“Esse aqui é um dos cabeças, tem que prender os cabeças”

“Esse aqui é um dos cabeças, esse aqui é um dos cabeças, tem que prender os cabeças”, afirmava um policial militar enquanto levava detido o estudante de Direito, Eduardo Rodrigues, que caminhava junto a mais de 400 manifestantes na Av. Nazaré, em Belém, contra a PEC 55, na noite de ontem, 7. Entre intimidações e repressão, a policia deteu 10 manifestantes, manteve-os por cerca de 2 horas em um camburão e não comunicou para onde seriam levados.

A maioria dos detidos relatou que estava filmando a ação dos policiais quando foram levados. Leandro Calda contou, “Os policiais estavam tentando avançar com o carro em cima dos manifestantes quando eu comecei a filmar, um policial desceu do carro e disse ‘ei, ei, já que tu ta gravando, grava la na delegacia’, e puxou o celular da minha mão, agarrou meu braço e me levou pro camburão”, disse.

Um dos amigos, Yan Campo, relatou que foi preso por que tentou saber para qual delegacia iriam levar Leandro: “Perguntei pra qual seccional ele seria levado, que eu ia ligar pro advogado, ele falou ‘você pode ligar pro advogado da delegacia’, eu respondi ‘não, eu vou ligar pro advogado daqui de fora’, ele pegou pelo meu braço e repetiu ‘não, você pode ligar pro advogado da delegacia’”.

Duas mulheres foram fortemente agredidas por policiais da ROTAM, umas delas saiu com o rosto, braços e peito, roxos por conta do uso de spray de pimenta a centímetros de distância. Outra mulher foi agredida com dois tapas no peito quando não estava oferecendo nenhuma resistência a PM.

As ações da policia se dividiram em dois momentos: em frente a sede do PMDB, partido de Michel Temer, e na Av. Nazaré, onde manifestantes relataram que por um quarteirão, policias militarem e da ROTAM tentaram avançar com o carro pelo meio da manifestação, enquanto batiam na carcaça do carro e gritavam palavras ofensivas para o presentes, “vagabundos, vagabundos”. Um dos policiais, nesse momento, chegou a apontar arma letal para várias pessoas que estavam ali, “Os policiais estavam transtornados”, “Chegaram a apontar armas a menos de 1m para os manifestantes”, contou um dos estudantes que aguardava para realizar o TCO, na Divisão de Repressão ao Crime Organizado, para onde foram levados os detidos.

A atitude de levar os estudantes detidos para a DRCO foi tomada para desmobilizar a manifestação, como confirmou o Capitão Alan Solivam, responsável pelo caso na Divisão, afirmando para os advogados que “a ideia de trazer pra cá era desmobilizar os manifestantes”, tendo em vista que em Setembro, 2, quando 2 estudantes foram detidos, a manifestação caminhou para frente da Seccional de São Braz, local onde se responde tais denúncias, e lá os manifestantes pressionaram a PM para liberarem os detidos.

(Carvalho da Costa — Arquivo Pessoal)

Outro policial da DRCO, ao receber os estudantes, disse que “Isso aqui é uma medida de exceção, uma viagem terem trazido vocês pra cá”.

Os 10 estudantes realizaram os procedimentos legais, prestaram depoimento e foram liberados. Nenhuma acusação foi feita na Divisão contra quaisquer manifestante.

Nesse vídeo feito por Regiany Nascimento para o Jornalistas Livres, 2 dos manifestantes detidos no ato relatam os abusos que sofreram na noite do dia 7. Aos gritos de “Ninguém é bandido”, o restante dos manifestantes acompanharam a ação da PM pacificamente.

A maioria dos casos de repressão policial em Belém são em mulheres e negras, deixando claro o machismo institucional encontrado na PM. O tratamento que a policia da para os manifestantes é de um Estado de Exceção.

Não menos do que está a acontecer nas manifestações contra os governos que querem aplicar medidas de austeridade, seja a nível internacional, nacional ou regional, em Belém o que aconteceu foi o resultado da criminalização dos movimentos sociais e a campanha de desmoralização dos mesmos feita pelas grandes mídias do país e apoiada por governos autores de medidas impopulares e que ferem direitos dos cidadãos.

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