa tudo. Um narcogarimpão das Américas. Botam ordem nas casinhas deles e transformam o país, o continente inteiro, num grande cartel de drogas comandado pela narcomilícia do bem. Que nem o Major Curió fez lá em Serra Pelada. Disse que ia proteger os garimpeiros, acabou foi criando uma cidade com o nome dele pra proteger os próprios interesses – e as festinhas do Vorcaro. E é justo o que vai acontecer se o Flávio, o Bolsonaro, virar presidente e pau mandado sob supervisão do Trump. Ele jura de pés juntos que quer o Brasil no Escudo das Américas pra te proteger. Mas só quer proteger a narcomilícia dele. Tirar a soberania do Brasil das nossas mãos e entregar de mãos beijadas pro narcotráfico internacional. Pro chefão da quadrilha. Entendeu? Que bom, pena que não basta só entender. E aí? Vai deixar?

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Referências da matéria
(1) https://www.cnnbrasil.com.br/politica/queiroz-admite-esquema-de-rachadinhas-ao-mp-e-tenta-inocentar-flavio-bolsonaro/

(2) https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2026/10/pivo-da-rachadinha-queiroz-da-vitoria-de-flavio-como-certa-e-ja-se-movimenta.ghtml]

(3) https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/09/03/quem-e-o-advogado-e-ex-secretario-suspeito-de-vazar-informacoes-e-ajudar-o-comando-vermelho.ghtml

(4) https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2025/09/pf-diz-que-traficante-do-comando-vermelho-pagou-ex-deputado-th-joias-e-ex-secretario-de-esportes-do-rj-cmf90babb02e3015i5iaa5ufw.html
(5) https://aparecidanet.com.br/flavio-indicou-membro-do-cv-para-o-governo-de-claudio-castro-no-rj/

(6) https://www.bnews.com.br/noticias/politica/drogas-armas-e-bazucas-antidrones-th-joias-vira-reu-por-esquema-ligado-ao-comando-vermelho.html

(7) https://www.diariocarioca.com/2026/09/12/politica/judiciario/aliado-dos-bolsonaristas-th-joias-ex-deputado-estadual-no-rio-vira-reu-por-envolvimento-com-cv

(8) https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/07/22/policia-prende-ex-assessor-parlamentar-de-th-joias-apontado-como-operador-financeiro-ligado-cv.htm

(9) https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/06/pf-encontra-foto-de-th-joias-na-cama-com-milhoes-ex-deputado-converteu-milhoes-em-dolares-para-traficante-do-alemao.ghtml

(10) https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/05/th-joias-gravou-video-de-200-kg-de-maconha-e-ofereceu-a-traficante-que-disse-nao-e-bom-de-vender.ghtml

(11) https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/mpf-diz-que-th-joias-negociou-com-o-comando-vermelho-arma-usada-para-derrubar-drones.ghtml

(12) https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/08/27/procurados-chefes-do-trafico-da-velha-guarda-continuam-soltos-no-rj.htm

(13) https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/09/th-joias-guardava-200kg-de-drogas-e-controlava-pagamentos-da-venda-de-cocaina-diz-denuncia-do-mpf.ghtml

(14) https://extra.globo.com/casos-de-policia/policia-identifica-traficante-de-armas-preso-com-identidade-falsa-no-paraguai-24884770.html

(15) https://revistasegurancaeletronica.com.br/traficantes-do-comando-vermelho-compram-drones-com-capacidade-para-transportar-ate-20-fuzis-entre-favelas/

(16) g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/02/27/pf-indicia-rodrigo-bacellar-e-mais-4-por-vazamento-de-dados-para-o-comando-vermelho.ghtml

(17) https://diariodorio.com/com-apoio-de-flavio-bolsonaro-bacellar-ganha-forca-como-sucessor-de-castro-no-rj/

(18) https://conjur.com.br/2026-out-02/mp-rj-investiga-douglas-ruas-por-peculato-lavagem-de-dinheiro-e-organizacao-criminosa/

(19) https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/06/apos-captura-governo-trump-recua-sobre-acusacao-de-que-maduro-chefiava-cartel-de-drogas.ghtml

(20) https://www.ntn24.com/noticias-actualidad/pese-a-captura-de-maduro-el-cartel-de-los-soles-sigue-operando-en-venezuela-asegura-investigacion-de-insight-crime-610894

(21) https://www.brasildefato.com.br/colunista/observatorio-de-politica-externa/2026/09/24/soberania-sequestrada-como-os-eua-assumiram-o-controle-das-reservas-de-petroleo-da-venezuela-para-alimentar-suas-refinarias/

(22) https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/alem-de-petroleo-eua-miram-potencial-em-terras-raras-da-venezuela/

(23) https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/ex-aliado-acusa-milei-de-manter-lacos-estreitos-com-empresarios-narcos/

(24) https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2025/10/07/argentina-extraditara-aos-eua-suposto-traficante-que-diz-ter-financiado-deputado-de-milei.htm

(25) https://progressive.international/wire/2025-03-31-daniel-noboas-family-business-president-of-ecuador-is-involved-in-cocaine-trafficking-to-europe/en/

(26) https://www.semafor.com/article/12/23/2025/ecuadorian-presidents-family-banana-business-smuggled-drugs-investigation-finds

(27) https://larepublica.pe/mundo/2025/12/08/gustavo-villatoro-el-hombre-detras-del-plan-de-bukele-y-aliado-de-kast-que-es-vinculado-con-narcotrafico-y-corrupcion-ntpe-538816

(28) https://english.elpais.com/international/2024-01-29/how-a-salvadoran-gangster-duped-the-bukele-government-with-a-fake-scheme-to-catch-an-ms-13-fugitive-wanted-by-the-us.html

(29) https://www.dw.com/es/l%C3%ADder-pandillero-revela-los-pactos-de-bukele-con-las-maras/a-72412223

(30) https://www.latimes.com/espanol/california/articulo/2021-05-17/estados-unidos-senala-de-corrupcion-a-cinco-salvadorenos-dos-integran-el-gabinete-de-bukele

(31) https://reporterosdeinvestigacion.com/2022/03/31/los-negocios-entre-el-ex-presidente-ligado-al-narcotrafico-nayib-bukele-y-daniel-ortega/]

(32) https://www.reuters.com/world/americas/former-honduran-president-released-us-prison-after-trump-pardon-2025-12-02/

(33) https://ncnews.com.br/2026/09/23/brasil-e-mexico-ficam-fora-de-alianca-dos-eua-contra-o-crime-organizado-e-desafiam-estrategia-de-trump/

(34) https://www.nbcnews.com/politics/trump-administration/former-honduran-president-juan-orlando-hernandez-freed-trump-pardon-rcna246968

(35) https://www.newsweek.com/trump-drugs-corruption-panama-hotel-money-laundering-714891

(36) https://www.nytimes.com/2025/05/14/world/americas/mexico-cartel-chapo-family.html

(37) https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/10/14/eua-estao-enviando-centenas-de-soldados-para-a-america-latina-dizem-autoridades-militares-americanas.ghtml

(38) https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/23/flavio-promete-incluir-brasil-no-escudo-das-americas.ghtm

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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